ESTADOS UNIDOS-CHINA: Google provoca Pequim

Washington, 29/03/2010 – Usuários chineses da Internet denunciam diversos graus de censura em Pequim, nos resultados de suas buscas no Google desde que essa empresa norte-americana decidiu abandonar suas operações na China e mudar-se para a região autônoma de Hong Kong. A empresa anunciou, no dia 22, que o tráfego do serviço do Google.cn seria dirigido para um site hospedado em Hong Kong, com status administrativo especial que não restringe o uso da Internet.

“Os usuários que visitarem o Google.cn serão dirigidos para o Google.com.hk, onde oferecemos uma busca sem censura em chinês simplificado, especialmente desenhado para usuários chineses e distribuído por nossos servidores em Hong Kong”, diz o comunicado no blog corporativo da empresa. “Os usuários de Hong Kong poderão continuar suas buscas no Google.com.hk, o serviço em chinês tradicional sem censuras”, acrescenta.

Em janeiro, a companhia denunciou que as contas de e-mail de numerosos jornalistas, defensores de direitos humanos locais e diplomatas foram violadas por hackers, decidindo em seguida deixar de cooperar com as autoridades da China na censura aos resultados das buscas. Também houve rumores de que o Google era vítima de uma ciberespionagem de maiores proporções, com a aprovação tácita ou com a ativa assistência de instituições de pesquisa financiadas pelo governo chinês, o que fez com que a empresa deixasse de cooperar com Pequim.

Muitas pessoas esperavam que a empresa chegasse a um acordo com as autoridades chinesas, mas o anúncio do dia 22, e a consequente censura dos resultados de seus buscadores, que se tornou pública no dia 23, mostram o fracasso das negociações. Pequim divulgou um comunicado em seguida ao anúncio do Google. “Isto é um completo erro. Nos opomos fortemente à politização de questões comerciais e expressamos nosso descontentamento e nossa indignação com o Google por sua conduta e suas acusações pouco razoáveis”, diz um comunicado divulgado no dia 23 pelo Escritório da Internet do Departamento de Informação do Conselho de Estado à agência de notícias estatal Xinhua.

O governo de Barack Obama se esforça para não dar grande importância ao significado do anúncio do Google, quando a Casa Branca sofre pressões do Congresso para que assuma uma posição mais dura a fim de forçar a China a desvalorizar sua moeda. “Ouviram o presidente chinês, que foi bastante claro sobre sua política e a convicção de que é um governo aberto e de que a capacidade de as pessoas se comunicarem sem censuras é tremendamente importante”, disse o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, aos jornalistas. “Pode ser que haja, como em outros assuntos, desacordos em uma relação diplomática madura”, acrescentou.

Especialistas dos Estados Unidos em assuntos chineses estão na expectativa das medidas que Pequim tomará, se amplia a censura ou bloqueia o acesso aos servidores do Google em Hong Kong a partir do continente. “O que se pode interpretar é que o governo chinês estuda uma resposta”, disse à IPS Christina Larson, especialista e integrante da New America Foundation. “A decisão da empresa de redirecionar os usuários e de deixar nas mãos do governo chinês a decisão de bloquear, ou não, o site, deixa a bola no campo de Pequim. É uma forma de provocação”, disse Larson.

O anúncio do Google de que deixaria de cooperar com Pequim na censura contou com apoio da secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, que defendeu a liberdade na Internet. “Quem perturba o livre fluxo de informação em nossa sociedade, ou em qualquer outra, representa uma ameaça para nossa economia, nosso governo e nossa sociedade civil”, disse Hillary em janeiro. A questão da liberdade na Internet, que motivou declarações igualmente duras em Pequim, foi um elemento a mais do tenso período das relações entre os dois países.

Obama autorizou em setembro uma sobretaxa de emergência de 35% sobre as importações de pneus chineses para deter a invasão desse produto que, segundo os sindicatos norte-americanos, custaram sete mil postos de trabalho. Pequim condenou a medida e ameaçou impor sobretaxas a produtos norte-americanos. Outro episódio conflituoso aconteceu no mês passado, quando a China ameaçou impor sanções às empresas norte-americanas que participariam de um iminente acordo de venda de armas para Taiwan no valor de US$ 6,4 bilhões.

A crise econômica de 2008 causou impacto na economia dos dois países. Pequim busca fazer com que cada vez mais recursos de sua favorável balança de pagamentos não sejam investidos em divisas norte-americanas, mas em ações e produtos básicos. Por seu lado, Obama é cobrado para enfrentar o crescente déficit comercial com a China e pressionar mais para conseguir uma substancial valorização do yuan. A decisão do Google de se retirar da China foi uma “decisão empresarial”, disse o porta-voz do Departamento de Estado, Philip J. Crowly. A chancelaria nada teve a ver com isso, acrescentou.

“Assuntos ligados à propriedade intelectual são permanentes na discussão e na preocupação no que diz respeito às nossas relações com a China. Repetimos isso várias vezes. Definitivamente, as companhias avaliarão as oportunidades de investimento nesse país. Valorizamos a relação entre os dois países. O comércio bilateral aumentou de forma exponencial nos últimos 20 a 25 anos”, afirmou Crowley. IPS/Envolverde

Eli Clifton

Eli Clifton is a national security reporter for ThinkProgress.org. Eli holds a bachelor's degree from Bates College and a master's degree in international political economy from the London School of Economics. He previously reported on U.S. foreign policy for IPS, where he served as deputy Washington, D.C. bureau chief. His work has appeared on PBS/Frontline's Tehran Bureau, the South China Morning Post, Right Web, Asia Times, LobeLog.com, and ForeignPolicy.com. Website: http://thinkprogress.org/author/eclifton Blog: http://thinkprogress.org/security/issue/

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