FLORESTA DE KAKAMEGA, Quénia, 04/05/2010 – Durante 10 anos, Roselyne Shikami vendeu ovos cozidos na estação de autocarros perto da Floresta de Kakamega, densamente arborizada, localizada no Quénia ocidental, perto da fronteira com o Uganda. Agora vende borboletas. “Era muito difícil vender duas dúzias de ovos cozidos por dia,” disse esta mulher de 35 anos à IPS. “Às vezes ficava sentada ali mais de onze horas. Mas raramente conseguia ganhar 200 xelins quenianos (cerca de 2.60 dólares americanos). Agora, só com duas borboletas, consigo ganhar muito mais.”
Shikami faz parte de um pequeno grupo composto principalmente por mulheres que começaram a criar borboletas para venda no Quénia e no resto de África. Esperam conseguir arranjar clientes na Europa e na América do Norte, os dois mercados de borboletas mais lucrativos. O marido, Joel, faz parte do grupo. Como muitas das pessoas que vivem perto da floresta de Kakamega, ganhava o seu sustento a cortar árvores na floresta, que depois vendia como lenha.
De acordo com o Programa de Educação Ambiental de Kakamega (KEEP), um grupo que trabalha na área da conservação e que proporciona formação às mulheres sobre a criação de borboletas, a floresta de Kakamega diminuiu de mais de 240.000 hectares em 1820 para 23.000 hectares actualmente. Geralmente, considera-se que a floresta é o que resta, mais a oriente, da floresta tropical das terras baixas congolesas da África Central. Em larga medida, esta extensa desflorestação tem sido causada pelo crescimento populacional e pelo desemprego, resultando na desobstrução da terra para agricultura e na queima de madeira para obter carvão para uso doméstico e para venda.
O governo tem envidado esforços no sentido de manter lenhadores e agricultores fora da floresta, estando agora a encorajar projectos comunitários, como a criação de borboletas, como forma de proporcionar rendimentos alternativos.
A floresta de Kakamega possui mais de 70 por cento das borboletas do Quénia e mais de 500 espécies diferentes. Desde o seu lançamento em 2001, a criação de borboletas tornou-se uma fonte de riqueza para as comunidades que vivem em redor da floresta, rendendo anualmente o equivalente a 100.000 dólares americanos para os criadores, revelam os Serviços Florestais do Quénia no seu relatório anual.
O Director do KEEP, Benjamin Okalo, concorda. “O negócio das borboletas está a crescer. Um criador só precisa de duas borboletas para conseguir obter mais de mil crisálidas, e isso significa um rendimento de mais de 75.000 xelins (950 dólares) por mês – muito mais dinheiro do que o que se pode ganhar com a venda de ovos ou galinhas.
Okalo explicou que as pessoas querem comprar o maior número de espécies de borboletas possível para as suas colecções e para fazeram decorações bonitas. As borboletas também são adquiridas para pesquisa.
“Aqui, os espécimes de borboletas são muito bonitos. Os grandes hotéis e os turistas vêm comprá-las. Os homens de negócios ricos também estão a começar a comprá-las para enfeitar as casas para cerimónias como casamentos e ainda para a educação dos filhos,” disse Okalo. Anne Moraah, outra criadora de borboletas, disse à IPS que alguns estilistas na Europa usam as borboletas para conceberem os seus próprios padrões.
Criar borboletas
“Com este negócio, não é necessário uma grande exploração agrícola; não é necessário muito espaço. Qualquer pessoa pode entrar nesta actividade porque só é preciso ter um pequeno contentor,” refere Roselyne Shikami.
O processo envolve a construção de um pequeno recinto coberto com rede, com plantas que sirvam de alimento para as espécies de borboletas que se quer criar. Apanha-se uma borboleta fêmea, que se coloca depois numa gaiola destinada à reprodução, onde pode pôr ovos nas folhas. Apanham-se e tratam-se cuidadosamente os ovos até estarem prontos para fazer a transformação do estágio de larva para crisálidas e depois borboletas – um processo que demora cerca de um mês.
Um criador precisa de ter uma licença concedida pelos Serviços de Vida Selvagem do Quénia permitindo-lhe a venda de crisálidas de borboletas e de outros insectos vivos no Quénia e no resto de África.
De acordo com o KEEP e líderes de outro negócio comunitário, Projectos Kipepeo (palavra suaíli para borboleta), é preciso uma outra licença para exportar borboletas para a Europa e América do Norte.
“O grande problema é que os serviços de vida selvagem mostram-se relutantes em conceder licenças as novos criadores de borboletas destinadas à venda local ou internacional,” disse Okala.
Na Segunda Conferência Ministerial Sobre Redução do Risco de Catástrofes, que teve lugar no Quénia este mês, a directora de comunicações públicas do Ministério da Vida Selvagem e Florestas do Quénia, Mary Ngaruma, disse à IPS que as criadoras de borboletas deviam estabelecer cooperativas e registar a sua organização antes de pedirem as licenças.
“O governo está a receber benefícios delas,” disse Ngaruma. “As criadoras de borboletas estão a cuidar das nossas florestas e a desenvolver as economias locais; por isso, não há razão para não lhes concedermos licenças comerciais.”
Benefícios para o meio ambiente
Os indivíduos envolvidos na criação de borboletas realçam que, enquanto os outros negócios que fazem uso das florestas se baseiam na extracção abusiva, a criação de borboletas traz benefícios para o meio ambiente.
“Quando há um elevado número de borboletas, isso signfica que o meio ambiente é bom. Se existem menos borboletas, isso é uma indicação que há poluição. As borboletas também podem ser guias para as mudanças climáticas,” apontou Joel Shikami.
O funcionário superior responsável pela Investigação sobre a Fisiologia e Ecologia dos Insectos do Centro Internacional, Lamberts Morek, afirma que as borboletas são importantes para os ecossistemas porque a polinização é a sua principal contribuição para o meio ambiente.
“Como cientistas a nossa visão é termos um meio ambiente rico e saudável. Podemos fazê-lo ao autonomizarmos estas mulheres que criam borboletas.”

