DIALOGUES: Energia limpa para preservar etnia nicaraguense

PARIS, França, 27/07/2010 – (Tierramérica).- Na costa atlântica da Nicarágua, um projeto procura preservar uma cultura indígena promovendo o desenvolvimento sustentável.

Uma criança da aldeia de Kahkabila desfruta da luz elétrica - Cortesia blueEnergy 2010

Uma criança da aldeia de Kahkabila desfruta da luz elétrica - Cortesia blueEnergy 2010

Há seis anos, engenheiros franceses e norte-americanos instalam paineis solares e turbinas eólicas no município nicaraguense de Bluefields, promovendo a eletricidade limpa e o desenvolvimento entre os indígenas da etnia rama da região. O engenheiro francês Lâl Marandin e os irmãos franco-norte-americanos Guillaume e Mathias Craig fundaram, em 2004, a blueEnergy, uma organização não governamental que recebe recursos e doações de empresas e fundações da França e dos Estados Unidos.

Atualmente, esta entidade sem fins lucrativos emprega cerca de 20 técnicos desses dois países e outros tantos colaboradores nicaraguenses. Guillaume e Mathias passaram sua infância em Bluefields e são filhos da linguista e antropóloga norte-americana Colette Craig, que trabalhou na Nicarágua na década de 80. Regressaram 20 anos mais tarde, Mathias como engenheiro e Guillaume como administrador, para prosseguirem o trabalho de conservação cultural de sua mãe, complementado com desenvolvimento ambiental, contou ao Terramérica Anne-Cécile Mailfert, diretora da filial francesa da blueEnergy.

Em seis anos de operação, a organização instalou paineis solares e pequenas turbinas que produzem 12 quilowatts/hora. Além disso, distribuiu mais de 50 filtros que fornecem água potável a 12 comunidades de aproximadamente três mil pessoas. Também entregou freezers para uso coletivo de pescadores e liderou a construção e instalação de equipamentos de pequenos hotéis ecológicos para incentivar o turismo.

Estas instalações não se limitam a Bluefields, capital da Região Autônoma do Atlântico Sul, e chega a comunidades inclusive mais isoladas, como Monkey Point, 50 quilômetros ao sul e acessível apenas de barco. A aldeia conta hoje com eletricidade gerada por turbinas eólicas e água potável, graças a filtros operados com essas turbinas. O resgate cultural tem suas razões. A língua dos rama procede da família de idiomas chibchas da região central da atual Colômbia, e poderia ser uma chave para entender as migrações pré-colombianas. No entanto, está em risco de extinção, pois pouquíssimas pessoas a utilizam.

O Terramérica conversou sobre estes temas com Anne-Cécile Mailfert em Paris.

Terramérica: Além das razões familiares, qual outra motivação tiveram os irmãos Craig e Lâl Marandin para trabalhar em Bluefields?

Anne-Cécile Mailfert: Sabiam das dificuldades econômicas e deficiências em infraestrutura de eletricidade na região. Bluefields é muito isolada, quase sem ligação com a rede elétrica nicaraguense. Além disso, as correntes dos rios locais são fracas, de modo que hidrelétrica não é uma alternativa. Destas dificuldades, a blueEnergy fez uma virtude, ao usar o Sol e o vento. Por outro lado, estamos considerando o uso da biomassa como uma fonte energética adicional. Dessa forma são atendidos dois objetivos: fornecer eletricidade a uma região muito necessitada e evitar a contaminação.

Terramérica: Mas a blueEnergy não fornece apenas energia limpa…

ACM: Outro objetivo essencial é colocar à disposição dos indígenas rama instrumentos de desenvolvimento e preservação de sua cultura, de sua língua. Para isso cooperamos com a população com programas educacionais e colocamos à sua disposição equipamentos como freezers para os pescadores. Nossos equipamentos são simples, pois a intenção é que os rama adquiram e desenvolvam competências em áreas da vida econômica e cultural cruciais para sua existência. Além do mais, como o acesso a Bluefields é muito difícil, custa muito transportar pessoas ou equipamentos até lá. Instalamos sistemas de água potável em várias comunidades, ajudamos a criar associações comerciais com as mulheres rama, realizamos estudos de viabilidade econômica para microprojetos e damos assessoria aos indígenas em questões financeiras, como a obtenção de microcréditos. A energia limpa é apenas um meio para incentivar o desenvolvimento econômico local e a conservação da cultura rama.

Terramérica: Como as entidades nicaraguenses reagiram a estas iniciativas?

ACM: Temos programas de cooperação com o estatal Instituto Nacional Tecnológico, que supervisiona a formação técnica e profissional em todo o país, e com o Fundo para o Desenvolvimento da Indústria Elétrica Nacional. Também cooperamos com o projeto Ecofogão da Pró-Lenha, uma organização não governamental cujo objetivo é o uso mais eficiente, moderno e sustentável da biomassa nos setores doméstico e industrial, rural e urbano.

Terramérica: Em nível internacional, quais são os associados da blueEnergy?

ACM: A Kiva, organização de microcréditos com sede em São Francisco, nos Estados Unidos, apoia o escritório de microcréditos em Bluefields. Também trabalhamos com a Good Energies, uma companhia internacional de investimentos em energia limpa; com a Trojan, que fabrica baterias e acumuladores, e com várias empresas de engenharia e eletrotécnica.

* O autor é correspondente da IPS.

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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