Nova York, 18/05/2010 – Israel entra na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) graças à grande e imperturbável assistência dos Estados Unidos. Nos corredores da Organização das Nações Unidas comenta-se que certo dia um assistente entrou em uma reunião do gabinete israelense comunicando lastimáveis dados da economia. O primeiro-ministro ficou nervoso com a notícia até que se deu conta de que se referia a Israel e não aos Estados Unidos, reiniciando em seguida seu trabalho sem mais alterações. A história não é verdadeira, mas mostra uma situação real.
O Estado judeu obteve uma vitória muito importante no dia 10, quando recebeu o convite para integrar a OCDE, após uma década fazendo lobby. Teria sido possível sem os milhares de milhões de dólares em ajuda e subsídios concedidos pelos Estados Unidos? Graças a essa ajuda, Israel agora faz parte das nações industriais do Ocidente. A organização, com sede em Paris, é considerada um clube exclusivo de ricos.
Além de Israel, também foram convidadas Eslovênia e Estônia, o que eleva seus membros para 34 países. A OCDE está integrada, entre outros, por Alemanha, Áustria, Austrália, Bélgica, Canadá, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão.
Os três novos membros serão investidos em uma cerimônia especial durante o encontro anual da organização, que será presidida pelo primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, na capital francesa no dia 27 deste mês. A OCDE abriu as portas para Israel, apesar de a Comissão de Direitos Humanos da ONU acusar esse país de crimes de guerra, entre outros atropelos, especialmente durante a Operação Chumbo Derretido que lançou contra o território palestino de Gaza, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009.
A organização ignorou sua própria orientação quanto à entrada de Israel, a que declara que o Estado judeu deve demonstrar seu compromisso com uma democracia pluralista baseada no estado de direito, disse a analista Nadia Hijab, pesquisadora do Instituto de Estudos Palestinos. Numerosas organizações de direitos humanos acusam Israel de violar os princípios básicos da democracia, como os direitos civis e políticos, a liberdade de imprensa e a proteção da população que vive em territórios ocupados.
A coalizão internacional Boycott, Divestment and Sanctions National Committe (BNC, sigla em inglês de Comitê Nacional de Boicote, Desinvestimento e Sanções) enviou à OCDE uma lista de 17 pontos sobre as diferentes formas com as quais Israel viola o direito dentro e fora de seu território. A União Europeia previa melhorar suas relações com Israel, mas interrompeu a iniciativa após o início do ataque em grande escala contra Gaza, disse Hijab em um artigo publicado na Agence Global. Numerosas organizações laicas e religiosas, incluídas três israelenses – B’Tselem, HaMoked e Médicos pelos Direitos Humanos – pressionaram para evitar que se avançasse nesse sentido, acrescentou.
“Israel é o maior beneficiário da ajuda estrangeira dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial” (1939-1945), disse Jeremy Sharp, especialista em assuntos de Oriente Médio, em um artigo escrito em dezembro para o Serviço de Investigação do Congresso norte-americano. Desde 1985, os Estados Unidos deram a esse país mais de US$ 3 bilhões ao ano em subsídios, sem obrigações de reembolso. Desse total, US$ 1,9 bilhão foi destinado para fins militares e US$ 1,2 bilhão a título de assistência financeira.
Virtualmente, todo equipamento militar norte-americano de Israel foi comprado com fundos fornecidos por Washington. Durante anos, “a ajuda econômica dos Estados Unidos contribuiu para subsidiar a economia israelense, embora desde o rápido crescimento do setor tecnológico, graças à cooperação científica entre os países nos anos 90, o Estado judeu seja considerado um país industrializado com uma situação semelhante à das nações da Europa ocidental”, disse Sharp. Os dois países acordaram reduzir um pouco a assistência econômica.
Para compensar as perdas, Washington se comprometeu com aumentos anuais aos subsídios para fins militares, que chegarão a US$ 3 bilhões em 2012, segundo acordo assinado em agosto de 2007 pelo presidente George W. Bush. O governo atual, de Barack Obama, outorgará ao Estado judeu US$ 2,8 bilhões em subsídios militares EM 2010. A assistência norte-americana “ajudou a transformar as forças armadas de Israel em um dos exércitos mais aperfeiçoados do mundo”, disse Sharp.
Israel continuará dependendo do grande apoio político e econômico dos Estados Unidos, apesar de integrar a OCDE, especialmente na ONU, onde Washington continuará protegendo o país das sanções do Conselho de Segurança por violações dos Direitos Humanos e crimes contra a humanidade. Não há forma de o Estado judeu continuar violando sistematicamente o direito internacional sem a proteção dos Estados Unidos com seu poder de veto no Conselho, disse à IPS Stephen Zunes, professor de Estudos Políticos Internacionais e presidente do Programa de Pesquisa sobre Oriente Médio da Universidade de São Francisco.
Graças ao enorme guarda-chuva que o protege das sanções e de assumir outras consequências de suas ações, não existe um elemento que o faça seguir a legislação internacional, afirmou Zunes. “As dificuldades de obrigar Israel a acabar com a ocupação, a colonização e a repressão de seus vizinhos não é só responsabilidade do suposto todo-poderoso lobby sionista”, acrescentou. Simplesmente, é mais uma expressão do típico costume hipócrita das potências de ajudar e exortar as mesmas políticas ilegítimas de seus aliados, pelas quais exigiriam duras sanções internacionais contra qualquer outro que as praticasse, ressaltou. Ou pior, se forem cometidas por um regime menos afinado com seus interesses, disse Zunes. IPS/Envolverde

