CANELONES, Uruguai, 20/04/2010 – (Tierramérica).- Fórum mundial avalia no Uruguai uma agenda de planos contra os males derivados da variação do clima que atingem as populações mais pobres.
Os governos de Canelones, Montevidéu e San José, por meio da Agenda Metropolitana, administram o projeto “Por territórios com menos emissões de gases-estufa e mais resistentes à mudança climática”, patrocinado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). É a primeira experiência mundial no plano local de análise e aplicação de medidas de adaptação e mitigação a este fenômeno. O programa metropolitano contempla, entre outras coisas, o ordenamento territorial, com propostas específicas sobre viabilidade e transporte de passageiros, um plano regional de saúde e outro de habitat social com saneamento, drenagens, tratamento de lixo sólido e designação de áreas naturais protegidas, além de um sistema de aproveitamento de recursos culturais.
Esta experiência, junto com outras vinculadas à mudança climática, será avaliada na III Cúpula Mundial de Regiões, que acontecerá em Montevidéu, entre 20 e 22 deste mês, organizado pela rede mundial de Governos Locais pela Sustentabilidade. Espera-se que participem mais de 450 representantes de todas as regiões que a integram. “Será uma ocasião para que se tome consciência sobre esta problemática e para continuar o processo de iniciativas e ações que se desenvolverão em nível regional nesta área”, disseram ao Terramérica porta-vozes do Congresso de Intendentes, órgão que reúne os governantes dos 19 departamentos do Uruguai e é encarregado da realização do fórum.
O encontro permitirá “a troca de experiências e a discussão sobre novas propostas que coloquem os governos locais de todo o mundo em condições para abordar políticas no contexto internacional pós-Copenhague”, destacou Ambrosio Barreiro, presidente do Congresso, na carta de apresentação da cúpula. Diversos eventos extremos evidenciaram a vulnerabilidade climática nesse país de 3,3 milhões de habitantes, 66% vivendo em Montevidéu e sua área metropolitana, que inclui Canelones e San José.
A intensificação das chuvas deixou, nos últimos 13 anos, quase cem mil desabrigados em todo o Uruguai, e muitos outros milhares afetados além de danos materiais milionários, segundo a estatal Universidade da República. As inundações mais devastadoras foram as de 1959, quando quase nenhuma cidade costeira ficou ilesa, seguidas das de 2007. Por seu lado, uma tempestade registrada em agosto de 2005 causou prejuízos elevados na população, na infraestrutura e nos serviços. As baixas temperaturas no inverno de 2007, um dos mais frios no país desde que se tem registro, segundo estudo oficial, causaram forte impacto na saúde da população, custos econômicos e aumento da demanda energética.
No final de 2009 e começo deste ano, ao contrário do ano anterior quando diminuía a seca, houve chuvas tão intensas que obrigaram novamente milhares de pessoas a deixarem suas casas e começar em seguida um novo processo de reconstrução. É o caso de Luis Alberto Aguero, morador do bairro La Calera, no departamento de Durazno, vítima das duas últimas grandes inundações. A cheia do Rio Yi destruiu sua casa em 2007, levando com ela a maioria de seus pertences.
A reconstrução foi difícil e pouco a pouco recuperou o que perdera. Mas o rio não deu trégua e, após dois anos, houve nova cheia. “Para recuperar as coisas temos de fazer um sacrifício enorme. Espero que isto não aconteça de novo”, disse Aguero ao Terramérica. “As famílias enfrentam um momento de grande insegurança, perdem seus pertences e não sabem como seguir com sua vida após uma inundação. É momento de grande instabilidade emocional”, disse ao Terramérica a diretora de Desenvolvimento Social de Canelones, Gabriela Garrido.
Eduardo Méndez, representante do Ministério de Desenvolvimento Social no Sistema Nacional de Emergência, disse ao Terramérica que é preciso desenvolver planos de contingência que atendam as populações mais expostas. “Os mais pobres, no geral assentados à margem dos rios e vivendo da pesca, da venda de lenha e da extração de areia, são os mais vulneráveis a novas doenças”, disse. “Por isso, entendemos que, se nos prepararmos para a mudança climática, não poderemos deixar de levar isto em conta”, acrescentou.
Para Méndez, apenas se está tomando consciência do problema. “Determinados setores da sociedade são afetados muito diretamente e entre todos é preciso dar uma resposta”, afirmou. O funcionário entende que o Plano de Emergência Habitacional do governo esquerdista do presidente José Mujica, que começará este ano como projeto-piloto com a participação de voluntários, é “uma resposta efetiva e rápida em primeira instância para uma urgência do país”. Porém, assegurou que “isso não basta”.
* A autora é correspondente da IPS.


