Washington, 21/06/2010 – O anúncio de Israel de que aliviará o bloqueio a Gaza foi reconhecido por organizações não governamentais e pela comunidade internacional como um passo na direção certa, mas insuficiente. Ainda não foram divulgados os detalhes do plano anunciado no dia 17, mas a imprensa israelense informa que seriam levantadas as restrições a alimentos como macarrão, presunto e leite.
Este anúncio foi uma resposta à forte pressão mundial, que aumentou depois do ataque israelense, em águas internacionais, a uma flotilha humanitária internacional que se dirigia a Gaza, que acabou com a morte de nove civis. No começo deste mês, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que o bloqueio era “insustentável” e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, o qualificou de “inaceitável”. O governo de Obama elogiou a decisão de Israel em aliviar o cerco, mas reiterou suas críticas.
“Comemoramos os princípios gerais anunciados pelo governo israelense. Refletem o tipo de mudança que consideramos significativa”, disse o porta-voz do Departamento de Estado, Mark Toner. No entanto, “como disse o presidente, a situação em Gaza é insustentável. Quando estes princípios se desenvolverem mais e forem colocados em prática, acreditaremos que a situação em Gaza vai melhorar”, acrescentou Toner.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a taxa de mortalidade é 30% mais alta em Gaza do que nas localidades palestinas da Cisjordânia, e a de desnutrição crônica passa de 10%. A renovada atenção mundial para a situação humanitária dos moradores de Gaza levou os Estados Unidos a prometerem US$ 400 milhões adicionais em ajuda ao desenvolvimento nesse território costeiro palestino.
As condições do embargo a Gaza foram modificadas na semana passada pelo gabinete israelense, que decidiu “aumentar a entrada de materiais para projetos civis sob supervisão internacional”, mas esclareceu que continuariam “os procedimentos de segurança para impedir a entrada de armas e material de guerra”, informou o escritório do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu. As novas políticas não terão impacto no bloqueio marítimo, que continua em vigor.
Segundo a imprensa, as modificações no embargo são resultado das negociações entre Netanyahu e Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico e enviado especial do Quarteto ao Oriente Médio. O Quarteto é uma instância de mediação internacional integrada por União Europeia, Organização das Nações Unidas, Estados Unidos e Rússia.
Israel criou uma lista de produtos proibidos, substituindo o anterior sistema que só identificava os bens autorizados. O governo de Netanyahu também deu sua aprovação à entrada de insumos para projetos de construção patrocinados pela ONU, e estuda permitir a entrada de observadores da UE nos postos de controle. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse sentir-se “animado” pela decisão israelense, mas acrescentou que as Nações Unidas “continuam esperando uma mudança fundamental na política” israelense.
Por seu lado, o chefe negociador palestino, Saeb Erakat, foi mais crítico: “com esta decisão, Israel busca criar a imagem de que suavizou seu bloqueio de quatro anos, bem como suas ainda mais longas restrições ao movimento da população de Gaza. Desta forma, evita o debate sobre o cerco em si, imposto ilegalmente aos palestinos”. Organizações internacionais também questionaram as contínuas restrições à entrada de ajuda humanitária em Gaza.
“A Oxfam reconhece o anúncio israelense como um passo na direção certa. Mas, está ainda longe do completo levantamento do bloqueio, que precisa ocorrer urgentemente”, disse o grupo humanitário, liderado por Jeremy Hobbes. “Só uma completa abertura dos postos de controle às pessoas e aos produtos, incluindo exportações, significaria um verdadeiro avanço que permitiria aos moradores de Gaza restaurar sua economia e fugir da pobreza que o sítio consolidou. A comunidade internacional deve pressionar para que o cerco seja levantado por completo, e não apenas aliviado”, acrescentou.
“Este anúncio deixa claro que Israel não pretende acabar com o castigo coletivo que impõe à população de Gaza, mas apenas atenuá-lo. Isto não basta”, disse o diretor para o Oriente Médio e a África do Norte da Anistia Internacional, Malcolm Smart. “Qualquer passo que ajude a reduzir a difícil crise humanitária em Gaza é bem recebido, mas Israel agora deve cumprir suas obrigações como potência ocupante sob o direito internacional e levantar imediatamente o bloqueio”, acrescentou.
Sami Abu Zuhri, porta-voz do Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), que controla a Faixa de Gaza, disse que o anúncio israelense era simplesmente “propaganda” para “enfeitar o bloqueio e assegurar sua continuidade”. Também acusou Israel de “enganar a opinião pública internacional, dando a impressão de que alivia o cerco”.
A Faixa de Gaza está sitiada por Israel e Egito desde 2007, quando o Hamas, que Telavive e Washington consideram uma organização terrorista, venceu as eleições legislativas palestinas e depois, na Batalha de Gaza, assumiu o controle de todo o território. Em 2008, o Conselho de Direitos Humanos da ONU exigiu que Israel levantasse o bloqueio. IPS/Envolverde

