Desconfiança dificulta desarmamento da América Latina

Lima, 09/06/2010 – A proposta peruana de reduzir o gasto militar na América Latina enfraquece na medida em que avança a discussão na 40ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas dos Estados Americanos (OEA), sepultada pela desconfiança de alguns governos e por interesses nacionalistas, segundo especialistas. “Estamos em um clima muito agitado, no qual não existe confiança entre as nações vizinhas. Impõem-se alguns interesses e a personalidade de alguns presidentes”, disse à IPS o general da reserva Roberto Chiabra.

Durante a abertura da reunião da OEA, na noite do dia 6, o presidente do Peru, Alan García, disse que “a paz do equilíbrio das armas não vale porque é uma paz forçada, é uma violência latente”. Chiabra, que foi ministro da Defesa no governo peruano de Alejandro Toledo (2001-2006), disse que a iniciativa de seu país é idealista em uma região convulsionada onde os países têm problemas “pendentes”.

“Venezuela, Equador e Colômbia vivem em um clima bélico desde 2008 por problemas relacionados com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)”, recordou Chiabra. “Tampouco Chile e Peru resolveram sua pendência marítima e, embora tenham recorrido a uma instância internacional (o Tribunal Internacional de Justiça, com sede em Haia), Santiago continua comprando armas. Não há confiança entre os vizinhos”, acrescentou o militar, autor do livro “Segurança Nacional no Século 21”.

Embora os representantes dos países tenham reafirmado sua vocação de paz nas primeiras sessões do dia 7 da assembleia da OEA em Lima, para os analistas está cada vez mais longe a possibilidade de serem assumidos compromissos concretos na declaração final que será assinada hoje. Precisamente, o projeto de declaração sobre paz, segurança e cooperação nas Américas, aprovado em 1º de junho pelo Conselho Permanente da OEA, coloca em evidência o espírito retórico destas sessões, afirmam os especialistas.

Em 12 pontos, os países expressam seu compromisso com temas e ações de cooperação para enfrentar a pobreza extrema, a desigualdade e a exclusão, mas também colocam exceções. O ponto cinco, por exemplo, assinala a importância de promover “um ambiente propício para o controle de armamentos, a limitação de armas convencionais e a não proliferação de armas de destruição em massa” para dedicar mais recursos ao desenvolvimento econômico e social. Porém, seguidamente está indicado que isto estará subordinado a “compromissos internacionais” e a “legítimas necessidades de defesa e segurança”.

Segundo o Balanço Militar da América do Sul 2008, do Centro de Estudos Nova Maioria, com sede em Buenos Aires, o gasto em armamento na região foi de US$ 39,143 bilhões em 2007 e de US$ 51,11 bilhões no ano seguinte. Em um informe do final de 2009, o Instituto Internacional de Investigação para a Paz (Sipri), com sede em Estocolmo, disse que as compras de material bélico na América do Sul cresceram 150% desde 2005, em relação ao quinquênio anterior.

“É lamentável que a região não tenha capacidade política suficiente para ter uma agenda comum”, insistiu Chiabra. “Chama a atenção que dentro dessa soberania haja uma percepção de ameaça entre os países e que existam compras com caráter ofensivo em lugar de defensivo”, acrescentou.

Nos últimos cinco anos, o Brasil destinou US$ 26,1 bilhões à compra de armas, Colômbia, US$ 10 bilhões, México, US$ 5,49 bilhões, Chile, US$ 5 bilhões e Venezuela, US$ 3,254 bilhões, segundo o informe do Sipri. No caso da Colômbia, o aumento se associa a antiga guerra civil que esse país enfrenta. O mesmo ocorre com o México e sua luta contra o narcotráfico. “Existe uma ameaça instalada nas mentes, antes dos territórios”.

O continente ainda não amadureceu nesta área, por isso a proposta peruana passará a ser mais uma questão simbólica”, disse à IPS Alberto Bolívar, especialista em temas de Segurança Internacional. Bolívar alertou que em alguns países existem armamentos que não são renovados desde a década de 80. Contudo, Chiabra assegurou que a modernização de equipamentos não deve ser “disfarçada” com uma corrida armamentista.

Nas sessões do dia 7, o chanceler argentino, Jorge Taiana, assegurou que não se deve cair em “visões unilaterais de armamentismo”. Seu colega colombiano, Jaime Bermúdez, disse que a reflexão de fundo é colocar na mesa a questão das “armas versus política social”, e convido a que seja discutido o tema do tráfico de material bélico de maneira séria. No contexto das discussões, o chanceler chileno, Alfredo Moreno, se mostrou aberto à ideia de iniciar com o Peru um processo de homologação de gastos militares semelhantes ao que seu país tem com a Argentina. Também exortou no sentido de que seja cumprida a Convenção Interamericana sobre Transparência na Aquisição de Armas Convencionais.

Precisamente, o ponto oito do projeto de declaração final convida os Estados a assinarem e ratificarem esse instrumento internacional. O secretário-geral da OEA, o chileno José Miguel Insulza, pediu, durante entrevista coletiva concedida no dia 5, maior transparência nas compras de armas e afirmou que, em média, apenas 41% dos países informam essas aquisições.

O presidente do Tribunal Interamericano de Direitos Humanos, Diego García Sayán, disse que a redução do gasto militar é complicada porque há países da América do Sul que são fabricantes de armas, como o Brasil e, em menor medida, o Chile. Os Estados Unidos também têm um papel importante como principal produtor de armas. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, falou durante as sessões sobre a possibilidade de “contemplar” a redução do gasto nesta matéria. IPS/Envolverde

Milagros Salazar

Milagros Salazar comenzó a colaborar con IPS desde Perú en junio de 2006. Sus temas son los conflictos sociales y ambientales, en especial los vinculados a las industrias de la minería, el petróleo y el gas. Forma parte del equipo de investigación de IDL-Reporteros. Trabajó para el diario La República y fue corresponsal y editora de varios medios nacionales, entre ellos Expreso y El Peruano. Nacida en Lima en 1976, Milagros se graduó en comunicación social en la Universidad Nacional Mayor de San Marcos y obtuvo una maestría en derechos humanos en la Pontificia Universidad Católica de Perú. Ha profundizado además en estudios sobre gobernanza política en programas auspiciados por la estadounidense George Washington University.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *