BOTSWANA: Ganhos inesperados para agricultores no Botswana

GABERONE, 02/07/2010 – Duas das maiores fábricas de cerveja do Botswana estão a fazer sorrir os agricultores. Não, não estão a dar cerveja gratuitamente: as fábricas de cerveja planeiam comprar sorgo aos pequenos agricultores a preços muito mais elevados do que o Conselho de Comercialização Agrícola do Botswana (BAMB) costuma oferecer. Tem havido longos e veementes protestos por parte dos agricultores sobre os preços oferecidos pelo BAMB para os produtos agrícolas que aqueles vendem ao Conselho de Comercialização, como milho e sorgo.

Vender com prejuízo

O Conselho de Comercialização é uma empresa pública, criada em 1974, com o mandato de adquirir produtos programados dos agricultores locais e assegurar que provisões alimentares adequadas, a preços acessíveis, estejam disponíveis ao público.

O BAMB age como serviço centralizado para produtores e consumidores, comprando, embalando, processando e vendendo os cerais e as leguminosas produzidas localmente e também vendendo uma grande variedade de rações para animais e insumos agrícolas, como sementes e adubos.

John Phirinyane, proveniente da aldeia de Kanye, localizada a cerca de 100 quilómetros a sul de Gaberone, acredita que o Conselho de Comercialização tem impedido o progresso dos agricultores e mostra-se entusiasmado com qualquer oportunidade para conseguir mais receitas da sua terra.

“Estávamos a vender com prejuízo ao BAMB. Usavam o mercado sul africano para fixar os preços aqui, o que nos colocou em posição de desvantagem.”

Phirinyane explica que os agricultores aul africanos enfrentam menos obstáculos – pássaros quelea e outras pragas, cheias e pressão sobre os recursos hídricos causados pelas secas, o que reduz os rendimentos – comparativamente aos agricultores do Botswana. Os grandes produtores sul africanos também gozam da vantagem da mecanização e outras infra-estruturas que lhes permitem produzir sorgo e outros cereais para grandes mercados, facilmente acessíveis, a preços muito mais baixos.

Apesar de produzir muitas vezes com prejuízo, Phirinyane nunca deixou a agricultura. “Se pararmos, não poderemos ajudar os muitos Batswanas que compram farinha de milho para consumo. Também vendo para o centro de investigação de Sebele (que paga melhor do que o BAMB).

Ajudarmo-nos uns aos outros

As fábricas de cerveja Kgalagadi Breweries Limited e Botswana Breweries Limited anunciaram um novo programa intitulado Projecto Thusanang (que significa “ajudarmo-nos uns aos outros através da interdependência”) Segundo o programa Thusanang, as fábricas de cerveja irão eventualmente substituir sorgo no valor de cerca de um milhão de dólares importado da África do Sul todos os anos, por 5.000 toneladas produzidas localmente.

As duas fábricas de cerveja esperam economizar custos ao utilizarem produtores locais, mas prometeram que a iniciativa terá um benefício mútuo para os agricultores, que vão poder vender as suas colheitas a preços mais elevados e poupar nos custos de transporte.

De acordo com Mokoro Ketsitlile, Director de Comunicação da Kgalagadi Breweries, a fase piloto do projecto começou em Julho de 2009, com quatro agricultores nas Terras de Mmalore, no Distrito do Sul.

Dois consultores agrícolas foram contratados para ajudar a compilar estudos de viabilidade e trabalho técnico, que incluiu o estudo da actual paisagem agrícola, a avaliação e identificação de possíveis aglomerações e redes de agricultores, a avaliação das necessidades dos agricultores e ainda os potenciais rendimentos dos diversos distritos agrícolas do Botswana.

O projecto só conseguiu receber sements suficientes para efectuar experiências com os quatro agricultores em Mmalore. Cada um plantou cinco hectares de uma variedade de sorgo intitulada NS 5511 e, segundo Ketsitlile, o cereal está quase a chegar ao seu pleno desenvolvimento, esperando-se que a colheita seja feita no início deste mês.

“Escolhemos o NS 5511 porque é resistente à seca, chega ao estado de maturidade mais rapidamente, os grãos são duros e oferece um melhor rendimento em relação a outros tipos de sorgo,” disse.

“Plantámos muito tarde mas, mesmo assim, os campos estão com muito boa aparência,” acrescentou Ketsitlile com um sorriso.

“Recolheram-se amostras (no início de Maio) para avaliar o potencial do grão antes da colheita. Depois de colhido, o BAMB e os nossos actuais preparadores de malte terão de fazer a validação necessária da qualidade.”

Espaço para mais compradores

Embora possa ter de competir com as fábricas de cerveja para aquisição do sorgo num futuro próximo, o BAMB vai avaliar a qualidade da colheita do projecto piloto como parte do seu mandato como entidade semi-estatal. Os funcionários do Conselho de Comercialização, que comprou 4.000 toneladas de sorgo em 2009, dizem que não estão preocupados com o novo plano.

“Isto é um mercado aberto e é saudável haver concorrência negócio,” disse Jones Proctor, director de comercialização do BAMB. “Temos mais contacto com os agricultores e, se eles oferecerem bons preços, aumentaremos também os nossos de maneira a atraí-los.”

O BAMB foi contratado pelo governo para gerir a Reserva de Cereais Estratégicos, que tem o objectivo de garantir a segurança alimentar nacional. Ketsitlile, da Kgalagadi Breweries, afirmou que vai demorar pelo menos um ano antes de tudo estar a postos e de as fábricas de cerveja começarem a comprar grandes quantidades de sorgo local.

“A nossa intenção é analisar pelo menos duas outras aglomerações além de Mmalore, de forma a conseguirmos obter mais resultados e a apontarmos a viabilidade nestas áreas. Neste momento, temos de avançar com cuidado, visto que o cereal requer um investimento adicional numa fábrica de malte no Botswana para processarmos tudo localmente.”

As fábricas de cerveja dizem que estão a trabalhar com os agricultores no sentido de aumentarem a produção. Irão dar apoio aos agricultores em termos de tecnologia agrícola e assistência técnica no que diz respeito a gestão agrícola, cultivo de cereais e gestão de solos.

De acordo com Ketsitlile, vão pagar a consultores agrícolas e ainda qualquer formação que seja necessária para os agricultores. Depois do programa começar a sério, irão também facilitar a obtenção de ferramentas agrícolas, adubos, sementes, formas de embalagem e pesticidas.

As comunidades agrícolas em todo o país prevêem agora oportunidades adicionais para os fornecedores locais, o encorajamento do espírito empreendedor nas comunidades locais e o apoio aos agricultores em pequena escala.

Alma Balopi

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