SAÚDE-ZAMBIA: Chuvas diminuem, é hora do cólera

Lusaka, 13/04/2010 – Quando a temporada de chuvas e inundações cede em Zâmbia, um forte surto de cólera açoita a capital.

 - Nebert Mulenga/IPS

- Nebert Mulenga/IPS

A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras divulgou um comunicado, no dia 9, sobre a propagação da doença. “Nas últimas cinco semanas, o número de casos cresceu drasticamente, para mais de 4.500, e mais de 120 pessoas perderam a vida”, informou Luke Arend, chefe da missão do MSF em Zâmbia. “Na semana passada sofremos um pico no surto, com 1.054. É, de longe, o maior número registrado na última década”, acrescentou.

A resposta inicial do governo à epidemia foi negá-la. Mesmo quando os meios de comunicação informaram sobre uma crescente taxa de mortes pela doença em fevereiro, o Ministério da Saúde insistia em dizer que não havia surto. Cerca de 17 distritos em todo o país foram afetados, mas em Lusaka foi mais grave. A maioria dos mais de três milhões de habitantes da capital vive em 38 assentamentos informais. Estes locais têm surtos de cólera a cada ano quando as chuvas torrenciais contaminam os poços com esgoto. Grandes áreas da capital não contam com serviços municipais básicos.

Inclusive em áreas onde a municipalidade está presente, o sistema de drenagem encontra-se obstruído, o que permite a ocorrência de inundações mesmo com chuvas leves. Os lugares onde há mercados estão sempre sujos, com montanhas de lixo. Os banheiros públicos são poucos, longe um do outro e estão em estado deplorável. As últimas inundações, as piores em vários anos, tiveram um grave impacto apesar de um grande investimento feito pelo governo na reparação do sistema de desague. As chuvas forçaram milhares de pessoas da capital a abandonar suas casas.

A Sociedade da Cruz Vermelha de Zâmbia reconheceu a gravidade da situação. Seu diretor, Charles Mushitu, disse que deveriam instalar mais tendas de campanha fora da capital para os desabrigados. O acampamento é administrado de forma conjunta pela Cruz Vermelha e pela governamental Unidade para Migrações e Manejo de Desastres, que fornecem serviços básicos, como cloro para purificar a água, e alimentos à base de milho.

As autoridades da capital zambiana solicitaram aos que receberam abrigo temporário que voltem para suas casas, mesmo que em muitos casos estejam sem condições de moradia e os bairros se encontrem destruídos. Esther Lungu está preocupada com a ideia de voltar ao seu bairro de Misisi. Ela foi uma das pessoas reassentadas pela Cruz Vermelha depois que uma represa transbordou e o complexo habitacional onde vivia foi submerso. Ela e seus quatro filhos receberam uma barraca de campanha, onde agora dizem se sentir relativamente cômodos.

“Não sei o que acontecerá quando nos disserem para deixar este lugar”, disse Lungu, que não é casada e não tem emprego formal. Antes do desastre, vendia verduras no mercado. Mas agora está preocupada, pois não sabe se a pequena casa que alugava ainda está em pé. Tampouco está segura se será capaz de recuperar o lugar que tinha no mercado. IPS/Envolverde

Lloyd Himaambo

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