Crise política na Tailândia aprofunda brecha digital

Bangcoc, 07/05/2010 – A crise política que enfrenta o governo da Tailândia com a Frente Unida para a Democracia e Contra a Ditadura tornou mais visível a brecha digital neste país do sudeste asiático. O conflito, que já causou vários mortos, aprofundou a divisão entre os tailandeses que optaram por novos meios de informação, desde Facebook e Twitter até blogs e sites, em lugar dos tradicionais, como o rádio. A Frente Unida reclama desde março a dissolução do parlamento e imediatas eleições gerais.

Milhares de seguidores desse partido favorável ao ex-primeiro-ministro chegaram à capital, procedentes de províncias produtoras de arroz. O enfrentamento entre população marginalizada política e economicamente, seguidores da Frente, e o governo, que representa a elite de Bangcoc, levou muitos analistas a interpretar que se trata de uma luta social do tipo cidade versus campo. A violência começou no dia 10 de abril, após uma brutal repressão de uma manifestação que deixou cerca de 25 mortos e mais de cem feridos, o que levou o International Crisis Group, com sede em Bruxelas, a alertar que a Tailândia pode cair em uma “guerra civil não declarada”.

O aumento do número de usuários de Facebook no mês passado se relaciona com os protestos de rua, segundo analistas que não se surpreendem com o fenômeno. Cerca de 2,7 milhões de tailandeses usam a rede social, segundo o Facebook.com, dos quais 288.360 se incorporaram em abril. A propagação do Facebook na Tailândia, onde 16 milhões de pessoas, em 66 milhões de habitantes, usam Internet, foi rápida no começo de 2009, quando aproximadamente duzentas mil pessoas usavam a rede social.

“O Facebook tornou-se um lugar fundamental para a discussão e organização e a difusão de notícias”, disse Jon Russell, em seu blog. “Se 500 mil tailandeses se registraram entre janeiro e abril, além dos 280 mil do mês passado, deduz-se que a política foi um fator importante”, acrescentou. A maioria dos usuários tem características similares, têm instrução, vive na cidade e se considera de classe média e alta. Pode-se dizer que sua ideologia política também é bastante uniforme, considerando que rejeitam os partidários da Frente Unida.

“Saiba o quanto a Tailândia está dividida olhando o Facebook, o Twitter ou blogs”, disse Supinya Klangnarong, vice-presidente de Campanha para uma Reforma Popular da Mídia. “Antes, o Facebook era usado para coisas menos importantes. As pessoas falavam do clima, de seu estilo de vida e de restaurantes e postavam fotos de suas férias”, acrescentou. A raiva que motivou os “camisas vermelhas” (os partidários da Frente) corresponde ao que estes expressaram em suas rádios comunitárias contra o governo do primeiro-ministro, Abhisit Vejjajiva, que há 17 meses está no cargo.

A Tailândia é uma monarquia constitucional do sudeste da Ásia que está sob tutela das Forças Armadas desde o golpe de Estado militar de 2006. A crescente quantidade de rádios comunitárias, que chegou a 6.500, desde que começaram a se propagar há uma década, se converteram na voz de ativistas provinciais favoráveis à Frente. “As rádios comunitárias e as que transmitem por Internet são mais populares entre os partidários da Frente”, disse Naruemon Thabchumpom, especialista político da Universidade de Chulalongkorn, de Bangcoc. “Divulgam a opinião e posição de seus seguidores”, ressaltou.

O impacto das rádios comunitárias nas províncias aumentou o número de ouvintes e eclipsou a antiga ordem da informação, disse Ubonrat Siryuvasak, ex-professor de Comunicações da Universidade de Chulalongkorn. “Antes, o governo controlava o fluxo de informação que circulou nas áreas rurais”, disse. “As opiniões dos grandes meios, favoráveis ao governo, não ajudaram. Isso levou as rádios favoráveis à Frente a concentrarem a atenção”, disse à IPS. A Tailândia tem 524 emissoras de rádio comunitárias, das quais 220 são controladas pelo Exército e 140 pelo Departamento de Relações Públicas.

O plano para sair da crise, divulgado por Abhisit esta semana, confirmou o elemento que têm em comum todos os tailandeses que apoiaram as declarações de ódio. “A mídia deve ser livre, mas esta liberdade de expressão deve estar regulada por um mecanismo independente que garanta que não seja usada para criar confrontos e ódios que acabem em violência”, diz o terceiro dos cinco pontos do “mapa do caminho” para a reconciliação, dedicado a esse tema.

“A mídia – seja pela Internet, televisão via satélite ou por cabo ou, ainda, pelas rádios comunitárias – foi usada, às vezes, como ferramenta política, explorando a falta de regulação. Até os canais de televisão estatais tiveram um papel importante no conflito”, reconhece Abhisit. IPS/Envolverde

Correspondentes da IPS

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