MONRÓVIA, 01/06/2010 – Num pequeno escritório escondido atrás das escadas no Ministério de Educação da Libéria, o outrora orgulhoso corpo docente da Unidade para a Educação das Raparigas parece derrotado. Os trabalhadores neste escritório do quarto andar, encarregados de traçar um novo percurso em prol da educação des raparigas e mulheres, não recebem qualquer vencimento nem têm orçamento, havendo poucos projectos em curso. “Assistimos às reuniões. Assistimos aos seminários. Mas quando elaboramos uma proposta de projecto, não recebemos apoio,” suspira o Director da Unidade, Lorpu G. Mannah.
Apesar da eleição, em 2005, de Ellen Johnson-Sirleaf, a primeira presidente africana, e da introdução da educação primária obrigatória gratuita, muitas raparigas nesta nação da África ocidental continuam a abandonar a escola para cozinharem e limparem as casas, ou para ganharem um pequeníssimo salário a venderem alimentos ou água fresca nas ruas.
Enfrentam discriminação, violência sexual, pressão por parte das famílias, gravidezes precoces, casamentos forçados, e práticas tradicionais perigosas. Três em cada quatro mulheres liberianas não conseguem ler
Promessas
Quando Johnson-Sirleaf chegou ao poder há quatro anos, a economista formada em Harvard inspirou sonhos de um futuro melhor para as mulheres do país. Com muita fanfarra, lançou uma Política Nacional para a Educação das Raparigas em Abril de 2006, referindo-se à educação das raparigas como a “pedra angular” do desenvolvimento da Libéria. A Unidade para a Educação das Raparigas abriu pouco depois para implementar essa política.
Para além da educação primária universal e da reconstrução das escolas destruidas, a política nacional promete reduzir para metade as propinas do ensino secundário das raparigas, formar mais professoras, castigar os professores que abusam sexualmente das alunas e prestar apoio psicológico.
Outras medidas dirigidas especificamente para a retenção das raparigas na escola incluem a prestação de serviços de saúde para raparigas na escola com vista a aumentar a auto-estima, o pagamento de pequenas bolsas de estudo para estudos, fardas e cadernos de exercícios e a realização de uma campanha de sensibilização para os pais.
Também estipula que se deve estabelecer “uma linha orçamental separada no orçamento da educação especificamente para este fim….”
Quatro anos mais tarde, o Ministério da Educação ainda não atribuíu qualquer orçamento para implementar esta política.
Realidade
As famílias liberianas continuam a ter dificuldades com o aumento das propinas da escola secundária. Só um em cada 10 professores liceais são do sexo feminino. A prestação de apoio psicológico, competências pessoais, e serviços de saúde são praticamente inexistentes. As raparigas são forçadas pelos professores a trocar sexo por notas, ou a vender sexo nas ruas em troca de apoio financeiro.
Estatisticamente, o fosso do género nas escolas primárias da Libéria tornou-se mais estreito. O censo escolar mais recente revelou que as raparigas perfazem 47 por cento dos alunos matriculados nas escolas primárias públicas na Libéria, mas só 31 por cento dos alunos a nível secundário em 2007-2008.
Mannah dá crédito às propinas gratuitas e aos programas de alimentação do Programa Mundial de Alimentação, assim como às bolsas de estudo pontuais concedidas por doadores internacionais para pagamento de fardas e materiais para escrever.
No entanto, estes números são enganadores. O censo mede só as matrículas no início do ano lectivo e não leva em consideração a elevada percentagem de abandono escolar das raparigas vários meses mais tarde devido a obrigações familiares, ao facto de ficarem grávidas, ou à pobreza.
A UNICEF insiste que as estatísticas revelam uma percentagem mais baixa de matrículas e retenção de raparigas na escola depois do terceiro ano. O especialista de educação da UNICEF, John Sumo, culpa o governo liberiano por ter abandonado a sua política de educação para raparigas.
“Tanto quanto sabemos, não houve qualquer compromisso por parte do Ministério da Educação para verificar o que se pode fazer em termos da implementação da política nacional,” disse Sumo.
Isto obrigou a UNICEF a parar de financiar projectos educativos destinados às raparigas através do governo liberiano em Janeiro de 2009, preferindo em vez disso canalizar dinheiro para as organizações não governamantais internacionais. A UNICEF também decidiu cancelar o financiamento dos vencimentos e dos custos operacionais da Unidade para a Educação das Raparigas a partir de Janeiro 2010.
“Temos um plano de trabalho mas ele não foi patriconado pelos doadores ou pelo governo,” insiste Mannah, que admitiu a sua profunda frustração pelo facto do Ministério da Educação ignorar a Unidade para a Educação das Raparigas.
“Se se dá à luz um filho, é preciso sustentar esse filho. Mas se o filho nascer e nada se fizer, a criança vai passar fome”.
Novo ministro, novo começo?
Tem havido pouca responsabilização nos últimos quatro anos no Ministério da Educação. Durante esse período, o Ministro da Educação, Joseph Korto, foi removido do cargo em Maio de 2010, pouco tempo depois de ter sido mencionado numa auditoria que investigava um alegado desvio de enormes quantias de dinheiro.
As auditorias efectuadas para verificar o percurso dos empréstimos dirigidos ao desenvolvimento e a ajuda, como parte dos requisitos do perdão da dívida, revelaram duvidosos programas de bolsas de estudo e reivindicações falsas para novas escolas que foram abandonadas ou não concluídas.
Na sua cerimónia empossamento, o novo Ministro da Educação, Othello Gongar, afirmou, “Não vim para o Ministério da Educação para criticar o trabalho dos meus antecessores, mas sim para começar a trabalhar no ponto onde ficaram a fim de viabilizar o sistema.
Gongar prometeu exercer pressão no parlamento para aumentar o orçamento global da educação de aproximadamente 8 por cento para 25 por cento dos 347 milhões de doláres do orçamento nacional.
No desafio da afectação orçamental, as mulheres e raparigas liberianas competem com estradas destruídas durante a guerra, água potavel limitada e problemas com os sistemas de saneamento, um sistema de justiça pouco funcional, e outros problemas institucionais e infra-estruturais.
“E então os recursos humanos?” perguntou Miatta Fahnbulleh, a principal promotora da educação das raparigas na Libéria. “Sim, quero estradas. Sim, quero energia eléctrica 24 horas por dia. Mas também quero viver num país onde 9 de cada 10 pessoas não sejam ignorantes… Precisamos de desenvolver mentes,” realçou apontando o dedo à cabeça.
No Ministério da Educação, Lorpu Mannah aparece todas as manhãs na Unidade para a Educação das Raparigas. Embora já não receba um vencimento, continua a elaborar propostas para as organizações não governamentais internacionais, pedindo fundos para patrocinar escolas nocturnas para mães adolescentes, centros de aconselhamento em liceus ou bolsas de estudo para mulheres que querem ser professoras.
“Para ser franco, faço isto por simpatia pelas jovens”.

