Guardiões da diversidade velam pelo futuro

Roma, 25/05/2010 – O armazenamento de sementes de plantas em risco de extinção e a recuperação de métodos tradicionais de cultivo e pastoreio concentram a atenção dos especialistas para enfrentar a histórica perda de espécies vegetais e a sobrevivência dos humanos.
A brasileira Rena Martins Farias é O professor César Gómez-Campo, que faleceu em setembro do ano passado, foi um dos primeiros a usar bancos de sementes para conservar espécies de plantas silvestres.

“Foi um pioneiro da conservação de recursos genéticos de plantas silvestres. Dedicou sua vida profissional à preservação eficiente de sementes endêmicas. Também foi um professor inspirado e seu legado continuará incentivando botânicos e cientistas”, disse à IPS sua viúva, María Estrella Tortosa. O cientista é considerado o pai dos bancos genéticos espanhois. Em 1966, criou em Madri o primeiro deles dedicado à conservação de plantas silvestres.

No dia 23, foi reconhecido postumamente como “Guardião da Diversidade” do Mar Mediterrâneo, prêmio anual entregue pela organização Biodiversity International (BI) a agricultores, cientistas e ativistas que dedicam suas vidas a salvaguardar a diversidade cultural e agrícola. A BI organizou, em Roma, a Semana da Biodiversidade, entre 21 e 23 deste mês, para discutir como o assunto influi na agricultura. Graças a Gómez-Campo, o banco genético de Madri tem 354 sementes de espécies e subespécies em risco de extinção, quase 24% de todas as plantas que estão nessa situação na Espanha.

“Muitos de seus históricos colaboradores abriram outros bancos genéticos, conectados por rede com todos os da Espanha, e jardins botânicos que utilizam o método de conservação por ele criado”, ressaltou Tortosa. Após se aposentar em 2003, continuou viajando e dando palestras sobre a importância da conservação das sementes e explicando o uso da tecnologia de armazenamento ultrasseca que criou há mais de 40 anos. “A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação incentivou a adoção de seu método em todos os bancos de sementes do mundo. Toda essa vontade manteve vivo seu trabalho”, acrescentou.

A brasileira Rena Martins Farias é “guardiã”, como Gómez-Campo, e também começou há 40 anos a conservação de recursos genéticos. Desde criança, se encantava com as cores e os perfumes dos alimentos, contou. Uma das primeiras graduadas em recursos genéticos vegetais da Universidade de Birmingham na década de 70, Rena armazenou sementes de cereais, feijões e outros legumes da região do Mediterrâneo e de Portugal, onde trabalhou durante muitos anos na conservação de espécies autóctones.

“No começo, pouquíssimas mulheres se interessavam por esta profissão”, disse Rena à IPS. “Com o passar dos anos, aumentou, mas se dedicavam principalmente a colher sementes para os bancos genéticos”, acrescentou. “Isso não era para mim. Eu gostava de viajar e trabalhar com as pessoas. Agora que estou aposentada e dedicada a ensinar na universidade, sinto muita falta de estar no campo, colecionando, trabalhando com agricultores e investigando o motivo de conservarem um cultivo de determinada forma. Há muito que aprender com os agricultores”, destacou a brasileira.

O informe “Perspectiva Mundial sobre a Diversidade Biológica 3”, divulgado no começo deste mês, pela secretaria do Convênio sobre Diversidade Biológica, declara que pode ocorrer a perda dos serviços básicos se não forem preservadas as diferentes espécies. O ritmo de extinção é mil vezes maior do que deveria ser, diz o documento, o que demonstra a incapacidade dos governos para alcançar uma redução significativa das perdas em 2010. Os agricultores, especialmente nas nações em desenvolvimento, continuam preservando a biodiversidade de forma meticulosa.

“Sou filho de um agricultor e aprendi as características das espécies de pastagens e seus usos pastoreando rebanhos de ovelhas e cabras com meu pai nas montanhas”, disse à IPS Hrou Abouchrif, do Marrocos. Quando jovem aprendeu técnicas tradicionais de pastoreio que favorecem a regeneração natural de pastagens. Atualmente dirige a associação marroquina Adrar, que promove o desenvolvimento sustentável e a proteção do meio ambiente na cordilheira do alto Atlas oriental e da localidade montanhosa de Ifrane.

Há 20 anos que Abouchrif contribui para a conservação de plantas aromáticas e medicinais. “Estou encantado por estar junto de destacados pesquisadores que receberam o prêmio”, disse à IPS. “Renovo energias para voltar às minhas montanhas e continuar preservando a biodiversidade com os agricultores da minha aldeia. Pertenço a essa população e devo ficar ali para preservar nossa cultura e não deixar que desapareça”, acrescentou. IPS/Envolverde

Sabina Zaccaro

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