AGRICULTURA-AFRICA: O efeito Islândia

Cidade do Cabo, 29/04/2010 – Os agricultores da África avaliam o impacto financeiro da última erupção vulcânica na Islândia, que forçou o fechamento do espaço aéreo da Europa e, portanto, bloqueou suas exportações para esse mercado.
Produtos com etiqueta No dia 15, uma enorme nuvem gerada pela erupção do vulcão Eyjafjoell, localizado em uma geleira no sul da Islândia, se espalhou até a Europa continental. As cinzas vulcânicas reduzem a visibilidade e as partículas de vidro que contém afetam os motores dos aviões. Isto fez com que, um após outro, os países europeus decidissem fechar seus aeroportos.

Diante disso, cooperativas de comércio justo africanas tiveram de se desfazer de 20 milhões de flores destinadas ao mercado europeu. “Só os plantadores do Quênia perderam cerca de um milhão de flores por dia”, disse o coordenador regional da Rede da África Austral pelo Comércio Justo (SAFN), Benjamin Gatland. A SAFN é uma rede de fazendas certificadas no sul da África que ajuda pequenos produtores com informação sobre mercados.

Comércio justo é a forma alternativa de transações comerciais promovida por movimentos sociais, que se manifesta fundamentalmente na criação de cooperativas e que rejeita os subsídios oficiais, com ênfase no respeito ao meio ambiente a aos direitos trabalhistas. “Embora ainda deva ser feita uma avaliação dos prejuízos, está claro que as implicações financeiras para o Quênia são consideráveis. Algumas cooperativas de comércio justo perderam suas colheitas inteiras de flores”, disse Gatland à IPS durante uma reunião da Rede. No total, o setor de horticultura queniano informou perdas no valor de US$ 15 milhões.

Os produtores de frutas e verduras do Quênia também foram afetados. “Felizmente, a maior parte da produção foi colocada em nível local. Com as flores é diferente. Devem ser transportadas quando estão em flor, porque de outra maneira não interessa aos compradores”, disse Gatland. Por outro lado, “vender frutas e verduras a preços locais naturalmente não é tão lucrativo como colocá-las na Europa”, acrescentou.

Mas os produtores do comércio justo não foram os únicos que sofreram com o fechamento do espaço aéreo europeu por cinco dias. Seus vizinhos da Etiópia, um dos países mais pobres do mundo, também sofreram o impacto. “Visitamos muitas fazendas nesse país nos últimos dois dias, grandes e pequenas, e vimos que é uma grave crise para eles”, disse Erling Olstad, diretor da Mester Gronn, a maior rede de produtores do comércio justo da Noruega. “Jogaram fora enormes quantidades de flores”, acrescentou.

Agora que as cinzas do vulcão parecem se dissipar e a Europa reinicia seu tráfego aéreo, a SAFN procura reiniciar suas exportações. “Nossa missão para os próximos anos é aumentar o número dos fornecedores africanos de comércio justo”, disse Gatland. “Neste momento, o continente tem 250 produtores certificados. Estamos trabalhando duro para envolver mais pessoas”, acrescentou. Os produtos mais importantes da África nas cooperativas de comércio justo são café, chá, flores, especiarias, frutas e vinho. A maior parte destinada à exportação.

“O café procede de Ruanda, República Democrática do Congo, Uganda e Malawi. Embora o Quênia também seja importante em matéria de produção cafeeira sob os critérios do comércio justo, seu principal produto está nas flores. O mesmo ocorre com o Zimbábue”, disse Gatland. “A maior parte de nosso vinho vem da África do Sul. Atualmente, são 20 Estados certificados em comércio justo na Província Ocidental do Cabo, centro da indústria vinícola do país”, disse.

Outros produtos africanos de comércio justo são pinha e açúcar da Suazilândia, chá e mel do Malawi, e manteiga de carité e cacau da África ocidental. “Há muito sna África do Sul que não conhecem o fenômeno do comércio justo. Queremos mudar isso, simplesmente porque parece haver um mercado para esse tipo de produto”, disse Boudewijn Goossens, diretor-executivo da organização Rótulo Comerico Justo da África do Sul.

“No ano passado, o valor total dos produtos de comércio justo sul-africanos vendidos em nível local foi de US$ 335 mil. Em termos de venda no varejo, falamos de US$ 545 mil. Isto é muito, porque nos anos anteriores a 2009 a cifra era quase zero”, explicou.

Uma companhia produtora sul-africana de comércio justo é a Waxit, fabricante de vela com cera de abelha. “Começamos há dois anos, e hoje contamos com 300 artesãos”, disse o diretor-executivo da empresa, Riaan Bosch. “Nossa produção no momento está entre nove e 11 toneladas de velas por mês, das quais 90% são exportadas para a Europa. Pagamos entre 90% e 200% mais do que o salário médio por hora na região”, destacou. IPS/Envolverde

Miriam Mannak

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