COREIA DO NORTE: Saúde à beira do colapso

Nova York, Estados Unidos, 16/07/2010 – O sistema de saúde da Coreia do Norte está em situação crítica e necessita de ajuda, alertou ontem a organização Anistia Internacional. No informe “O Desmoronamento da Atenção com a Saúde na Coreia do Norte”, apresentado em Nova York, o grupo diz que a situação é tão grave nesse país da Ásia que são feitas amputações e outras cirurgias importantes sem anestesia. As clínicas e os hospitais norte-coreanos estão “arruinados e operam com frequentes cortes de energia e sem calefação”.

Embora a assistência médica gratuita esteja garantida para todos, os médicos não recebem o salário e têm de cobrar dos pacientes, que às vezes pagam até com cigarros ou roupa. Supõe-se que os medicamentos sejam entregues gratuitamente nos hospitais, mas a Anistia diz que os norte-coreanos aceitam por “senso comum” que são vendidos no mercado negro por pessoas sem capacitação que aconselham sobre seu uso à população. Entre os medicamentos mais vendidos, destaca-se o “jeong tong pyeon”, um analgésico altamente viciante derivado do ópio.

Por outro lado, representantes da missão diplomática norte-coreana na Organização das Nações Unidas negaram as afirmações da Anistia. “Cada cidadão na Coreia do Norte tem direito a plena atenção médica gratuita”, disse à IPS um funcionário da delegação. “O sistema de saúde universal da Coreia do Norte é de serviço completo grátis, sem custo por medicamento, vacina, exames, cirurgias, etc. O governo paga adequadamente a todos os médicos”, acrescentou.

A Coreia do Norte é parte da Convenção Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, que obriga os membros a protegerem os direitos da população com “os maiores padrões possíveis de saúde”, como lembra o informe da Anistia. A informação fornecida pela organização se baseia no testemunho de 40 norte-coreanos que abandonaram o país entre 2004 e 2009, alguns dos quais viviam perto da fronteira ou tinham familiares em países vizinhos.

Vários mencionaram a propagada prática de misturar “alimentos silvestres”, como casca de árvores e mato, com grãos para poder “fazer a comida durar mais”. Este costume teve um impacto negativo na saúde, e aumentou 20% em 2008, segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

O governo norte-coreano não aceita ajuda humanitária dos Estados Unidos desde março de 2009, segundo o informe, devido às “tensas relações”, e pediu ao PMA que focasse sua assistência em 65 condados e sete províncias, quando antes era dirigida a 131 condados e oito províncias, segundo explica a própria agência da ONU em seu site. “As operações mudaram de objetivo devido à perene situação de baixos recursos”, disse à IPS a porta-voz do PMA para a Coreia do Norte, Lena Savelli. “Foram priorizadas as existências de alimentos disponíveis para distribuir produtos reforçados aos grupos mais vulneráveis”, entre eles mulheres e crianças, acrescentou.

Dados divulgados pelo PMA mostram que 33% da população está desnutrida. “Com a dimensão atual das operações e os recursos disponíveis, o PMA só pode abordar parte da brecha alimentar que o país enfrenta. Neste ano, o PMA já distribuiu 40 mil toneladas de alimentos aos norte-coreanos famintos, e há planos para mais 44.250 toneladas até o final do ano, caso os doadores deem dinheiro suficiente”, explicou Savelli.

A porta-voz afirmou que a falta de financiamento por parte dos doadores continua sendo um importante desafio. Esse “frequentemente nos obriga a reduzir as atividades, eliminar certos grupos beneficiários das listas de distribuição, limitar a assistência alimentar a rações parciais de produtos reforçados e cancelar projetos no contexto do desenvolvimento comunitário”. A diretora geral da Organização Mundial da Saúde, Margaret Chan, visitou o país em abril e disse que havia alcançado importantes êxitos na cobertura da imunização e na saúde materna e infantil.

O informe indica, porém, que as condições continuam difíceis. A ex-diretora geral da OMS, Gro Harlem Brundtland, disse à imprensa em 2001 que o sistema de saúde da Coreia do Norte estava próximo ao colapso, e que precisava de equipamentos, remédios, eletricidade e dinheiro para impedir uma crise sanitária mais importante.

Atualmente, segundo Savelli, um terço dos menores de cinco anos sofrem atrofias e um quarto das mulheres grávidas está desnutrido. Entre os 2,5 milhões de pessoas que o PMA toma por objetivo, 80% são descritos como “grupos vulneráveis”, aos quais é dado apoio nutricional. “O PMA apoia 11 fábricas que produzem alimentos no país. Para garantir que a ajuda chegue às mulheres e crianças que precisam dela, os alimentos são distribuídos por meio de instituições como orfanatos, jardins de infância, creches, escolas primárias e hospitais”, disse Savelli.

A Anistia pede urgência ao “governo norte-coreano para garantir que o Estado cumpra suas obrigações nacionais e internacionais de respeito ao direito à saúde”. Também pede que a Coreia do Norte “coopere estreitamente com a ONU na abordagem da insegurança alimentar, saúde e outros assuntos relacionados”. No informe a comunidade internacional é chamada a “garantir que o fornecimento de ajuda humanitária à Coreia do Norte seja feito com base na necessidade, e não esteja sujeito a condições políticas”. O funcionário norte-coreano disse à IPS “que o governo dá as boas-vindas à cooperação internacional na área da saúde”. IPS/Envolverde

Esther Banales

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