ENERGÍA -PALESTINA: O assassino silencioso

Gaza, 14/04/2010 – “Muito sonolento e com tontura, alguém recosta a cabeça e tudo o que quer fazer é dormir.

Enaam Abu Nada quase morreu envenenada com monóxido de carbono. - Mel Frykberg/IPS

Enaam Abu Nada quase morreu envenenada com monóxido de carbono. - Mel Frykberg/IPS

Tudo é paz, e nem mesmo sabe o que está acontecendo e, se não houver uma intervenção rápida, morre em questão de minutos”, disse à IPS a palestina Enaam Abu Nada. Ela é uma das que viveram para contar. Em fevereiro, esta trabalhadora humanitária e sua filha Nevine, de 20 anos, estavam em seu apartamento da cidade de Gaza, perto de um gerador elétrico para casos de emergência, quando o lugar foi invadido pelo monóxido de carbono que saía do aparelho. O que salvou suas vidas, segundo os médicos, foi o fato de terem comido pouco antes de começarem a respirar esse gás tóxico. Seu sistema digestivo reagiu vigorosamente diante dos sintomas de envenenamento no sangue, que estava ocorrendo sem que elas notassem.

“Nevine começou a queixar-se de forte dor de cabeça. Transpirava e vomitava, e caiu no chão. Tentei me levantar da cadeira e abrir a porta para pedir ajuda, mas eu estava quase paralisada e meu corpo muito fraco. Tudo o que pude fazer foi bater de leve na porta”, recordou Abu Nada. “Finalmente consegui chamar a atenção de meu filho que nos levou rapidamente ao hospital, onde passei a noite e me deram oxigênio, uma injeção e outros remédios. Ainda estou me recuperando. Minha vista ficou afetada e me dói tudo”, disse à IPS.

O sítio imposto por Israel a Gaza desde que o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) assumiu o controle da Faixa, em junho de 2007, causa uma escassez crônica de combustível e eletricidade. Isto fez aumentar os apagões, ameaçando seriamente os serviços de emergência dos hospitais e das estações de tratamento de esgoto, entre outros locais. Nos dias 9 e 10 deste mês, o território costeiro ficou em uma escuridão quase contínua, depois que Israel fechou todos os pontos de passagem para a Faixa de Gaza. Isto impediu a entrada de caminhões que transportam combustível para alimentar os geradores que começam a funcionar quando a luz é cortada.

A filial britânica da Oxfam em Gaza informou que, há duas semanas, chegaram à região 731.350 litros de combustível industrial, que representam apenas 21% dos 3,5 milhões de litros necessários semanalmente para operar a única central elétrica, com capacidade máxima de 80 megawatts. Na semana passada, foram transferidos apenas 721.600 litros de combustível industrial, e as entregas acabaram suspensas nos dias 29 e 30 de março por causa do feriado da Páscoa judaica. Na última quinzena, não foi permitida a entrada de gasolina nem de óleo diesel no território costeiro palestino.

Em consequência, os moradores de Gaza tiveram de instalar em suas casas geradores de emergência, muitos de marcas chinesas de má qualidade, contrabandeados através dos túneis que ligam Gaza ao Egito. A medida foi uma desesperada tentativa de poder cozinhar, lavar e ter água para beber. Porém, os moradores da Faixa de Gaza não estão conscientes do perigo que representam os geradores. Alarmado com a situação, o capítulo britânico da Oxfam em Gaza lançou uma campanha urgente para ensinar o uso correto desses aparelhos.

“No ano passado, 75 pessoas morreram por não manejarem corretamente os geradores. Neste ano, já morreram outras 15, ou por envenenamento com monóxido de carbono ou pelos incêndios causados pelas explosões de gás. Centenas mais ficaram seriamente feridas”, disse à IPS Karl Schembri, da Oxfam. “Um gerador pode produzir a mesma quantidade de monóxido de carbono produzida por cem automóveis. O monóxido é invisível e inodoro. Várias pessoas morreram enquanto dormiam sem perceber que estavam sendo envenenadas”, acrescentou.

A população de Gaza é aconselhada a instalar os geradores fora de casa, não fumar próximo a eles, não regarregá-los de combustível enquanto estão em funcionamento e não bloquear seus pontos de refrigeração. A falta de luz e gasolina em Gaza é agravada pelas contínuos atritos entre a Autoridade Nacional Palestina (ANP), liderada pelo partido moderado Fatah, que governa a Cisjordânia, e o Hamas, que controla a Faixa de Gaza. A União Europeia financiou diretamente o fornecimento de combustíveis e eletricidade em Gaza até novembro do ano passado.

Desde dezembro, a UE passou ao governo da ANP em Ramalá o controle da limitada quantidade de combustível que Israel permite que entre na Faixa de Gaza. O Hamas acusa a ANP de reduzir o fornecimento e usar a entrega de energia como arma política contra esse movimento, bem como forma de castigo coletivo para os moradores de Gaza, com a esperança de jogá-los contra o governo do Hamas. A ANP, por seu lado, responde que o Hamas lhe deve muito dinheiro e precisa pagar as contas de eletricidade e combustível de Gaza antes que sejam distribuídos todos os fornecimentos.

Mas o vice-chanceler do Hamas, Ahmed Yousef, disse que os habitantes de Gaza não podem pagar as contas. “Estão afundados na pobreza. O desemprego é a norma aqui, as pessoas se esforçam para comprar alimentos e outros produtos básicos. Como esperar que paguem as contas de eletricidade e combustível, como pediu a ANP?”, disse Yousef à IPS. IPS/Envolverde

Mel Frykberg

Mel Frykberg began her journalism career reporting on unrest in black townships, including Soweto, in South Africa during the apartheid era. She later worked as a journalist in Sydney, Australia. Mel has worked as a journalist in the Middle East for over a decade. She has reported for a number of major international publications from Gaza, Jerusalem, Beirut, Cairo, and Amman where she has lived. Mel also edited local magazines and newspapers in the region and is a frequent commentator on the Israeli/Palestinian conflict on National Public Radio in the United States. Frykberg studied journalism in the U.K.

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