Portugal mais próximo da Grécia

Lisboa, 07/05/2010 – Portugal sofre fogo cerrado das agências qualificadoras de crédito e dos especuladores financeiros internacionais, que veem nesse país uma excelente oportunidade para multiplicar seus lucros. Desta vez coube à agência Moody’s considerar que a crise financeira grega constitui importante fator de contágio para os bancos de vários países, inclusive Portugal e Espanha. O informe diz que Portugal em especial, mas também as entidades financeiras de Espanha, Irlanda e, em menor medida, da Grã-Bretanha, “se enfraqueceram por dentro, principalmente pelo excessivo crescimento do crédito e pelo estouro da bolha imobiliária”.

Em seguida, a empresa – que vende suas análises financeiras sobre governos e outras companhias – afirma que o “contágio também poderia se estender potencialmente àqueles sistemas bancários onde o valor da dívida soberana sofreu o impacto dos acontecimentos no sistema bancário”. Em nota enviada ontem aos meios de comunicação, a Moody’s justifica o alerta pela recente deterioração das finanças públicas portuguesas e pelos desafios de longo prazo de seu desenvolvimento econômico “em um contexto de uma economia pequena e de crescimento lento”.

A advertência causou um terremoto nos mercados, provocando queda da Bolsa de Valores de Lisboa a índices mínimos, que não eram registrados desde julho de 2009, e elevando os seguros contra riscos de descumprimento da dívida soberana ao máximo histórico desde a adesão ao euro, em 2002. Em contrapartida, uma declaração do Fundo Monetário Internacional saiu em resposta aos rumores para esclarecer, ontem, em Washington, que não está em conversações com Espanha nem Portugal para conceder empréstimos de emergência a nenhum dos dois países.

Os três mortos no dia 5 na Grécia são a lembrança mais cruel do colapso financeiro desse país, cujo governo tenta aplicar um rígido plano de austeridade imposto pela União Europeia e pelo FMI, em troca de uma ajuda de US$ 142 bilhões para evitar a suspensão de pagamentos e seu efeito dominó. Em um artigo conjunto publicado ontem pelo jornal Le Monde, de Paris, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, afirmam que será necessário reforçar a vigilância dos orçamentos públicos da Eurozona, o conjunto das 16 nações europeias que adotaram o euro como moeda comum.

Na visão dos dois dirigentes, que governam as duas economias mais fortes da Europa, deveriam ser aplicadas “sanções mais eficazes” em casos de déficit excessivo e estabelecer “um quadro robusto” para manejar crises como a da Grécia. Ao mesmo tempo, ao concluir uma reunião de governadores de bancos centrais europeus, realizada ontem em Lisboa, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, disse que “Portugal e Grécia não estão no mesmo barco. Basta ver os números e as circunstâncias”.

“Portugal não é a Grécia, essa é uma evidência inquestionável”, ressaltou Trichet, ao mesmo tempo em que anunciava que o BCE decidiu, na reunião da capital portuguesa, e pelo décimo-terceiro mês consecutivo, manter a principal taxa de juros inalterada em seu mínimo histórico de 1%. Tudo isto acontece justamente uma semana depois de outra agência qualificadora, a Standard & Poor’s, dar seu alerta sobre a dívida soberana de Portugal, de suas estatais e seus bancos, e que poderia realizar outra avaliação para baixo nos próximos três meses.

Na realidade, as agências de qualificação de riscos não são internacionais, mas norte-americanas. Isto gera suspeitas em políticos, economistas e analisas europeus de que se trata, na verdade, de favorecer a especulação de grandes grupos financeiros sem bandeira, mas de matriz nos Estados Unidos. Para os economistas e ex-ministros de vários governos conservadores Antonio Bagão Félix (2002-2005) e Luís Mira Amaral (1985-1995), as advertências destas agências devem ser vistas como “um aviso sério”, porque “colocam Portugal em xeque” diante dos mercados internacionais.

Segundo Mira Amaral, a ameaça anunciada pela Moody’s traduz “uma reação em cadeia das agências de qualificação, que terão graves consequências para as famílias portuguesas”, devido às altas das taxas de juros para o crédito, opinião compartilhada por Bagão Felix. O ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, não quis falar sobre o informe, mas defendeu a criação de uma agência qualificadora europeia, porque “o monopólio norte-americano neste campo não é saudável para o mundo”.

Para Nouriel Roubini, professor de Economia da Universidade de Nova York, a saga financeira da Grécia é “a ponta do iceberg”, de problemas de sustentabilidade da dívida pública de muitas economias avançadas e não apenas dos chamados PIIGS (siglas em inglês de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha). O termo foi criado nos anos 90 para se referir às economias mais pobres da União Europeia, mas agora também atinge nações com elevada dívida pública e lento crescimento.

Em uma análise publicada no Jornal de Negócios, Roubini afirma que “dentro dos PIIGS os problemas não estão apenas no déficit público excessivo”, mas também no déficit externo, na perda de competitividade e no consequente “crescimento anêmico”. Estes cinco países perdem, há uma década, cotas de mercado para a Ásia, especialmente a China, por suas exportações de baixo valor agregado e com forte peso do custo da mão-de-obra.

Roubini alerta que, se o produto interno bruto se contrair, será impossível alcançar um determinado objetivo de déficit e de proporção saudável entre endividamento e PIB, “a armadilha mortal da dívida na qual caiu a Argentina entre 1998 e 2001”. O PIB grego caiu 2% em 2009. “A menos que haja um milagre, a Grécia parece estar próxima da insolvência”, ao apresentar cifras mais preocupantes do que as que eram mostradas no começo do colapso argentino.

Contudo, dificilmente a União Europeia, especialmente Alemanha e França, deixarão a Grécia “ficar muito desligada” a ponto de permitir seu colapso. Cerca de 75% da dívida pública grega de US$ 400 bilhões está nas mãos de estrangeiros, sobretudo instituições financeiras europeias, disse Roubini. Um descumprimento sem controle causaria perdas maciças e poria em risco o próprio sistema, segundo o economista. IPS/Envolverde

Mario de Queiroz

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