Carachi, Paquistão, 02/07/2010 – O diretor técnico da seleção de futebol da Inglaterra, Fabio Capello, disse que a imprevisível trajetória da Jabulani, a bola oficial da Copa Mundial da Fifa na África do Sul, é a pior da história do campeonato
Até o final da década de 90, o Paquistão respondia por 85% do mercado futebolístico do mundo, empregava cerca de 85 mil pessoas, produzia 60 milhões de bolas por ano, no valor de US$ 210 milhões, informou o jornal de língua inglesa Express Tribune. Agora, este país produz apenas entre 30% e 40% das bolas de futebol.
O Paquistão não se classificou para a Copa do Mundo da Alemanha, mas esteve representado em todas as partidas. As bolas utilizadas em 2006 foram costuradas à mão na cidade de Sialkot, na província do Punjab, conhecida por suas fábricas de artigos esportivos e instrumentos cirúrgicos. Entretanto, para a copa da África do Sul, a Adidas decidiu que as Jabulani seriam feitas à máquina na China.
“É lamentável que a indústria futebolística do Paquistão não tenha acompanhado o ritmo dos avanços tecnológicos”, disse Arshid Mehmood Mirza, diretor-executivo da Bedarie, organização não governamental que trabalha pela proteção dos direitos das mulheres. A principal causa da queda dessa indústria se deve ao trabalho infantil. O mundo tomou conhecimento, em 1996, graças a um artigo da revista Life, que meninos e meninas paquistaneses costuravam bolas de futebol por US$ 0,06 a hora.
Aproximadamente sete mil menores participaram dos diferentes processos de fabricação, segundo o Programa Internacional sobre Eliminação do Trabalho Infantil, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e o Departamento do Trabalho de Punjab, disse Mirza, que trabalha há 15 anos pelos direitos dos trabalhadores no comércio do futebol. Preocupados, governo e empresários uniram-se com trabalhadores e organizações civis para tentar eliminar o trabalho infantil. A OIT assinou, em 1997, um acordo com a Câmara de Comércio e Indústria de Sialkot e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para centralizar os trabalhadores e impedir o emprego de menores.
“A contratação de empregados que trabalham em casa impediu o controle do assunto e, em 1998, com ajuda dos empresários do setor, o governo abriu centros de costura para eliminar esse tipo de trabalho”, recordou Jwaja Zakauddin, ex-presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Sialkot e diretor-executivo da Capital Goods Industry. Aproximadamente 130 grandes companhias aderiram ao programa. O trabalho infantil caiu de forma significativa, mas ainda existe a contratação do trabalho em domicílio, segundo o Fórum Internacional de Direitos Trabalhistas (ILRF), com sede em Washington.
Os trabalhadores recebem entre US$ 1 e US$ 2 por bola costurada, segundo informe divulgado pelo ILRF antes da Copa Mundial da África do Sul. O preço de venda ao público de cada bola é de US$ 100, ou mais. Dos 218 trabalhadores ouvidos pelo ILRF em sete cadeias de fornecimento, 70% eram temporários e “quase todos recebiam abaixo do salário mínimo”. Além disso, há discriminação de gênero. As mulheres que trabalham em suas casas têm pior salário, segundo o estudo.
Josephine Francis tem 40 anos e cinco filhos. Há dez anos trabalha em casa costurando bolas, mas nunca assinou um contrato, não sabe quem a emprega, onde são vendidas nem a que preço. “Só sei que me pagam US$ 0,40 por bola costurada, mas me disseram que são vendidas entre US$ 3,5 e US$ 7”, disse à IPS por telefone, de Sialkot. “Até alguns meses atrás, me pagavam US$ 0,29, valor que se manteve durante anos”, acrescentou. Francis costura quatro bolas por dia quando termina suas tarefas domésticas.
A situação de Taslim Bibi não é diferente, mas recebe apenas US$ 0,35 por bola. “A tarifa varia”, disse. Porém, não se atreve a pedir nada ao intermediário porque “se nos queixamos muito, vai procurar outras costureiras. Há muitas pessoas que trabalham por menos”, acrescentou.
Nem todos concordam com o estudo do ILRF. Os 450 trabalhadores da Awan Sporting Goods Industry recebem salário mínimo, cerca de US$ 70 por mês, além de hora extra e benefícios como assistência social, ajuda para a aposentadoria e saúde, disse Ghazanfar Ali Awan, diretor da empresa. O trabalho infantil existe apenas em pequenas fábricas ilegais que nem mesmo a OIT poderia erradicar, afirmou. “Será implementado um rigoroso sistema de auditoria para garantir que os salários sejam justos e os direitos dos trabalhadores respeitados”, disse Mirza.
Além de eliminar o trabalho infantil e de regularizar a situação dos temporários, a indústria futebolística do Paquistão deve se atualizar com nova tecnologia para estar na próxima Copa do Mundo, em 2014, no Brasil. Será aberto um Centro de Desenvolvimento da Indústria Desportiva, com fundos do governo, informou Jawja. “Quando estiver funcionando em 2011, poderemos fabricar mais de três mil bolas em oito horas, de futebol, vôlei e basquete”, acrescentou. IPS/Envolverde


