Biodiversidade, trampolim verde para a África

Nairobi, 24/05/2010 – Apesar de anos de seca no Quênia, “a senhora Kimonyi nunca passa fome”, disse o etnobotânico Patrick Maundu A mulher plantou 57 variedades, entre elas cereais, legumes, tubérculos e frutas, em sua horta de um hectare. Mangu citou este exemplo no dia 22, Dia Internacional da Diversidade Biológica, cuja celebração oficial aconteceu em Nairóbi, onde fica a sede do Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (Pnuma).

É a diversidade da horta da senhora Kimonyi que gera produtos comestíveis praticamente a cada dia do ano, permitindo que amorteça os impactos da seca, explicou Mangu, que estudou alguns casos que tiveram bastante sucesso nessa região. “Frequentemente, foram as variedades locais plantadas que sobreviveram melhor à seca”, acrescentou. “Por acaso esta é a base de uma nova revolução verde para a África? A resposta é sim”, resumiu. Os países dão pouquíssima importância à biodiversidade.

Por esta razão, há 18 anos foi escolhida a data de 22 de maio para promovê-la, mas ainda há um grande caminho pela frente, disse à IPS a diretora-executiva adjunta do Pnuma, Angela Cropper. “A biodiversidade é um conceito abstrato, invisível para a maioria das pessoas, embora sustente a vida no planeta”, acrescentou. Como primeira secretária-executiva do Convênio sobre Diversidade Biológica, assinado para frear a perda de espécies e ecossistemas, Cropper disse que a educação é a chave para o sucesso desse documento. “Demorou muito, mas estamos vendo progressos” nesse sentido, afirmou.

A biodiversidade é a soma de todos os seres viventes e suas interações, que incluem ecossistemas que fornecem à humanidade alimentos, água e ar limpos. Nos últimos séculos, os seres humanos alteraram muito esses processos naturais com o desmatamento, a pesca excessiva e, mais recentemente, a poluição e as emissões de gases-estufa. Em consequência, as espécies se extinguem mil vezes mais rápido do que o normal: a cada dia desaparecem entre 35 e 40. “Existe uma grande brecha na implementação (do Convênio), portanto o público não está informado”, afirmou Cropper.

O Quênia perde biodiversidade a um ritmo sem precedentes, e resta apenas 3% de sua cobertura florestal original, disse o secretário-executivo do Convênio, Ahmed Djoghlaf, aos presentes nas celebrações em Nairóbi. Ao mesmo tempo, 70% das necessidades quenianas de energia para cozinhar são atendidas com lenha, afirmou Djoghlaf, lembrando que o país lançou um ambicioso esforço nacional de reflorestamento. O Movimento Cinturão Verde plantou 45 milhões de árvores no Quênia, que “são sementes de esperança, as sementes de nosso futuro”, acrescentou.

Atualmente, a biodiversidade está consagrada em muitas leis quenianas, e pelo menos 10% de todas as terras agrícolas possuem cobertura florestal sob as novas normas, disse aos delegados o secretário de Agricultura, Wilson Songa. Ao mesmo tempo, o país tem o objetivo de conseguir crescimento econômico anual de 10% até 2030, com um setor agrícola moderno e competitivo como componente crucial. Songa reconheceu que isso pode ir contra uma biodiversidade protegida e potencializada, mas disse que sua pasta trabalha para aumentar a agrobiodiversidade e a agrossilvicultura para aliviar a pobreza e melhorar a segurança alimentar.

Na África existe uma importante campanha a favor de uma “nova revolução verde”, mas os que a impulsionam não pensam em potencializar a agrobiodiversidade, disse o cientista Hans Herren, presidente do Millennium Institute, com sede em Arlington, no Estado de Virgínia, Estados Unidos. O que existe são “estabelecimentos rurais maiores, mais máquinas e mais sementes geneticamente modificadas”, destacou. Herren recebeu o Prêmio Mundial de Alimentação em 1995 e é reconhecido por ter implementado um programa de controle biológico que salvou a mandioca africana, evitando uma crise alimentar.

“Garantir um bom hábitat para as abelhas pode aumentar em 20% os rendimentos dos cafezais”, afirmou o cientista na cerimônia em Nairóbi. Porém, práticas como o uso de inseticidas e a falta de biodiversidade em torno desses cultivos significam que há menos abelhas para polinizar, afirmou. A transformação de que precisa a agricultura africana está em que os pequenos produtores adotem um enfoque multifuncional em relação ao agroecossistema, afirmou Herren.

Esta também foi uma das conclusões da Avaliação Internacional do Papel da Ciência e da Tecnologia Agrícolas no Desenvolvimento, que Herren codirigiu. A maior esperança para o futuro são os agroecossistemas que associam a produção alimentar com meios para garantir fornecimento de água limpa, preservando a biodiversidade e melhorando o sustento dos pobres, diz a Avaliação, que, no entanto, conta com pouco reconhecimento entre especialistas e institutos agrícolas. Estes continuam aderindo ao modelo de produção industrial, concluiu o cientista. IPS/Envolverde

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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