Paris, 14/05/2010 – Os haitianos radicados no exterior responderam ao terremoto de 12 de janeiro com uma ajuda “maciça e espontânea”. Milhares de profissionais abandonaram seus trabalhos em outros países para ir em ajuda de seus compatriotas, segundo o ministro Edwin Paraison. Agora as autoridades esperam que ainda mais expatriados voltem para o Haiti, que tem pela frente um imenso programa de reconstrução.
“Pedimos aos haitianos qualificados que residem fora do país que regressem porque precisamos preencher o vazio que existe no setor profissional”, disse Paraison, ministro para os Haitianos Vivendo no Exterior, durante sua visita a Paris esta semana, em uma viagem pela Europa que terminará amanhã. “Ficamos emocionados com sua reação maciça, espontânea e generosa após o terremoto. Mas, temos que nos centrar nos esforços de longo prazo, na medida em que avançamos”, acrescentou.
O objetivo de sua viagem é promover o plano de mobilização do governo para atrair os profissionais de volta, oferecendo bons salários, casa e transporte, afirmou Paraison. “Sabemos que essas pessoas se acostumaram a certo padrão de vida no exterior, por isso temos que facilitar sua volta dando benefícios definidos”, disse à IPS em uma entrevista. “Precisamos pensar em coisas que tornem suas vidas mais fáceis no Haiti”, acrescentou.
Paraison disse que o governo também está lançando uma campanha para conscientizar, a fim de que os haitianos que ficaram no país não se sintam deslocados pelos que decidiram voltar. “Temos que admitir que pode haver alguns pequenos problemas de ressentimento, mas não podemos deixar escapar o fato de que temos a necessidade de substituir a função dos que perderam suas vidas no terremoto”, afirmou. Chamando Paris de “capital da diáspora haitiana na Europa”, Paraison se reuniu com organizações e funcionários franceses, entre eles o ministro da Imigração, Eric Besson. Será necessário coordenar a repatriação com diferentes partes, explicou.
Formado sacerdote anglicano, Paraison também se centra nas comunidades religiosas para divulgar esta mensagem, por isso se encontrou com várias congregações na capital francesa. Previa também se reunir com organizações na Suíça e Espanha, para terminar com uma conferência sobre a diáspora em Barcelona. Sua visita coincidiu com as comemorações parisienses da abolição da escravatura. Várias associações também realizaram manifestações e uma marcha, no dia 10, exigindo que a França pague reparações às suas ex-colônias que sofreram o comércio de escravos.
No caso do Haiti, os manifestantes do Mouvement International pour les Reparations (MIR) disseram que há uma obrigação especial, já que o país caribenho sofreu um forte impacto financeiro e humano ao ficar independente violentamente da França, há dois séculos. Após sua independência, o Haiti foi obrigado a pagar à França 90 milhões de francos de ouro em troca do reconhecimento do novo status do país, e também como reparação por “terras e rendas perdidas” na revolta escrava que levou à autonomia.
O país teve que solicitar importantes créditos a bancos internacionais para pagar essa soma mais os juros, afundando ainda mais na pobreza. Os pagamentos à França se completaram em meados dos anos 40. Em 2004, o então presidente do Haiti, Jean-Bertrand Aristide (1991, 1994-1996 e 2001-2004), calculou o valor da quantia que seu país teve de pagar em US$ 21 bilhões, em valores da época.
Paraison disse à IPS que o Haiti está aberto ao que a França fizer na área de cooperação e assistência, mas acrescentou que sua principal preocupação é “mobilizar a diáspora” e designar um representante permanente para os haitianos que vivem na França. Neste país europeu vivem cerca de 75 mil haitianos, que integram uma comunidade de quatro milhões de expatriados, segundo a embaixada haitiana em Paris.
Os que vivem no exterior representam 83% de todos os profissionais haitianos, o que implica uma grave “fuga de cérebros” para o país, afirmou o embaixador do Haiti na França, Fritzner Gaspard. A maioria dos expatriados haitianos está radicada nos Estados Unidos e no Canadá. Uma quantidade significativa vive na República Dominicana e em outros países caribenhos, como Cuba e Jamaica, enquanto outros se assentaram na Europa, África e demais regiões.
Mesmo que uma pequena minoria destas pessoas volte ao Haiti, sua contribuição estimulará os esforços de reconstrução, já que o país perdeu mais de 20 mil profissionais no terremoto, afirmou Gaspard. Além disso, “a angústia e as dificuldades” posteriores ao desastre obrigaram muitos outros a emigrar, disse à IPS. Agora o país trabalha com a Organização das Nações Unidas para dar incentivos aos haitianos qualificados. Parte dos contratos vinculados à reconstrução é reservada para esses trabalhadores.
“Há uma vontade realmente forte de regressar”, disse à IPS Mackendie Toupuissant, presidente da Plataforma de Associações Franco-Haitianas. “Temos casos de pessoas que já regressaram, não necessariamente a Porto Príncipe, mas para outras áreas. Em alguns casos, esse foi um projeto de toda a vida que se acelerou por causa do terremoto, e em outros essas pessoas tinham certas habilidades com as quais queriam contribuir, particularmente no setor da construção”, explicou. IPS/Envolverde

