Todos atrás dos micro-organismos tailandeses

Bangcoc, 16/06/2010 – “A Tailândia pode abrigar cerca de 10% dos micro-organismos e fungos do mundo”, explica Jariya Sakayaroj, que passa tanto tempo na água que logo se transformará em uma sereia. Mas a perspectiva de encontrar cura para diversas doenças é mais importante para ela. Especialista em Microbiologia da Unidade de Tecnologia de Biorrecursos no Centro Nacional para a Engenharia Genética e a Biotecnologia (Biotec), Jariya sabe que as horas que passa pesquisando as áreas costeiras da Tailândia podem levar a descobertas que algum dia ajudarão a combater doenças cardíacas, câncer ou osteoporose.

Jariya sulca as algas buscando fungos que possam abrigar compostos bioativos passíveis de serem usados em tratamentos médicos. Diz que a ecologia única dos mangues, com suas águas salobras que sobem e baixam duas vezes por dia, representa um ambiente particularmente hostil para os fungos, tornando sua resiliência especialmente atraente para as empresas farmacêuticas. Porém, alerta: “Nunca saberemos quais podemos estar perdendo na medida em que os mares ficam mais quentes e mudam os padrões das tempestades. Estão ocorrendo grandes mudanças que precisamos abordar, mas os seres microscópicos também exigem atenção”.

De fato, enquanto boa parte do mundo considera que a redução do habitat gelado dos ursos polares é o principal presságio de perdas ecológicas causadas pela mudança climática, os cientistas tailandeses trabalham relativamente escondidos, como se corressem contra o tempo para documentar as microespécies dos ecossistemas aquáticos.

Jariya diz que os micro-organismos representam um dos maiores segmentos do inventário biológico do planeta. E acrescenta que até agora foram identificados apenas cerca de 10% dos microorganismos do mundo – estimados em 1,5 milhão – e teme que muitos possam desaparecer antes de sua composição ser conhecida.

Das 549 espécies de fungos marinhos conhecidas, 180 estão neste país do sudeste asiático. Delas, 40 são novas e foram descobertas na última década pela unidade onde Jariya trabalha. Há mais de 80 anos, a penicilina apresentou ao mundo o valor dos fungos para a medicina. Mas foi só nos últimos 15 anos que os pesquisadores foram mais agressivos na hora de rastrear o planeta em busca de novos fungos e bactérias que possam fazer avançar os tratamentos médicos.

Até agora, 15 pesquisadores do Biotec que estudam ecossistemas marinhos, de água doce e florestais identificaram 2.500 novos micro-organismos e 70 novos compostos bioativos com novas estruturas bioquímicas. Todos estão agora em laboratórios do gigante farmacêutico suíço Novartis, onde são submetidos a mais exames para identificar substâncias que possam ser efetivas no tratamento de doenças. A Novartis chegou à Tailândia em 2005 para se associar com Jariya e outros pesquisadores do Biotec.

Segundo este centro, cerca de 20% dos micro-organismos que a empresa estuda procedem da Tailândia, e isto cria receios em alguns especialistas tailandeses. Por exemplo, a farmacologista e especialista em Medicina Herbária, Supaporn Pitiporn, do hospital Abhaibhubejhr, na província de Prachin Buri, destaca que, embora o trabalho de Jariya seja vital, a Tailândia deve ter um registro dos compostos bioativos descobertos dentro de suas fronteiras.

“Os benefícios dos fungos, em particular, são inestimáveis. Podem ser usados em muitas curas tradicionais, incluída a desintoxicação, e como complementos nutricionais”, disse Supaporn, que transformou os produtos feitos com ervas de seu hospital em um sucesso de vendas. “Porém, o governo protege muito mal os direitos de propriedade intelectual, e estes tratamentos são roubados, comercializados” e geram lucros para os principais laboratórios farmacêuticos, afirma.

Os curandeiros tradicionais tailandeses reconhecem a eficácia dos micro-organismos que compõem os fungos para tratar diversas enfermidades. O fungo Reishi, por exemplo, é usado para retardar o crescimento de tumores, bem como para estimular o sistema imunológico. Já o fungo Boletus é recomendado para quem sofre de tuberculose. Também foi descoberto que bactérias proteolíticas, que prosperam em alimentos tradicionais tailandeses fermentados, podem reduzir as alergias ao trigo e ao leite.

Embora preocupe a potencial perda de direitos intelectuais sobre os micro-organismos da Tailândia, os pesquisadores do país também dizem que é importante que as pessoas vejam que mesmo a mais diminuta das espécies pode ter um papel na mitigação da mudança climática. Micro-organismos como as algas já são estudados como fontes de energia sustentável, enquanto as ainda perigosas bactérias Escherichia coli (E.coli), causadora da maioria dos envenenamentos de alimentos, podem em breve se transformar em biocombustíveis.

“Apenas começamos a explorar o que podem nos oferecer os micro-organismos. Por isso, os esforços para proteger os ecossistemas que os sustentam são cada vez mais importantes”, destaca Supaporn. Também é fundamental o papel que as espécies têm em ajudar a Tailândia a compreender melhor a direção que está tomando a mudança climática, afirma Visut Baimai, diretor do Programa de Pesquisa e Capacitação em Biodiversidade. “Enquanto são investidos recursos em sofisticados modelos climáticos, a observação das respostas de plantas e animais ao aumento das temperaturas ambientais de seus habitats podem nos dizer muito”, acrescenta.

Isso inclui o rastreamento de micro-organismos. Segundo Visut, quanto mais documentação houver sobre as espécies, tanto grandes quanto pequenas, mais rápido será o apoio público a políticas mais agressivas contra a mudança climática. “A população tailandesa está mais preocupada com os animais do que com os gráficos e listas. Para o bem ou para o mal, precisam ver este tipo de impacto antes de se sentirem obrigados a agir”, ressaltou. IPS/Envolverde

* Este artigo é parte de uma série de reportagens sobre biodiversidade produzida por IPS, CGIAR/Bioversity International, IFEJ e Pnuma/CDB, membros da Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (http://www.complusalliance.org).

Nantiya Tangwisutijit

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