ÁFRICA DO SUL: Homens combatem a violência contra o género

Cidade do Cabo, 13/04/2010 – Quando Mbuyiselo Botha decidiu levar o Presidente da Liga da Juventude do Congresso Nacional Africano, Julius Malema, a tribunal por empregar um discurso baseado no ódio contra as mulheres, estava confiante desde o início que o caso tinha mérito. Mas também sabia que iria ser o teste mais difícil dos seus 15 anos como activista do género. “Os meus colegas dos dias do activismo anti-apartheid avisaram-me que eu tinha tomado uma acção que iria prejudicar a minha carreira, visto que estava a desafiar a liderança negra,” disse Botha. Apesar do desencorajamento e do potencial de arranjar inimigos na liderança, avançou com o caso no tribunal e ganhou. No dia 15 de Março, o polémico Malema foi considerado culpado de empregar um discurso baseado no ódio, depois de ter insinuado que a mulher que acusou o Presidente Jacob Zuma de violação, em 2005, tinha gostado do que lhe acontecera. Dirigindo-se a estudantes na Cidade do Cabo no ano passado, Malema foi citado como tendo dito o seguinte: “Quando uma mulher não gostou, abandona o local de manhã cedo. Aquelas que passaram bons momentos esperam até que o sol se levante e pedem pequeno-almoço e dinheiro para apanharem um táxi.” O dirigente da juventude do ANC, no poder, foi ordenado a pagar 50.000 randes ($6.700) ou a pedir desculpa publicamente por estas declarações num periodo de um mês após a decisão do tribunal. “Infelizmente, os comentários de Malema reflectem a mentalidade geral dos homens na África do Sul e em África no seu todo. Pensam que têm o direito de dominar as mulheres, o que é errado,” disse Botha, pai de três filhos. Banir os mitos da superioridade masculina Tendo estado envolvido em protestos anti-apartheid nos anos 80, Botha conhece muito bem a dinâmica do activismo. Participou numa série de protestos, foi baleado e ferido e ficou com uma deficiência permanente. A luta contra o apartheid, afirma, fê-lo chegar à conclusão que “todas as formas de opressão são inaceitáveis.” “Depois do fim do apartheid em 1994, pensei que não podíamos reivindicar a liberdade total quando as mulheres ainda estão sujeitas a sofrimento por causa de práticas e percepções culturais desnecessárias.” Botha mencionou, por exemplo, a prática dos casamentos forçados, conhecidos nas línguas Nguni como ukhutwala, e que ainda são comuns noutras partes de África. “Isso não é diferente da violação. Na África do Sul em particular, é chocante, temos os índices de violação mais elevados.” Um estudo efectuado em 2009 pelo Conselho de Pesquisa Médica da África do Sul revelou que um em cada quatro homens entrevistados admitiu ter violado uma mulher, o índice mais elevado de todo o mundo. A pesquisa também indicou que muitos poucos casos eram participados. Estas conclusões assustadoras são o que Botha, através das organizações com as quais trabalha, como a Sonke Rede de Justiça para o Género e o Fórum dos Homens, procura inverter. Homens agem contra a violência do género Quando a Sonke Rede de Justiça para o Género foi criada em 2006, a organização constatou que a maioria dos homens entrevistados em Joanesburgo acreditava que não estava a fazer o suficiente para acabar com a violência doméstica. Desde então, a organização tem educado e dado formação a rapazes e homens no sentido de “reformular o seu pensamento.” “Temos estado a trabalhar em seis das dez províncias do país e contamos expandir a nossa presença,” disse Regis Mtutu, Coordenador dos Programas Nacionais da organização. Sonke quer dizer “Juntos” nas línguas Nguni. É esta a estratégia da organização, numa tentativa de atingir a igualdade do género. “Acreditamos simplesmente que, ao trabalhar no contexto masculino, ao falar com os homens, juntamente com as organizações que promovem os direitos das mulheres, conseguiremos atingir os nossos objectivos,” acrescentou Mtutu. Espalhar a mensagem Actualmente, a organização está a iniciar o seu principal programa, “Um Homem Pode”. “Queremos mostrar que os homens podem respeitar e amar as suas mulheres apaixonadamente, que podem mudar os seus valores e lutar pela igualdade nas suas comunidades,” explicou Mtutu.

O projecto viu a organização formar rapazes e homens em várias comunidades – especialmente comunidades rurais e de elevada densidade populacional. A formação, segundo a organização, realiza-se usando imagens e testemunhos sonoros. Estes esforços são dirigidos para os grupos mais sofisticados através de redes sociais como o Facebook e Twitter. A Sonke quer atingir pelo menos 20.000 homens nos próximos três anos e estabelecer muitas delegações que estarão permanentemente ;pcalizadas nas comunidades.

A organização tem estado a trabalhar com os chefes tradicionais no sentido de estabelecer uma presença permanente na maior parte do país. O objectivo, diz Mtutu, é mudar o ego falso da dominação do homem através daqueles que são responsáveis pela cultura. O sentido de supremacia dos homens é produto da cultura, tradição e religião, diz Mtutu.

“Quando o falso sentido de masculinidade for invertido, assistiremos à diminuição do VIH, simplesmente porque as actividades sexuais forçadas e o mito da violação terão sido eliminados.”

Noutras partes de África, a Sonke está a trabalhar em colaboração com organizações semelhantes, como a Padare/Enkundleni no Zimbabué, a organização Os Homens Podem sediada no Quénia e o Centro de Recursos dos Homens do Ruanda. Em conjunto, as organizações decidiram num simpósio em 2009 ajudar os governos africanos através do fortalecimento de capacidades e da implementação das políticas.

Davison Makanga

Davison Mudzingwa is a journalist based in South Africa, but constantly travels and reports in Southern Africa. His reportage ranges from human rights, environment, water, gender, development and entrepreneurship. As a multimedia journalist, he has contributed to various platforms through text, audio and photography. Davison is also the founder of Entrepreneurship Africa, a multimedia website that profiles entrepreneurs and entrepreneurial activities across Africa.

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