Belo Monte e a seca como presente

Altamira, Brasil, 01/07/2010 – Serão dois anos de abundância e depois a fome. A lógica do índio José Carlos Arara desnuda a retórica que promete manter as condições de vida dos que serão afetados pela hidrelétrica de Belo Monte, a ser construída no Rio Xingu.

No Rio Xingu, onde se vê as margens, quase sempre são ilhas. - Mario Osava/IPS

No Rio Xingu, onde se vê as margens, quase sempre são ilhas. - Mario Osava/IPS

A gigantesca obra, que consumirá cinco anos, inundará uma área 58% menor do que a prevista no projeto original, resguardando terras indígenas, afirma o governo brasileiro. Se limitará a 516 quilômetros quadrados, um quinto da superfície que inundou Tucuruí, hidrelétrica de potência similar que foi construída há 26 anos nesta mesma Amazônia oriental.

Mas o trecho subtraído da inundação – cem quilômetros da Volta Grande do Xingu, uma curva do rio em forma de ferradura – sofrerá efeito inverso, a estiagem permanente, pois perderá a maior parte de suas águas retidas em uma represa e desviadas por um canal para uma segunda represa geradora de energia. Neste trecho vivem cerca de 180 índios em duas reservas, Paquiçamba e Arara, e centenas de famílias camponesas, que têm o rio como principal fonte de proteínas e meio de transporte.

De sua aldeia, escolhida por alguns animais silvestres para viver, com um macaco que cavalga uma queixada (espécie de porco selvagem), José Carlos Arara – cujo sobrenome é o mesmo de sua etnia – participa do movimento contra Belo Monte, que une indígenas, ambientalistas, ativistas sociais e pesquisadores acadêmicos. Reduzir o fluxo do rio provocará fatores que reduzirão drasticamente o pescado e outros alimentos que o rio oferece, segundo José Carlos, líder da terra indígena Arara da Volta Grande, onde vivem 96 pessoas, às quais se somam mais de 50 parentes que estudam ou trabalham fora da comunidade.

A alteração dos ciclos e fluxos hidrológicos extinguirá várias espécies de peixes, alertam pesquisadores e admitem também as autoridades ambientais que autorizaram a usina de Belo Monte. Haverá menos peixes e tracajás, quelônios amazônicos tão importantes quanto o pescado na alimentação local, porque sua reprodução depende da cheia do rio na primeira metade do ano, o “inverno”, que inunda as florestas vizinhas, onde estes animais se alimentam e se refugiam.

A vegetação crescerá nas praias que agora ficam inundadas durante o inverno amazônico, frustrando a desova dos quelônios ou elevando sua mortalidade, e, com a mudança de temperatura, nasceriam mais machos do que fêmeas, afetando ainda mais a reprodução, alertou o biólogo Juarez Pezzuti, no Estudo do Impacto Ambiental de Belo Monte. Os tracajás quase desapareceram da área de influência da hidrelétrica de Tucuruí, que represou águas do Rio Tocantins, a leste do Xingu, disse Juarez, pesquisador da Universidade Federal do Pará.

Além disso, a menor quantidade de água facilita a pesca, que por isso se intensifica no segundo semestre, o verão da Amazônia. Com um verão contínuo na Volta Grande, a pesca em excesso e o extermínio de tracajás se estenderão por todo o ano, destacou José Carlos. A depredação entre espécies se intensificará, porque toda a fauna será mais vulnerável aos seus inimigos naturais em um rio mais estreito e menos fundo, com menores espaços e refúgios, acrescentou. A isso se soma a crescente competição pelos recursos alimentares, devido ao grande fluxo de migrantes seduzidos pela construção da hidrelétrica.

A obra, segundo seus planejadores, gerará 18.700 empregos diretos e 80 mil indiretos, atraindo cerca de cem mil forasteiros que duplicarão a população das cidades vizinhas. Quem não conseguir trabalho buscará sobreviver em atividades como a pesca, disse José Carlos, numa disputa por recursos naturais que vem aumentando desde 2005, quando o fim da indústria madeireira ilegal agravou o desemprego em Altamira, a principal cidade da região. “Os 300 quilos de pescado que antes obtínhamos em quatro dias agora nos custam de sete a oito dias”, afirmou.

No começo, a facilidade de pescar e caçar beneficiará a todos, mas a abundância de peixes e tracajás na Volta Grande não suportará mais do que dois anos de águas reduzidas, disse o líder arara. O Rio Xingu tem características singulares. Sobe muito com as chuvas do inverno e baixa muito no verão. Pode atingir 30 mil metros cúbicos por segundo, entre março e abril, e chegar a menos de 500 metros cúbicos entre setembro e outubro. Essa variação gera dúvidas sobre a viabilidade da central nos meses mais secos.

Como corre em sua maior parte por terrenos rochosos e de pouco declive, o Xingu é muito largo e cheio de ilhotas, normalmente submersas pelas cheias, especialmente na Volta Grande, onde também se sucedem as cachoeiras. Por isso, navegar aqui é perigoso, especialmente no verão, quando as pedras e cachoeiras tornam intransitáveis vários trechos do rio, inclusive para as rabetas, pequenas embarcações usadas por índios e ribeirinhos. Nestes lugares é preciso carregar o barco por terra. “Demoramos de nove a dez horas para chegar a Altamira”, disse José Carlos, cuja aldeia fica a cerca de 70 quilômetros da cidade, rio abaixo.

A ligação fluvial é a única desta terra indígena com o mundo, e se perderá quando secar o leito em Volta Grande e for erguida uma barreira no Sítio Pimental, 40 quilômetros abaixo de Altamira. O projeto aprovado promete amortizar os impactos em Volta Grande, assegurando um fluxo mínimo de água que variará mensalmente de 700 a oito mil metros cúbicos por segundo e entre 700 e quatro mil metros cúbicos por segundo em anos muito secos, que sempre são seguidos por outros mais úmidos. É o chamado “hidrograma de consenso”.

É muito pouco para garantir as funções do rio, que no inverno atinge uma média de 23 mil metros cúbicos por segundo, criticam os opositores ao projeto. Além disso, essas metas dificilmente serão cumpridas, porque colocarão em disputa águas que gerarão eletricidade e lucro.

Entre as 40 condições impostas para aprovar Belo Monte, a autoridade ambiental nacional exigiu que esse hidrograma fosse colocado à prova nos seis anos posteriores à instalação da “plena capacidade de geração da usina, com um forte plano de monitoramento” dos impactos em Volta Grande, com fins de ratificação. Em projetos anteriores, como Tucuruí, houve exigências prévias que caíram no esquecimento. Agora se trata de adotar uma condição posterior ao fato consumado. IPS/Envolverde

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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