INFÂNCIA-ZIMBÁBUE: Trabalhar “até acontecer um milagre”

Bulawayo, Zimbábue, 16/06/2010 – Tapuwa Bakare*, de 12 anos, perambula entre os veículos desta cidade do sudoeste do Zimbábue. Alguns motoristas gritam para ele, outros tentam desviar dele.

Um órfão da aids sentado em um velho assento de ônibus no Zimbábue. - Irin

Um órfão da aids sentado em um velho assento de ônibus no Zimbábue. - Irin

Parece um milagre que não caia de suas mãos a caixa de balas que vende. Bakare tem mais coisas em sua cabeça do que o trânsito desta cidade industrial: se não vende as balas, morre de fome. É um dos muitos meninos e meninas deste país que levam uma vida muito diferente da que deveriam ter na sua idade.

O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Onusida) afirma que 1.400 pessoas morrem por semana neste país da África austral por doenças relacionadas com a aids. Estima-se que há uma prevalência de 13,7% do vírus da deficiência imunológica humana (HIV, causador da aids) na população de 11,6 milhões de habitantes. Porém, apenas 215 mil pessoas recebem tratamento antirretroviral, essencial para reduzir a mortalidade, diz a Onusida.

Semelhante quantidade de mortes por aids criou uma subcultura da infância órfã que sobrevive nas ruas. Há mais de um milhão de crianças e adolescentes de até 17 anos que perderam pai e mãe para o HIV/aids, segundo o não governamental Zimbabwe Orphanage Project (Projeto Orfanato Zimbábue), que ajuda os órfãos pagando sua educação, uniforme escolar e alimentação. “Deixei a escola no ano passado, depois que meu pai morreu” de uma doença ligada à aids, disse Bakare. Desde então se arranja como pode nas ruas.

Em outro local do pujante distrito empresarial de Bulawayo, James Dube*, de 13 anos, ganha a vida lavando automóveis. “As pessoas são generosas, mas tenho medo de pedir mais do que me dão, porque poderiam preferir outras crianças para limpar seus carros”, disse Dube à IPS. Ele também ficou órfão por causa da aids. Começou este trabalho graças a um vizinho mais velho, e logo se deu conta de que com ele “está a salvo da falência”. Mas está cansado e gostaria de ir à escola.

Sua história de trabalho duro por pouco dinheiro é habitual. Como sempre ocorre com a infância que cresce nas ruas, há adultos que exploram o trabalho infantil, diante da ausência do Estado, afirma Getrude Makawa, ativista pelos direitos das crianças. Os órfãos da aids “crescem antes do tempo, e seu desespero é que sejam explorados pelos adultos. Como esperar que uma criança consiga tratamento justo?”, disse Makawa à IPS.

Sua própria abundância se volta contra eles, e competem pelos escassos meios de subsistência que encontram na rua, o que agrava o quadro, segundo Makawa. Tendem a aceitar qualquer pagamento, por medo de que outro menino faça o trabalho, inclusive por menos. As autoridades reconhecem que é impossível para o Estado ajudar os órfãos “porque a renda fiscal está zerada”.

“É um problema do qual estamos conscientes desde a década de 90, mas fracassamos em proteger essas crianças. Nossas funções são cumpridas em grande parte pelas organizações não governamentais”, disse à IPS um funcionário do departamento de Bem-Estar Social de Bulawayo, Hubert Molife. “Antes, famílias, pobres, órfãos e outros grupos vulneráveis tinham assistência do governo, mas tudo piorou com a crise econômica e agora nem se aproximam para pedir ajuda”, acrescentou.

O Zimbábue está imerso há anos em uma profunda crise econômica, marcada pelo colapso de seu outrora pujante setor agropecuário, hiperinflação e escassos investimentos.

As ONGs que cuidam da infância afirmam que o governo envia os casos diretamente a elas. “Assumimos apenas os recém-nascidos abandonados e crianças enviadas pelo departamento de Bem-Estar Social”, disse Saleem A. Farag, diretor da Newstart Children’s Home, de Harare. Entretanto, são muitos os que ficam fora de toda ajuda e acabam como vendedores ambulantes ou trabalhadores sexuais. E, naturalmente, carregam o trauma das perdas que viveram e do abandono que suportam, afirmam os técnicos.

As meninas e os meninos órfãos lamentam não ter suficiente “apoio psicológico e emocional” dos adultos, afirma um estudo feito em Bulawayo pelo Programa Horizontes da Iniciativa Regional de Apoio Psicosocial. Essa dinâmica levou Dube a se converter em “homem por si mesmo”. O mais velho de três irmãos não perde a esperança de que uma alma caridosa os recolha e os crie. Enquanto isso, lavar carro para comer é o que deve fazer, “até que ocorra um milagre”.

* Os nomes são fictícios para proteção da identidade dos menores.

Ignatius Banda

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