Novo tratamento desperta temores

Lilongwe, Maláui, 13/07/2010 – O governo de Malavi coloca em prática um novo tratamento contra o HIV/aids que segue os últimos padrões internacionais, mas ativistas temem que a cara medicação impeça as autoridades de dar assistência gratuita a tantos pacientes quanto antes.

O governo de Maláui tem cada vez mais dificuldades para proporcionar assistência a crianças e pobres, segundo ativistas. - Claire Ngozo/IPS

O governo de Maláui tem cada vez mais dificuldades para proporcionar assistência a crianças e pobres, segundo ativistas. - Claire Ngozo/IPS

O encarregado de apoio e defesa da Rede Maláui de Pessoas com HIV/aids (Manet+), George Kampango, disse à IPS que os novos medicamentos custam o triplo dos usados até agora, e, portanto, o governo terá dificuldades para continuar fornecendo tratamento de graça a pobres e crianças.

Inclusive, “neste momento, nem todos os que precisam recebem o tratamento. O governo não pode fornecer para muitas pessoas pobres e para as crianças, incluindo órfãos, que são os que mais precisam”, disse Kampango. Dos 13,1 milhões de habitantes do país, 65% sobrevivem abaixo da linha de pobreza, com menos de US$ 1 por dia. Neste pequeno país da África austral, existem cerca de 560 mil órfãos, na maioria portadores do vírus HIV, causador da aids, segundo dados oficiais de 2007.

“Os novos remédios são muito mais caros, e tememos que o governo tenha ainda mais dificuldades para entregá-los às pessoas que já têm acesso a tratamentos gratuitos. Provavelmente, as crianças pobres serão as que mais sofrerão, porque normalmente não são consideradas prioridade”, disse Kampango. Atualmente, o governo fornece antirretrovirais para cerca de 250 mil pacientes. Quase um milhão de pessoas vivem com HIV neste país, e a prevalência do vírus é de 12% de acordo com o Ministério da Saúde.

O governo até agora fornecia a terapia de primeira linha, isto é, a que se aplica na fase inicial do HIV, com os medicamentos Stavudine, Lamivudine e Nevirapine, para o qual investia US$ 33 por paciente por mês. Mas o novo tratamento custará ao governo US$ 100 mensais para cada doente, segundo a secretária para HIV e Aids da Presidência de Malavi, Mary Shawa. “O país está mudando de regime de acordo com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde, no sentido de que os países abandonem o atual tratamento de primeira linha, que causam cada vez mais efeitos colaterais”, disse Shawa.

Em 31 novembro de 2009, a OMS introduziu novas pautas para o tratamento do HIV e a prevenção da transmissão de mãe para filho. Estas dizem, entre outras recomendações, que os governos devem começar a fornecer tratamento muito antes de o número de células CD4 (um tipo especial de glóbulo branco cuja presença determina a fortaleza do sistema imunológico) no organismo do paciente atingir 350 por mililitro cúbico (ml³). Atualmente, são administrados remédios quando o número de células CD4 cai para menos de 200 por ml³.

As novas recomendações também exortam os governos a fornecerem terapias com os remédios Zidovudine ou Tenofovir mesmo se o paciente não demonstrar sintomas da aids. Porém, a Manet+ diz que ainda há muitos sem acesso ao tratamento gratuito por falta de recursos públicos, e que adotar o novo regime só vai piorar as coisas. “A partir de agora, será um desafio maior para o governo fornecer medicamentos aos infectados com HIV, porque as pessoas iniciarão o tratamento antes e, portanto, tomarão remédios por mais tempo. Isto significará maior custo em antirretrovirais”, alertou Kampango.

Malita Luka, de 35 anos, se mostrou preocupada pela adoção do novo regime. Ela e seu filho de nove anos esperam em vão pelo tratamento gratuito público desde que tiveram detectado o HIV, há um ano. “Meu filho e eu sempre adoecemos, e creio que deveríamos receber o tratamento, mas os médicos dizem que ainda não estamos doentes o suficiente para ter acesso aos remédios”, disse à IPS. Sua prima, também portadora do HIV, mas em melhor condição econômica, optou pelo tratamento particular quando encontrou dificuldades para ter acesso ao gratuito. “Não posso pagar, e temo que seja ainda mais difícil para meu filho e eu recebermos os medicamentos de graça, agora que ficarão mais caros para o governo”, acrescentou Luka preocupada.

A Comissão Nacional Maláui contra a Aids, fundo público que coordena a resposta à doença em todo o país, se queixa da escassez de recursos para a adoção do novo tratamento. A diretora-executiva da entidade, Bridget Chibwana, foi citada na imprensa local, no início deste ano, por dizer que a falta de fundos era o maior obstáculo para o novo tratamento. Outros desafios são a carência de infraestrutura e de trabalhadores da saúde.

Também é certo que o governo continua procurando mais financiamento por parte do Fundo Global de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária, bem como de outros doadores, bem como aprovou mais recursos para combater o HIV no orçamento nacional 2010/2011 begin_of_the_skype_highlighting 2010/2011 end_of_the_skype_highlighting. O ministro das Finanças, Ken Kandodo, disse que o setor vai receber neste ano fiscal um total de US$ 300 milhões, dos quais US$ 75 milhões serão destinados à Comissão para combater a “pandemia do HIV/aids”.

De todo modo, a Manet+ pretende fazer campanha por mais recursos e maior compromisso oficial. “Estamos pensando em um programa de promoção para fazer com que as novas diretrizes sejam bem pensadas antes de serem executadas”, disse Kampango. IPS/Envolverde

Claire Ngozo

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