COCODRILO, Ilha da Juventude, Cuba, 27/07/2010 – (Tierramérica).- Um regime de proteção ambiental muda a sorte de uma comunidade fundada por caimaneses de fala inglesa em Cuba.
De frente para o mar, Cocodrilo está a cem quilômetros de Nueva Gerona, capital da Ilha da Juventude, a segunda maior do arquipélago cubano. “A vida era muito difícil aqui, não havia estrada como hoje, nem corrente (energia elétrica), a vida dos pescadores era dura”, disse ao Terramérica Jenny Rivers, de 78 anos. As noites de Cocodrilo costumavam ser tão escuras como a boca de um lobo. Com o novo século chegou a eletricidade nas 24 horas do dia, gerada por um grupo eletrógeno alimentado a óleo combustível
Jenny se instala pela manhã diante da janela de sua casa para ver o mar que alimentou várias gerações de sua família. “Meus pais vieram de Caimã, e meu marido era filho de William Jackson, fundador de Cocodrilo, que antes se chamava Jacksonville”, contou. O inglês era a língua comum. Alguns sobrinhos caimaneses – ou caimaneros, como dizem aqui – vieram visitá-la. “Dizem que isto se parece muito com as Ilhas Caimã, por suas casas, pela paisagem”, afirmou. O que acontece quando vem um furacão? “Ah, vou para Gerona com uma das minhas filhas. Levam todos nós para lugares seguros”, responde Jenny sem alterar-se.
Dois de seus bisnetos estudam na escolinha primária de Cocodrilo. O menino quer ser médico. A menina ainda não decidiu. Como todos os que nascem aqui, sabem nadar desde pequenos e aprendem com seus professores a gostar e cuidar da natureza. “Este povoado está em uma área protegida, é preciso cuidar das árvores, não jogar lixo, nem colocar fogo nas florestas, para evitar os incêndios”, explicou ao Terramérica Yenia Amador, de nove anos. “Também não devemos jogar lixo tóxico no mar, porque os peixes adoecem”, acrescentou Isaura Soto, da mesma idade.
Entre as aves da floresta do sul da Ilha da Juventude, Jenny Ruiz, de oito anos, prefere o tocororo (Priotelus temnurus). “É azul, branco e vermelho, que são as cores da bandeira cubana. Nela, e em nenhuma outra ave, se deve atirar pedras”, avisou. Há oito anos, Cocodrilo conta com uma unidade de gaseificação de biomassa florestal para gerar eletricidade. A instalação é parte de um projeto internacional de geração e distribuição de energia renovável para a Ilha da Juventude. O povoado poderá economizar 75% do combustível fóssil usado para iluminação, que também será menos contaminante.
“A experiência permitirá avaliar a tecnologia e o manejo da floresta e, se for positiva, poderá se expandir para outras comunidades com características semelhantes. Também o que é feito em educação ambiental pode ser levado a outros lugares”, afirmou ao Terramérica o especialista em áreas protegidas José Izquierdo. Para os pescadores também há um antes e um depois. Uma suspensão da caça de tartarugas reorientou o trabalho das pessoas no Mar de Cocodrilo que, por gerações, viveram da pesca de quelônios. “Agora estamos melhor”, garantiu ao Terramérica Gertrudes Figueredo, de 56 anos e 27 de vida marinha.
Com apoio do Fundo Mundial para a Natureza, Gertrudes e seus companheiros melhoraram seu equipamento. Além disso, pela pesca do vermelho cioba (Lutjanus analis) e outras espécies apreciadas, recebem 20% dos ganhos em divisas. Cocodrilo é a única comunidade humana no sul da ilha, um local Ramsar – mangue de importância internacional – e Área Protegida de Recursos Manejados. Em sua fauna encontram-se aves endêmicas como o beija-flor-abelha (Mellisuga helenae), e a coruja dos bananais (Glaucidium siju vittstum), endêmica das Antilhas.
Cerca de 126.200 hectares do Mangue de Lanier e Sul da Ilha da Juventude foram incluídos em novembro de 2002 na lista de mangues de importância internacional da Convenção de Ramsar, adotada em 1971 nessa cidade iraniana para preservar esses ecossistemas e planejar seu uso sustentável. Aqui já foram registradas, até agora, 35 espécies de aves, 11 de répteis (cinco endêmicas), seis de mamíferos (quatro deles introduzidos), sete de insetos himenópteros e cinco de crustáceos terrestres.
Uma estação ecológica encarregada do manejo da área protegida conta com pessoal especializado para a conservação das espécies autóctones, sobretudo dos quelônios. As tartarugas são monitoradas de abril a setembro ao longo da praia, explicou ao Terramérica a especialista principal da estação, Bárbara Martinez. O acompanhamento inclui a contagem dos ovos e de sua quantidade por ninho, entre outros dados, possibilitando comparações com anos anteriores.
“As tartarugas costumam fazer os ninhos muito próximo da linha da maré, de modo que os pesquisadores os levam para locais mais distantes para não serem afetados pela maré cheia e evitar que os ovos fiquem úmidos ou se percam. Isto é parte do manejo da espécie”, acrescenta Bárbara. A iguana, de populações vulneráveis pela destruição de habitat e pela caça, também é objeto de atenção de Bárbara e sua equipe. A informação recolhida é enviada ao Centro Nacional de Áreas Protegidas em Havana, onde é estudado o comportamento da espécie em todo o país.
* A autora é correspondente da IPS.


