MOÇAMBIQUE: Tremores de Terra: não uma questão de se realmentei rão acontecer mas quando

MAPUTO, 21/04/2010 – O tempo é o aspecto mais importante quando se responde a um catástrofe natural. Os especialistas de gestão de catástrofes de Moçambique estão preocupados com o facto de estarem a perder informação importante sobre os pequenos tremores que ocorrem quase todos os dias naquele país propenso a terramotos.

Três das cinco estações de detecção sísmica em Moçambique não estão operacionais; há vários meses que os sismógrafos foram danificados por raios e chuvas.

“Um terramoto como aquele que teve lugar no Haiti pode ocorrer em Moçambique porque nos encontramos numa região altamente sísmica,” disse Elias Daude, chefe da Direcção Nacional de Geologia (conhecida pela sua sigla portuguesa, DNG).

Moçambique está numa extremidade do Sistema de Fractura da África Oriental, uma faixa de terra com 3.000 quilómetros de comprimento e 50-60 quilómetros de largura, que se estende desde o norte da Etiópia até ao Rio Zambeze.

A Fractura é um exemplo pouco habitual de uma placa continental activa a afastar-se, sendo o processo caracterizado por terramotos como aquele que fez tremer a província moçambicana de Manica em 2006 e o país vizinho, o Malawi, e a Tanzânia em 2009.

Perto da meia-noite do dia 22 de Fevereiro de 2006, ocorreu um terramoto de 7.2 na escala de Ritcher, com epicentro no distrito de Machaze, na província de Manica, que faz fronteira com o Zimbabwe.

Trata-se da mesma magnitude que o terramoto que devastou o Haiti em Janeiro, matando 200.000 pessoas e destruindo a capital do país. O recente terramoto no Chile chegou a 8 naquela escala.

Carlos Froi é professor de escola primária e vive a 50 quilómetros do epicentro do tremor de terra em Machaze. Recorda-se como a cama tremeu. “Saltei pela janela, meio vestido, no meio do pânico geral,” contou à IPS.

O terramoto em Machaze causou quatro mortes, feriu 27 pessoas e danificou 160 edifícios, de acordo com os Serviços Geológicos dos Estados Unidos.

A escala da destruição foi muito menor em Machaze porque esta zona rural é pouco povoada, com 90.000 pessoas em 83 aldeias. As palhotas feitas de lama e troncos também resistiram melhor ao tremor de terra do que aconteceria no caso de construções de cimento.

“Se o tremor mais forte em Machaze tivesse acontecido na capital provincial, não tenho dúvidas que a situação seria semelhante ao Haiti,” disse Abdul Magid, técnico de monitorização sísmica que trabalha na DNG.

Melhor resposta

Depois de 2006, o governo investiu em melhoramentos técnicos na DNG, mudando da análise manual da informação sísmica enviada das províncias para Maputo para a análise digital.

Este ano, nova tecnologia irá acelerar o processo para cinco minutos em vez de 30, melhorando a capacidade de resposta, explicou Paulino Feitio, o primeiro e único especialista de terramotos moçambicano. O tremor de terra de Machaze levou Feitio, geólogo, a concluir um curso superior no Instituto Internacional de Sismologia no Japão.

Feitio disse à IPS que são necessárias pelo menosde cinco estações de detecção sísmica em Moçambique. Os simógrafos danificados, enviados tardiamente para a África do Sul para serem arranjados, provêm das províncias de Maputo, Namoula e Niassa, enquanto que os localizados nas províncias de Manica e Tete estão a funcionar normalmente. Outras quatro estações estão planeadas para 2010, cada uma a um custo de quase 38.000 dólares.

A resposta rápida é crucial

Joao Ribeiro, director do Instituto Nacional de Gestão de Catástrofes, explica que os primeiros 20 minutos depois de uma catástrofe são cruciais para salvar vidas, e que 80 por cento das tarefas de busca e salvamento constituem um esforço local.

O Instituto de Ribeiro dirige um centro perto do aeroporto internacional de Maputo, que está permanentemente aberto e preparado para gerir a resposta a qualquer emergência natural, em estreita coordenação com a DNG.

“Somos um país pobre e não podemos construir muitas infra-estruturas, mas podemos preparar a população para reagir melhor a um desastre,” disse Ribeiro.

Depois das grandes cheias que assolaram Moçambique em 2000, o Instituto criou 405 comités de gestão de risco a nível local, integrando 10-15 residentes treinados para identificar os sinais de uma catástrofe, primeiros socorros, evacuação e abrigo.

Em Maio, o Instituto efectuará simulações de tremores de terra em duas escolas em Maputo e, mais tarde, alargará o exercício a outras províncias, incluindo a inserção de informação sobre terramotos no currículo escolar.

“A ideia é aliar a tradição à ciência para que as pessoas compreendam melhor os problemas que enfrentam,” explicou Ribeiro.

Machaze já está a beneficiar. “Agora colocamos vigas em casas de cimento e reforçamos as palhotas tradicionais,” disse Froi. Acrescentou ainda que o planeamento nas aldeias está mais rigoroso e que as normas de construção estão a ser seguidas.

Em Machaze, as pessoas pensaram que o tremor de terra representava um castigo de Deus ou fora provocado pelos espíritos e antepassados. Hoje, depois dos debates de sensibilização, metade dos habitantes locais aceita que é um fenómeno natural, afirmou Froi.

A informação adequada ajuda as pessoas a reagirem de forma adequada, porque é o pânico que mata o maior número de pessoas durante um tremor de terra, explicou Feitio.

Pensa que Moçambique ainda está mal preparado para um terramoto semelhante ao que teve lugar no Haiti e no Chile. Gostaria de ver melhorias nos códigos de construção, conformidade obrigatória por parte das companhias de construção, o reforço dos edifícios existentes e melhor preparação dos habitantes locais.

Não há tempo a perder.

“Um grande desastre causado por um terramoto na região é inevitável, não é uma questão de se realmente irá acontecer mas quando,” disse o Dr. Christ Hartnady, especialista que trabalha para a companhia de consultoria sul africana Umvoto e antigo professor de geologia na Universidade do Cidade do Cabo.

O Dr. Hartnady prevê que, se houver outro grande terramoto, as principais áreas urbanas sobre ou perto do Sistema de Fractura, incluindo a cidade portuária da Beira, a cidade malawiana de Blantyre, a capital da Tanzânia, Dar es Salaam, e até mesmo a capital do Quénia, Nairobi, podem ser seriamente afectadas.

“As consequências seriam tão dispendiosas em termos de mortalidade e custos económicos que o risco de estarmos mal preparados é extremamente inaceitável,” concluíu.

Armando Nenane

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