ÁGUA: Índia e Paquistão devem rever tratado

Islamabad, 15/04/2010 – A mudança climática e a probabilidade de a atual escassez de água se agravar obrigarão os vizinhos rivais, Índia e Paquistão, a rever um tratado bilateral de 50 anos, pelo qual compartilham os rios que nascem no Himalaia.

Para combater o calor, crianças se banham nos canais de Hyderabad, Paquistão. - Zofeen Ebrahim/IPS

Para combater o calor, crianças se banham nos canais de Hyderabad, Paquistão. - Zofeen Ebrahim/IPS

Os dois países fariam bem em continuar conversando sobre os recursos hídricos que administram, sobretudo depois que a reunião anual sobre esse documento, realizada em março na cidade paquistanesa de Lahore, acabou sem resultados concretos, afirmam especialistas.

Danis Mustafa, especialista em Água e Geografia do King’s College de Londres, afirmou, inclusive, que uma revisão do Tratado sobre as Águas do Indo (IWT) permitiria “estimular maior confiança e interação em outras esferas”. Desde que ficaram independentes da Grã-Bretanha, há 40 anos, Índia e Paquistão se enfrentam por diversos temas, e inclusive travaram duas guerras. Em uma conferência para jornalistas, realizada em Islamabad entre 28 e 30 de março, dedicada às tensões regionais pelos recursos hídricos, também foi discutida a necessidade de um diálogo bilateral para evitar novo conflito.

Estas preocupações deram mais relevância ao IWT, patrocinado em 1960 pelo Banco Mundial, que também é seu fiador. Segundo o acordo, a Índia pode explorar três rios orientais da Ásia meridional (Ravi, Sutlej e Beas) e o Paquistão três rios ocidentais (Jhelum, Chenab e Sindh). Mas o tratado também dá à Índia certos direitos sobre rios ocidentais, como uso doméstico da água, navegação, agricultura limitada e geração de energia elétrica. Entretanto, especialistas dizem que o documento proíbe o armazenamento e o desvio da água.

Na conferência de Islamabad, organizada pela organização ambientalista e pelo desenvolvimento Lead Paquistão, especialistas concordaram que o agravamento da crise da água em território paquistanês exige uma revisão do tratado. Syed Ayub Qutub, especialista de Islamabad, disse que a quantidade de água disponível no Paquistão baixou de cinco mil metros cúbicos por habitante, no começo dos anos 50, para menos de 1.500 metros cúbicos atualmente. “O Paquistão é majoritariamente um país árido ou semiárido, e menos de 7% de suas terras recebe mais de 500 milímetros de chuva. O país depende da irrigação para mais de 90% de sua produção de alimentos”, acrescentou.

Por sua vez, Daniyal Hashmi, engenheiro civil da Autoridade da Água e do Desenvolvimento de Energia do Paquistão, disse que, quando o IWT foi negociado, os três rios ocidentais tinham água suficiente para manter a produção de todo o território paquistanês. “O sistema de irrigação do Indo foi desenhado para a intensidade dos cultivos” da época, disse à IPS. Com o passar dos anos, a atividade agrícola aumentou. “Antes, o fenômeno da mudança climática não era conhecido. Tampouco se falava em um fluxo mínimo de água para manter a ecologia dos rios”, acrescentou.

Qutub disse, ainda, que o Tratado não está adequado às mais importantes leis e convenções internacionais sobre a água, e concordou com outros especialistas que uma revisão do pacto deveria obrigar a Índia a compartilhar informação atualizada com o Paquistão sobre seus projetos nos rios. “A Índia desenvolveu novos projetos hidrelétricos nos rios ocidentais, construiu a represa de Wullar e instalações de armazenamento no Jhelum, mas sem informar ao Paquistão”, disse Qutub. Que também perguntou: “Por que o Paquistão não invocou as provisões do IWT durante mais de duas décadas?”.

O especialista disse que Islamabad sabia, pelo menos desde 1984, que Nova Déli não cumpria algumas das obrigações do Tratado. “Os registros poderiam revelar negligência por parte dos líderes nacionais paquistaneses, tanto políticos quanto militares”, afirmou. “Cultivamos cana-de-açúcar e um tipo de arroz de escasso valor chamado ‘irri’ com nossos preciosos recursos hídricos, quando poderíamos importar estes produtos a custos menores para os consumidores”, acrescentou. Segundo Qutub, “antes de tudo, teríamos de corrigir esses erros”. O especialista discordou dos que prevêem um novo conflito nas relações entre Índia e Paquistão. “As nações geralmente cooperam pela água, não vão à guerra”, disse. IPS/Envolverde

Zofeen Ebrahim

Zofeen Ebrahim is a Karachi-based journalist who has been working independently since 2001, contributing to English dailies, including Dawn and The News, and current affairs monthly magazines, including Herald and Newsline, as well as the online paper Dawn.com. In between, Zofeen consults for various NGOs and INGOs. Prior to working as a freelance journalist, Zofeen worked for Pakistan’s widely circulated English daily, Dawn, as a feature writer. In all, Zofeen’s journalism career spans over 24 years and she has been commended nationwide and internationally for her work.

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