Juba, Sudão do Sul, 29/04/2010 – As buzinadas e as palavras de ordem de um grupo de partidários do reeleito presidente sudanês, Omar al-Bashir, mal atraiam a atenção dos transeuntes de Cartum. Mas outra foi a história no sul do país. Bashir obteve 68% dos votos em todo o país, segundo resultados oficiais divulgados no dia 27 pelo presidente da Comissão Eleitoral, Abel Alier. No sul, veículos cobertos com bandeiras locais geraram mais entusiasmo quando partidários do Movimento da Libertação do Povo do Sudão saíram para festejar a maioria obtida no parlamento regional. Além disso, Salva Kiir ficou com 93% dos votos no Sudão do Sul e continuará governando essa região semiautônoma.
As controvertidas eleições gerais, que aconteceram entre os dias 11 e 15 deste mês, as primeiras em 24 anos, foram boicotadas pela maioria dos partidos de oposição. De turbante branco e longa túnica, o presidente apareceu na televisão tão descontraído como se tivesse conseguido anular a ordem de prisão contra si emitida pelo Tribunal Penal Internacional. Bashir é acusado de genocídio e crimes contra a humanidade na região sudanesa de Darfur, acusações que não acabam com a vitória eleitoral. Além disso, agora deverá enfrentar acusações de fraude eleitoral e a possível desintegração do país.
O Movimento de Libertação obteve o que queria, manter o poder no sul com vistas ao referendo de 2011, sobre o status futuro dessa região. Mas, no resto do país a oposição não ficará calada. “Iremos à justiça. Se os juízes não decidirem em nosso favor, recorreremos a outras alternativas para resolver os problemas eleitorais”, disse na semana passada o dirigente islâmico Hassan al-Turabi, presidente do Partido do Congresso Popular, sem dar mais explicações. Outros acusaram os Estados Unidos, entre outros atores internacionais, de imporem as duas agrupações governantes: o Partido Nacional do Congresso, no norte e o Movimento de Libertação, no sul.
A agrupação do ex-primeiro-ministro Sadiq al-Mahdi, o Partido Nacional Umma, disse que o interesse de Washington é preparar o caminho para dividir o país. Este partido, que boicotou as eleições, foi derrubado em 1989 por um golpe militar liderado por Bashir. A população do sul deverá ir às urnas em janeiro próximo para decidir se quer um Estado separado ou se continua fazendo parte do Sudão.
Observadores internacionais criticaram as eleições por não cumprir os padrões internacionais, mas destacaram o desenvolvimento pacífico como um fator importante. Houve numerosas denúncias de problemas com as cédulas, candidatos presentes em mais de um distrito eleitoral, pessoas que não estavam na lista de eleitores aptos a votar e observadores que, ao menos em um caso, não puderam entrar nos locais de votação, o que obrigou a estender por mais dois dias as eleições.
“Não podemos dizer que as eleições seguiram os padrões internacionais, mas isso não minimiza o êxito de que foi uma importante transição”, disse Salah Halima, chefe da missão da Liga Árabe neste país. A União Africana foi mais generosa. “O ocorrido no Sudão é um fato histórico e um grande êxito para o povo sudanês”, disse Kunle Adeyemi, porta-voz da missão de observadores da União Africana, liderada pelo ex-presidente de Gana, John Kufuor.
O Movimento de Libertação tomou medidas para garantir que houvesse 25% de mulheres entre os candidatos a todos os cargos. Nyandeng Malek foi eleita governadora do Estado de Warrab, de onde é originário Kiir. Mas foi inesperado o fracasso de Jemma Nunu Kumba, governadora de Equatória Ocidental, na fronteira com a República Democrática do Congo e a República Centro-Africana.
Kumba é conhecida por sua determinação em eliminar as bases estabelecidas pelos rebeldes ugandenses do Exército de Resistência do Senhor, no Sudão do Sul. O próprio Kiir a apoiou na campanha, mas foi derrotada por um candidato independente, o coronel Joseph Bokosoro. Resta esperar o resultado da consulta popular de janeiro. IPS/Envolverde

