Rio de Janeiro, 21/06/2010 – Elas já não são as noivas nem as amigas dos integrantes das gangues. A participação das mulheres nesses grupos juvenis aumentou no Brasil na última década, embora ainda não nos mesmos níveis de seus colegas homens. Estas são conclusões do livro “Gangues, Gênero e Juventude: Donas de Rocha e Sujeitos Cabulosos”, lançado na semana passada pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla), com participação da Central Única de Favelas (Cufa) e apoio da Secretária de Direitos Humanos.
A coordenadora do estudo, Miriam Abramovay, disse à IPS que, há dez anos, quando pesquisou o assunto para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), as jovens exerciam um papel acessório na gangue, geralmente como “enfeite” dos homens. Hoje, as mulheres “estão conquistando espaços com uma participação mais ativa, em busca de respeito e visibilidade”, da mesma forma que em outros setores da sociedade onde se inserem estas organizações, conclui o estudo.
Os pesquisadores não encontraram, como supunham, gangues apenas femininas. No entanto, entre as 13 organizações estudadas em Brasília, descobriram que hoje em dia as mulheres “não têm o mesmo papel de subordinação de dez anos atrás”. Abramovay destacou que há, inclusive, um “setor feminino”, definido dentro de sua estrutura como grupo F.
Atualmente, as mulheres não se limitam a “cuidar dos homens” ou “carregar sua arma”, como antes, disse Abramovay. Participam de ações comuns, como pichar muros e prédios públicos e privados para marcar território diante de grupos inimigos, mas, como na sociedade contra a qual se rebelam, nestes grupos “também há diferenças de gênero”, expressas sobretudo na estrutura de poder, destacou.
A participação feminina nas gangues juvenis e organizações criminosas foi alvo de análise na Quarta Reunião Bianual de Estados sobre Armas Pequenas e Leves, realizada na semana passada na Organização das Nações Unidas em Nova York. Os motivos para entrar nas gangues são comuns no Brasil: desejo de prestígio, de reconhecimento e identificação. Além disso, desta maneira buscam expressar valores como coragem e lealdade. Embora participem de reuniões gerais, elas também têm seus próprios encontros.
Segundo Abramovay, enquanto os homens discutem temas como lutas e vinganças contra outros grupos, as mulheres tratam de temas mais “específicos” de gênero, “como serem respeitadas dentro do grupo” ou com quem se deve, ou não, sair. A pesquisadora disse que a terminologia de gênero usada por estas mulheres tem dois lados. Algumas são chamadas “donas de pedra”, em referência à sua fortaleza como mulheres, indicando respeito.
Aquelas que podem trair o grupo são chamadas “cabritas” e as que atraem membros de grupos rivais por sedução são conhecidas como “fazedoras de casinhas”. Quanto “à questão de gênero, a valentia e a coragem são consideradas atributos do universo masculino. As mulheres, por seu lado, podem incorporar atributos de coragem e lealdade, embora exista certa resistência e até desconfiança em relação à capacidade feminina de exercer esse papel”, diz o estudo.
Abramovay faz várias leituras a respeito. Por um lado, percebe-se que esta “cultura de violência e de sociedade de espetáculo”, hoje muito valorizada entre os jovens, não é apenas masculina. “É uma cultura masculina que dá demonstração de poder e as mulheres também querem tê-lo”, afirmou. “É preocupante que elas estejam na gangue, mas, mais preocupante é que tenhamos este novo modelo de sociedade de espetáculo, onde o modelo é a violência, o ser macho”, resumiu.
Ao contrário de gangues juvenis de outros países, com os da América Central, as do Brasil, em geral, não se “criminalizam”, embora alguns de seus membros possam roubar ou vender drogas, explicou Abramovay. Segundo o estudo, existem outros eixos, além da citada pichação, como as guerras entre gangues, drogas, festas e Internet. A pesquisa estabelece que a definição de territorialidade se expandiu para o espaço virtual, onde é possível promover um confronto entre grupos, por exemplo, com a exposição de fotos provocativas mostrando drogas e armas.
É a maneira de se exibir que motiva estas organizações. Max Maciel, coordenador da Cufa em Brasília, disse à IPS que para inserir estes jovens é importante que o Estado dê oportunidades para que “se exibam”, cultural ou esportivamente, aproveitando seus talentos potenciais. A seu ver, em lugar de reprimir, as autoridades deveriam aproveitar de forma positiva as qualidades de muitos destes jovens, como a capacidade de liderança. Para Maciel, que trabalha com eles em projetos alternativos, os integrantes de gangues “querem o prestígio e a visibilidade” que a sociedade não oferece.
Maciel recomenda que “qualquer política, pública ou privada, dê aos jovens o direito à adrenalina sem risco de morte”, com ações culturais “onde possam se expressar” e entregando a eles ferramentas para que possam se incorporar no mercado de trabalho. Em suas atividades, sempre há risco de cairem dos prédios que picham, de serem presos ou alvejados por algum proprietário, acrescentou.
Para evitar sua criminalização, o Estado deve desenvolver políticas preventivas, concorda Abramovay, oferecendo projetos de inclusão social e espaços alternativos de diversão, educação e formação profissional. As políticas públicas devem ser as mesmas para homens e mulheres, acrescentando outras estritamente de gênero, concluiu. IPS/Envolverde

