ZÂMBIA: Receios dos pais reduzem aceitação de tratamento pediátrico da SIDA

LUSAKA, 13/07/2010 – Diana Banda* está rapidamente a esgotar as desculpas que dá ao filho de seis anos sobre porque é que tem de tomar uma quantidade de medicamentos todos os dias. O filho, David*, é seropositivo e recebe tratamento anti-retrovírico (TAR) há dois anos. Mas não vai ficar a saber a verdade sobre a sua condição de portador do VIH dentro em breve porque a mãe inventa desculpa atrás de desculpa acerca do motivo por que tem de tomar os medicamentos religiosamente.

“Pergunta-me quase todos os dias porque é que tem de tomar sempre os mesmos medicamentos. No início, disse-lhe que tinha uma dor de cabeça persistente mas, quando me ausentei durante uma semana, ele não tomou (a medicação) durante dois dias e depois protestou que não tinha tido qualquer dor de cabeça,” disse Banda, uma dona de casa na capital zambiana, Lusaka.

“Portanto, como família, fomos obrigados a convencê-lo que, segundo o médico, a cabeça dele vai começar a dilatar se parar de tomar os medicamentos, mas ele parece duvidar de tudo o que dizemos e fazemos,” acrescentou Banda.

Banda não é de modo nenhum a única progenitora a impedir o filho de saber que é seropositivo. Há milhares de outros pais e encarregados de educação zambianos que têm pavor de revelar aos filhos a sua condição de portadores do VIH – por motivos que vão desde a incerteza da reacção da criança ao medo do estigma, e até ao receio de serem considerados promíscuos pelos filhos.

Mas os especialistas de saúde afirmam que as famílias e comunidades que impedem as crianças a seu cargo de saberem a sua condição de portadores de VIH/SIDA estão a minar as tentativas do país de promover a aceitação e a observação do tratamento pediátrico anti-retrovírico (TAR)

“A aceitação do tratamento pediátrico anti-retrovírico (TAR) ainda é muito baixa comparada com a dos adultos e isso acontece sobretudo porque alguns pais não têm muito interesse em trazer os filhos para efectuarem testes. (Mas ) até aqules que se submetem ao teste e que recebem tratamento, na maior parte dos casos, não procuram a cooperação da criança no processo de tratamento, o que afecta o cumprimento do tratamento,” disse a Drª. Mutinta Nalubamba, coordenadora pediátrica de TAR no Ministério da Saúde.

Segundo a Drª. Nalubamba, no final de 2009, apenas cerca de 30.000 crianças tinham sido submetidas ao teste de VIH, embora mais de 70.000 precisassem de o fazer, com base no número de mães seropositivas que tinham dado à luz. “Apelamos a todas as famílias com crianças seropositivas que sejam mais francas sobre o problema, porque esconder a verdade põe a vida da criança em maior risco,” acrescentou a Drª. Nalubamba.

Todos os anos, nascem cerca de 40.000 crianças seropositivas na Zâmbia, mas apenas 21.000 recebem actualmente tratamento anti-retrovírico.

“Mais de 90 por cento das crianças seropositivas adquirem o vírus por transmissão de mãe para filho e o lamentável é que mais de 50 por cento morrem antes dos dois anos devido ao facto de não receberem qualquer tratamento ou da não adesão ao tratamento,” explicou a Drª. Nalubamba à IPS.

Mas não é algo que seja muito fácil. Banda afirma que não suporta o pensamento do filho descobrir que é seropositivo.

“Vai magoar-me muito como pessoa adulta, porque há dias em que tenho a impressão que vou morrer a qualquer minuto – mas o que é que acontece com uma criança?” pergunta Banda, cujo marido morreu de doenças relacionadas com a SIDA em 2007.

Matildah Mwamba, parteira tradicional e conselheira conjugal, declara que a maioria das famílias zambianas não fala com os filhos sobre o facto de serem portadores de VIH devido a normas culturais que encorajam os mais velhos a filtrar a informação transmitida aos filhos.

“O maior problema é o facto de o VIH/SIDA ainda estar estigmatizado comi pandemia mortal ou incurável, uma sentença de morte. Antes de revelar essa informação a uma criança, temos de perguntar a nós próprios como é que a criança receberá a notícia … e é por isso que as pessoas preferem mentir à criança ou negar-lhe qualquer acesso possível a informação sobre a doença,” disse Mwamba.

Banda tem tanto receio de o filho descobrir acidentalmente que os seus medicamentos são anti-retrovíricos que não o autoriza ver televisão sozinho ou até mesmo participar em cerimónias onde as pessoas podem falar de VIH. “(É) só no caso de tropeçar nalgum programa que o faça suspeitar que os medicamentos (que toma) são medicamentos para a SIDA. Mudamos sempre de canal quando aparece um anúncio sobre o VIH ou qualquer programa sobre o VIH/SIDA,” acrescentou Banda.

Actualmente, o Ministério da Saúde está a desenvolver directrizes sobre aconselhamento pediátrico. E diversas organizações não governamentais encetaram programas de intervenção que visam sensibilizar as pessoas sobre o VIH/SIDA e combater a opção de não divulgação adoptada por muitas famílias com crianças seropositivas a seu cargo.

Felix Mwanza, porta-voz de uma ONG, a Campanha de Literacia em prol do Tratamento, disse à IPS: “Queremos que as crianças desenvolvam um intenso interesse em conhecer a sua condição de portadores de VIH, que sejam capazes de se relacionar com os seus pares, que sejam capazes de falar abertamente sobre os problemas do VIH e da SIDA. É justo que saibam a verdade para que possam ajudar a recordar aos pais alguns aspectos da medicação.”

*Os nomes foram alterados

Correspondentes da IPS

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