AWRA-AMBA, Etiópia, 13/07/2010 – Casada aos 13 anos, Fantaye Adem deseja que a sua vida tivesse sido diferente. Se tivesse crescido na sua nova casa, na aldeia de Awra-Amba, em vez de ser mãe de três filhos aos 18 anos, Fantaye estaria solteira durante pelo menos mais um ano.
Dewaye Masresha, o seu marido de 35 anos, trouxe a família para Awra-Amba há seis meses a agora vivem de acordo com os princípios da comunidade.
Décadas antes de a Lei da Família na Etiópia ter reconhecido o problema dos casamentos precoces em 2005 e estabelecido a idade mínima do casamento aos 18 anos, Awra-Amba tinha estabelecido a idade mínima para casar aos 19 anos para as mulheres e 20 para os homens.
E, hoje, é só em Awra-Amba, uma comunidade utópica com mais de 400 pessoas numa aldeia rural pobre 700 quilómetros a norte da capital, Adis Abeba, que este código é estritamente observado. Noutas zonas rurais do país, raparigas com idades tão tenras quanto os nove anos continuam a contrair matrimónio com homens mais velhos.
Um refúgio para as mulheres
“Esta comunidade é um refúgio para as mulheres,” disse a reservada e tímida Fantaye, segurando o filho de um ano ao mesmo tempo que trabalha ao lado do marido no tear de tecelagem de algodão da comunidade – a principal fonte de rendimento da comunidade.
“Estas pessoas desenvolveram os seus próprios valores e sabemos que todos os membros observam estes valores voluntariamente,” disee à IPS Zelalem Getachew, responsável pelas Relações Públicas no Gabinete Regional para as Mulheres de Amhara.
O Gabinete leva membros da comunidade de Awra-Amba a outras comunidades na região como parte da sua campanha em prol da igualdade do género.
“Apresentar pessoas de Awra-Amba para falarem das suas vidas revelou ser muito mais eficaz do que as compnhas de sensibilização formal do Gabinete que visam alterar as atitude das outras comunidades em relação aos papéis do género,” afirmou Zelalem.
Segundo o Gabinete, o princípio de “nenhum casamento precoce” de Awra-Amba teve um impacto positivo nas vidas das mulheres da comunidade, ao protegê-las contra a fístula e outras complicações de saúde, particularmente as que se relacionam com a saúde materno-infantil.
Nas comunidades rurais, as mães dão à luz em casa devido à ausência de serviços de saúde adequados, mas as mulheres que dão à luz pela primeira vez em Awra-Amba, com idade mais velha, evitam muitas das complicações associadas ao parto nas jovens.
“Não possuimos registos investigados para fazermos a comparação, mas não ouvimos falar de tantos casos de mortes maternas devido a complicações de parto em Awra-Amba como ouvimos noutros locais,” Getachew disse à PS.
“O efeito imediato do casamento precoce é o facto de as raparigas abandonarem automaticamente a escola. Mas a prática em Awra-Amba significa que muitas mais permanecem na escola,” disse Zenaye Tadesse, directora da Associação de Advogadas Etíopes – o maior grupo de activistas do género do país.
“Casar mais tarde também significa que as raparigas estão protegidas dos problemas psicológicos que sofreriam em resultado de ficarem sozinhas quando deviam estar na escola e brincar com as amigas”.
Contrariando as normas estabelecidas
Os princípios da comunidade não são o resultado da promoção do género, da política governamental ou do desenvolvimento académico. Para ela, trata-se simplesmente de “virtudes piedosas e justas”. Os membros da comunidade de Awra-Amba acreditam que todos os seres humanos são intrinsecamente iguais.
“A feminidade é para a minha mãe e a masculinidade é para o meu pai. Mas ambos são seres humanos,” Zumra Nuru, o fundador da comunidade, de 63 anos, asseverou à IPS. “Quando era criança, costumava perguntar se a minha mãe tinha forças adicionais porque o seu trabalho não acabava quando regressava a casa após um dia de trabalho na lavra com o meu pai.”
Zumra foi inspirado a criar um conjunto de valores contra as normas estabelecidas em seu redor. Embora algumas pessoas o considerassem “louco”, outras juntaram-se a ele para formar esta comunidade especial em meados da década de 90.
As mulheres em particular sentem os benefícios da resistência comunitária à discriminação do mundo exterior e ao escárnio do seu modo de vida.
A protecção das mulheres e a aplicação dos princípios da igualdade do género não se limitam às exigências de uma idade mínima para casar. Mulheres e homens participam de igual forma nas tarefas do lar e da comunidade; os trabalhos são atribuídos simplesmente em termos de eficácia. O rendimento da comunidade provém pricipalmente das indústrias familiares.
Birtukan Kibret, de 32 anos, nasceu e foi criada em Awra-Amba e é a guia turística da comunidade. A sua vida é bem diferente da de Fantaye. Quando chega a casa no final de um movimentado dia de trabalho, o marido, Muluneh Alemu, tem o jantar pronto para a sua família de cinco pessoas.
Para Birtukan, a igualdade do género não significa ter opiniões intransigentes sobre algumas causas, mesmo que tenham boas intenções. “É antes o partilhar do fardo numa família” afirmou. “Embora o meu marido cozinhe bem, por vezes cozinho voluntariamente porque não quero que seja sempre ele a fazê-lo.”
A igualdade diz mais respeito a attitude do que a tarefas,” Birtukan disse à IPS.
A violência doméstica contra mulheres e crianças é estritamente proibida e um dos 13 comités criados para assegurar uma vida comunitária e familiar saudável examina estas questões.
Segundo Birtukan, se há incidentes de violência doméstica, o comité condena o transgressor e pode decretar o divórcio. “Os transgressores com um comportamento continuado e os indivíduos que acabam de entrar na comunidade que não observem os nossos princípios são obrigados a partir.”
Aceitação crescente
Outras comunidades viram os benefícios desta sociedade igual e estão a imitar o modo de vida de Awra-Amba.
Representantes influentes de Awi – uma comunidade rural de maior dimensão no noroeste da Etiópia – visitaram Awra-Amba em 2007 e, desde então, estabeleceram uma reprodução exacta desta sociedade utópica a cerca de 100 quilómetros de distância.
Por sua própria iniciativa, os membros da comunidade de Awi aplicaram estes valores, que incluem trabalho duro, estando agore a colher os respectivos frutos,” disse Getachew.
Os membros da comunidade de Awra-Amba também se tornaram recursos fundamentais na educação de peritos do Gabinete e funcionários locais responsáveis pelos assuntos das mulheres com o objectivo de lhes permitir levarem a cabo o seu trabalho de forma eficaz.
“As pessoas, principalmente as educadas, reconhecem os nossos valores,” disse à IPS o orgulhoso fundador desta sociedade especial.

