Bangcoc, 18/05/2010 – A incerteza reina na Tailândia após a morte do tenente-general Khattiya Sawasdiphol que apoiava os insurgentes “camisas vermelhas”, enquanto vencia o ultimato dado pelo governo aos mais de seis mil manifestantes entrincheirados na capital para que abandonassem o local.

Os incêndios provocados por manifestantes produzem fumaça com o objetivo de afastar os helicópteros militares da área de protestos em Bangcoc. - Nattharin Kitthithaweepan/IPS
Os insurgentes, usando as características camisas vermelhas da Frente Unida para a Democracia e contra a Ditadura, reclamam eleições gerais e são partidários do ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, deposto por um golpe de Estado em setembro de 2006 e atualmente no exílio na Grã-Bretanha. Desde então, as Forças Armadas institucionalizaram uma tutela permanente. O golpe contra Shinawatra foi o de número 18 desde que este país do sudeste asiático se converteu em uma monarquia constitucional em 1932.
As mortes e os feridos, a fumaça de pneus queimados, os disparos dos franco-atiradores e os atentados com granadas são moeda corrente em Rajprasong desde a noite do dia 13, quando o governo tailandês cercou a área que os manifestantes antigovernamentais mantêm ocupada, e que foram cortadas água, luz e as redes de telefonia celular. Os enfrentamentos ocorrem em torno do perímetro que os soldados isolaram,
Embora outras partes de Bangcoc não tenham sido afetadas, o Exército declarou várias áreas como sendo de “combate ativo”, onde prosseguem os enfrentamentos. No dia 16, o governo deu aos manifestantes um ultimato para que deixassem Rajprasong no dia seguinte. O governo proibiu a entrada nessa área, que está cercada por barricadas de pneus e varas de bambu afiadas, e onde, segundo as autoridades, estão cerca de seis mil manifestantes, a maioria das regiões mais pobres do nordeste do país. Nos primeiros dias de protesto calculava-se que havia dezenas de milhares participando.
Desde o dia 13, 29 pessoas morreram e pelo menos 221 ficaram feridas, muitas delas civis, informaram as autoridades. “Como permitimos que chegasse a isto? E como é possível continuar por tanto tempo?”, disse Lek, um empregado. “Os que me dão mais medo são os homens armados sem identificação, entre eles franco-atiradores. Temo que a situação caia na anarquia”, disse Pakorn Lertsatienchai, pesquisador da Universidade de Chulalongkorn.
O jornalista Sujane Kanparit teme que haja mais vítimas, que os militares intervenham e aconteça uma guerra de guerrilhas após a repressão. “A Tailândia chegou a um ponto sem retorno”, disse. Um notável silêncio reina sobre os distritos financeiros e comercias desta cidade. Em cadeia de televisão, o primeiro-ministro, Abhisit Vejjajiva, disse no dia 15 que o cerco é a “única maneira de reinstaurar a lei e a ordem no país. Já utilizamos outros métodos, como as negociações. Não podemos retroceder porque estamos agindo para o bem de todo o país”, afirmou.
“Nos próximos dias esperamos voltar à normalidade”, disse no mesmo dia o porta-voz oficial, Panithan Wattanayagorn. Em uma medida incomum, falou em inglês com a finalidade de se dirigir a públicos estrangeiros. O governo espera que o cerco a Rajprasong leve ao fim dos protestos, que começaram em 12 de março em outro ponto da antiga Bangcoc. Dirigentes da Frente Unida disseram que ficarão até o final, mas pediram ao governo que abandone o uso da força. “Isto é para impedir que camisas vermelhas desarmados morram ou sejam feridos”, disse o líder rebelde Natthawut Saikua, acrescentando que serão retomadas as negociações se a repressão terminar.
As autoridades informaram que pediram a mulheres, crianças e idosos que abandonem os protestos e entrem nos ônibus colocados à disposição para voltar às suas casas fora de Bangcoc. Houve informes de uma divisão entre os líderes da Frente Unida, já que um setor moderado consideraria aceitável a proposta de Abhisit de realizar eleições em 14 de novembro, porque os protestos estavam afastando o movimento da opinião pública. Dirigentes de alto perfil, como Veera Musikapong, não são vistos na área desde a semana passada, embora alguns neguem as diferenças e afirmem que ele estava resfriado.
Muitos pensavam que os protestos acabariam após a proposta eleitoral do começo deste mês. Mas os dirigentes da Frente Unida continuam reclamando que o governo se responsabilize pelas mortes de 10 de abril provocadas pela repressão. Na semana passada, Abhisit retirou sua proposta eleitoral. As opiniões sobre o cerco parecem divididas. Uma pesquisa divulgada no dia 16 revelou que 51,35% dos tailandeses apoiam a medida para recuperar a área de Rajprasong e que mais de 40% discordam dela por entenderem que haverá baixas. Em certo momento, mais de cem mil manifestantes chegaram a se mobilizar com os camisetas vermelhas, muitos deles do norte e nordeste do país, que não se consideram representados pela elite de Bangcoc. IPS/Envolverde

