MBABANE, 01/06/2010 – Uma agricultora de renome que em 2008 ganhou o cobiçado Prémio Anual da Mulher Agricultora, Thabile Dlamini-Gooday, quer levantar o nível das outras mulheres na agricultura. Ela acredita que, se as mulheres agricultoras trabalhassem juntas, poderiam lutar contra a fome e reduzir de forma significativa a pobreza entre elas.
Mas ela enfrenta um grande desafio.
“É difícil encontrar mulheres agricultoras porque não nos conhecemos umas às outras,” disse Dlamini-Gooday.
Muitas vezes os seus stocks esgotam-se e gostaria então de encaminhar os clientes para outras agricultoras. Mas os homens acabam por ficar com o negócio porque não existe qualquer base de dados nacional segregada com base no sexo para a ajudar a identificar as outras agricultoras e o tipo de produtos que vendem.
De facto, diz Dlamini-Gooday, o governo nem sequer consegue começar a resolver as necessidades específicas das mulheres na agricultura, porque o Ministério da Agricultura não possui essa informação.
“Como mulheres, faltam-nos certas competências no campo agrícola como a criação de gado, que tradicionalmente é vista como uma actividade masculina. Mas se o governo nem sequer sabe o número de mulheres agricultoras, então não pode resolver estes problemas,” disse à IPS.
Na maior parte dos países africanos, as mulheres, que constituem a maioria dos pobres, vivem em zonas rurais e são agricultoras de subsistência. Mesmo assim, a Suazilândia não é o único país africano com falta de informação segregada com base no sexo no sector agrícola.
De acordo com as estimativas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), as mulheres constituem 60 por cento da mão-de-obra agrícola e produzem entre 60 a 80 por cento das culturas alimentares do mundo. As contribuições destas mulheres para o desenvolvimento nacional geralmente não são reconhecidas e também não são remuneradas.
A Drª. Lindiwe Sibanda, a responsável operacional máxima da Rede da Alimentação, Agricultura e Recursos Naturais (FANRPAN), culpa os programas de ajustamento estrutural económico do Banco Mundial pela falta de informação separada com base no sexo.
Segundo Sibanda, a condição que exige que os países reduzam os serviços de investigação e extensão agrícolas ao abrigo do SAPS destruiu toda a infra-estrutura de recolha de informação. Em resultado, África continua a efectuar o seu planeamento com base em informações que não têm ligação com as realidades diárias das pessoas.
“Em muitos casos, as políticas e programas nas zonas rurais, pela forma como são implementadas a nível local, não respondem às necessidades das mulheres. Isto deve-se, em parte, ao facto de planeadores e decisores muitas vezes nem se aperceberem que as mulheres agricultoras enfrentam desafios especiais e específicos e que esses programas precisam de ser concebidos tendo em mente a sua situação,” explicou Sibanda.
Sibanda disse que inquéritos a agregados familiares para recolha de informação sobre os meios de subsistência, que incluem pessoas, capital, redes sociais, bens materiais e financeiros e também o uso de recursos naturais como fonte de sobrevivência, podem ajudar a corrigir a situação.
“Se se fizer isto semestralmente, seremos capazes de descrever com precisão quem é que está a sobreviver com o quê e ainda apontar as intervenções de desenvolvimento apropriadas a mulheres e crianças,” disse Sibanda.
Os governos africanos têm agora as ferramentas necessárias para realizar tais inquéritos, graças à FAO. A agência das Nações Unidas criou um Jogo de Ferramentas para obtenção de Estatísticas sobre o Género na Agricultura que ajudará os países a recolherem mais informação sobre as diferenças entre homens e mulheres na agricultura e contribuirá para o desenvolvimento agrícola.
Lançado em Abril, o jogo de ferramentas proporciona o enquadramento analítico necessário para recolher informação sobre a natureza do trabalho agrícola das mulheres e dos homens, o seu acesso a recursos e a vulnerabilidade à insegurança alimentar.
“Com informação mais específica, os decisores podem prestar maior apoio àqueles que carecem de acesso e controlo dos recursos agrícolas e ajudar as mulheres a alcançar maior igualdade e segurança alimentar,” disse Diana Tempelman, autora do jogo de ferramentas e funcionária superior da FAO para o género e desenvolvimento.
Tempelman sublinhou que a recolha de informação segregada com base no sexo é uma nova área que tem vindo a desenvolver-se assente numa maior compreensão da relevância do conhecimento do impacto das relações do género sobre indivíduos, famílias e desenvolvimento nacional.
O facto de o jogo de ferramentas ter sido desenvolvido em resposta a um pedido da Comissão Africana Sobre Estatísticas Agrícolas (AFCAS) constitui um sinal positivo, que indica que os governos estão a reconhecer as contribuições de mulheres e homens para o desenvolvimento agrícola e a necessidade de planeamento que leve em conta essa realidade.
Embora sempre tenha havido informação sobre homens e mulheres, ela tem sido recolhida sobretudo com a finalidade de determinar o sexo e a faixa etária das populações, o nível de educação e saúde, certas secções de emprego formal e outros sectores.
“Mas existe espaço para melhorar a disponibilidade da informação sócio-económica de forma a reflectir o envolvimento de homens e mulheres no desenvolvimento e as suas limitações e oportunidades específicas,” disse Tempelman.
Além da recente introdução do jogo de ferramentas, estão a surgir outras iniciativas que envolvem o desenvolvimento de estatísticas com base no género. Tempelman revelou que a FAO, Paris 21, Banco Mundial e União Europeia, juntamente com a Comissão Económica para África e outras organizações associadas, estão a apoiar países com vista a preparar as Estratégias Nacionais para o Desenvolvimento de Estatísticas.
Isto garantirá uma maior coesão entre os diferentes exercícios de recolha de informação, o que vai melhorar a disponibilidade da informação em geral e as estatísticas do género em particular.
Os novos desenvolvimentos podem chegar a tempo para ajudar as mulheres agricultoras como Dlamini-Gooday a conseguirem obter o reconhecimento e a ajuda de que precisam e também estabelecerem redes com outras mulheres agricultoras.

