ANGOLA: Mudar mais do que políticas

LUANDA,, 30/06/2010 – Ela pode ser pouco conhecida nos círculos políticos até agora mas, ao apresentar-se como a primeira candidata presidencial independente, Luisete Macedo Araújo (50), tornou-se no centro das atenções. Araújo é a primeira mulher angolana a ter como objectivo o mais importante cargo do país, exercido nos últimos 30 anos pelo mesmo homem, José Eduardo dos Santos.

Enquanto que o partido no poder, o Movimento Popular Para a Libertação de Angola (MPLA), conta com mais de 70 mulheres entre os seus 191 deputados, e várias ministras no governo, há poucas mulheres de grande perfil na oposição.

O segundo maior partido na oposição, a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), tem 16 lugares na Assembleia Nacional, quatro dos quais preenchidos por mulheres. Os restantes três partidos na oposição, que partilham 12 lugares, não têm nenhuma mulher no parlamento.

De acordo com Araújo, há menos mulheres na oposição porque os salários não são tão generosos como os que são pagos pelo partido no poder.

“Muitas mulheres dizem que têm família para sustentar e portanto não querem correr nenhum risco,” explicou Araújo, que é casada mas não tem filhos. “Mas penso certamente que precisamos de mais mulheres nos partidos da oposição porque isso traria um novo clima, uma nova energia.”

Suzana Mendes, redactora de Angolense, semanário de Luanda. e também membro do Fórum das Mulheres Jornalistas, acolheu com agrado a entrada de Araújo na cena política depois da morte, em 2009, de Anália de Victória Pereira, do Partido Liberal Democrático, a única ‘líder’ feminina na oposição.

“Temos que reconhecer que as mulheres do MPLA e UNITA estão a cumprir bem a sua missão, mas é claro que precisamos sempre de mais (mulheres na política), porque Angola é um país com muitas dificuldades, com muita pobreza e problemas,” disse Mendes.

Rafael Marques, analista político angolano, disse que concorrer como única candidata atrairia atenção para Araújo, mas não a vê como uma séria adversária presidencial.

“Faz parte de um punhado de mulheres na oposição e, por isso, a nível pessoal, encontrou um nicho que pode significar algo,” explicou. “Julgo que a comunicação social vai ser solidária com a sua causa, mas também penso que, em termos da sua campanha, não vai chegar muito longe.”

Araújo também tem de enfrentar a alteração da constituição angolana que aboliu as eleições presidenciais, com o chefe de estado, eleito no topo da lista do partido, a ganhar a maioria dos lugares no parlamento.

Numa tentativa para ultrapassar este obstáculo, juntou-se à coligação dos Partidos de Oposição Civil, ou POC, como secretária para assuntos políticos, esperando ser a sua candidata em 2012, quando se devem realizar as próximas eleições legislativas no país.

Mas Marques afirma que não tem a certeza se o POC vai conseguir recolher apoio suficiente para se registar como partido político oficial, devido à exigência que obriga à angariação de 10.000 assinaturas válidas.

“No passado, assistimos às dificuldades de outros partidos na oposição com esta exigência,” explicou. “O sistema foi concebido para dificultar o aparecimento de um novo partido; julgo que o POC também terá dificuldades e isso pode ter um impacto sobre a candidatura de Araújo.”

Araújo sabe que tem uma tarefa difícil à sua frente, particularmente porque o MPLA de José Eduardo dos Santos ganhou mais de 81 por cento dos votos nas eleições legislativas de 2008.

Mas diz que é motivada pelo nível de pobreza e privação no país, que estimulou a sua decisão de entrar na política e atrair a atenção do público depois de uma vida sossegada a ensinar.

Embora o governo esteja a investir intensamente na saúde e educação, a distribuição de serviços continua irregular e as taxas de analfabetismo são elevadas – especialmente entre as jovens; há também surtos epidémicos de doenças evitáveis como a cólera.

“Quero ser presidente de Angola porque quero mudança,” disse Araújo à IPS.

“Temos tanta riqueza devido ao petróleo,” afirmou. “No entanto, também existe muita miséria e sofrimento. Há muito trabalho a fazer para melhorar as condições das pessoas.”

Apesar da forte presença da mulheres no parlamento, da filiação de uma grande massa das mulheres na liga das mulheres do MPLA, a Organização das Mulheres Angolanas (OMA), e do trabalho do Ministério das mulheres e da família, Araújo acredita que não se está a fazer o suficiente para ajudar as mulheres.

“Este governo não está interessado nas famílias, caso contrário, não deixaria tantas pessoas viver em condições tão más.” Apelou à criação de políticas concretas mais favoravéis às mulheres, como subsídios de assistência social para as mulheres solteiras e para as mulheres vítimas de violência doméstica.

Balbina Martins da Silva, membro do grupo que promove a Plataforma das Mulheres em Acção, afirmou que a presença de Araújo na política constituía um importante factor a favor do desenvolvimento do género.

“Ter uma mulher como candidata presidencial é um passo válido, positivo e necessário.”

Araújo acredita que o país precisa mais do que isso – um novo presidente. “A situação neste momento é de asfixia. Um homem no poder há 30 anos, é muito tempo,” disse. “Precisamos de alguém novo, alguém com uma nova visão que possa pensar de forma diferente para Angola.”

Julianna Ricardo

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