Londres, 09/07/2010 – Aproveitando os estragos causados pela crise europeia, a China busca se garantir como potência mediante o acúmulo de investimentos, especialmente nos países mais afetados, afirmam vários analistas. Organizações de especialistas em Washington e analistas de Taipei alertam que as compras chinesas estão desenhadas para explorar a crise econômica e colocar a economia da China em uma posição que lhe garanta um domínio mundial no futuro.
“A China está evoluindo para uma potência neocolonial”, segundo uma coluna de opinião no jornal Taipei Times. “Com suas lembranças históricas de como foi praticamente desmembrada pelas potências coloniais ocidentais, agora a China pode não resistir a ser prepotente com os mesmos países europeus”, acrescentou. Alguns em Washington viram a recente incursão chinesa na Grécia como parte de um jogo mais amplo de Pequim para garantir sua posição em um continente açoitado pela recessão e para expandir sua influência mundial.
Pequim avalia oportunidades de negócios com vários outros países europeus, como Romênia e Bulgária, onde a crise da dívida asfixiou os investimentos, e com Irlanda, onde os políticos lidam com uma grande carga financeira. O governo chinês também incentiva as empresas do país a “saírem” e investirem no mundo. De todo modo, também há especialistas com dúvidas sobre isto equivaler a uma estratégia nacional coerente para obter o domínio mundial.
“É provável que, em lugar de implementar uma grande estratégia, vejamos as empresas chinesas explorar oportunidades onde encontrarem, sempre e quando os lucros superarem os riscos”, disse Duncan Freeman, pesquisador do Instituto de Estudos Contemporâneos Chineses de Bruxelas. Até agora, os investimentos da China nas regiões menos adiantadas da Europa têm sido insignificantes. Embora existisse um grande plano-mestre, seria esperado que as empresas chinesas utilizassem estes países como ponto de entrada na Europa, o que não ocorreu realmente, disse Freeman. “Isto pode mudar, se enxergarem oportunidades”, acrescentou.
Desde o começo do colapso econômico mundial, em Pequim houve quem insistisse que a crise é a oportunidade “do século” para a China reverter o domínio ocidental, e voltar a erguer-se como o ator global que era antes da decadência de seu poder imperial. O economista He Xuelin, conhecido como “o estrategista-mestre da China”, enviou uma carta ao primeiro-ministro, Wen Jiabao, e à direção do Partido Comunista, insistindo que Pequim deveria perseguir ativamente as aquisições em diferentes partes do mundo para aumentar sua influência.
A carta foi ampliada e publicada sob a forma de um livro, intitulado “A enorme oportunidade de negócios”, no qual afirma que a China deveria adotar a estratégia de “comprar no fundo” e aventurar-se em mercados antes fora de seu alcance. “As fusões e aquisições são a única maneira de evitar o perigo de nossas reservas de divisas sofrerem depreciação”, diz He no livro. “Devemos mudar nosso efetivo acumulado por ações mundiais valiosas e marcas globais importantes. Com ousadia e valentia ganharemos esta guerra mundial. A China surgirá como a nova superpotência”, acrescenta.
Porém, outros analistas pedem urgente cautela diante da crise, alertando que a China está afetada por problemas internos e não deveria colocar em perigo seu crescimento econômico com investimentos e estratégias de risco no exterior.
No livro “Geoestratégia”, o analista Ding Li afirma que a China deveria continuar com sua estratégia de longo prazo de expansão cautelosa, conhecida como “cruzar o rio tocando as pedras”. “Não creio que se possa falar de nenhuma estratégia da China claramente definida”, disse. “A China ainda não tem claro seu próprio lugar no mundo e o que deseja exatamente. Deveríamos ter cuidado para não sermos enganados pelos que insistem em uma expansão agressiva de nosso poder nacional. Atualmente, o poder dos Estados Unidos está em queda e o da China no auge, mas, quem sabe o que acontecerá em seguida?”, acrescenta.
O mesmo admitiu Wen Jiabao esta semana, quando disse que a saúde econômica do país ainda está em risco devido a um contexto mundial “complicado”. A “gravidade da crise financeira internacional e as dificuldades da recuperação econômica superam as expectativas da população”, disse Wen em um informe publicado, no dia 4, no site do governo central. “Precisamos resolver alguns problemas existentes e urgentes”, acrescentou sem maiores detalhes.
Graças a generosos empréstimos de bancos estatais e a um enorme pacote de estímulos do governo, a China saiu relativamente ilesa da crise mundial, embora continue sendo vulnerável aos reveses do comércio mundial com as exportações. Além disso, possui enorme dívida interna, acumulada pelos governos locais e suas empresas de investimentos. Inadvertidamente, ou não, a crise causou um aumento dos acordos de investimentos com outros países, bem como aquisições por parte de companhias chinesas. Nos últimos três anos, a China se converteu no segundo mercado asiático para as fusões e compras de empresas, depois do Japão.
A China também divulga seus planos de duplicar o volume de seu comércio exterior nos próximos dez anos. O Ministério de Comércio encomendou uma pesquisa sobre as “Estratégias para estimular o comércio externo da China após a crise”, que espera para ser avaliada pelo gabinete chinês, segundo um informe publicado no dia 2 no jornal 21st Century Business Herald.
Para conseguir seu objetivo de duplicar o comércio exterior, Pequim incentivou os investimentos em infraestrutura e outras obras no estrangeiro para facilitar as exportações de seus produtos para mais mercados. Na Grécia, por exemplo, após assumir o controle de um dos embarcadouros do porto de El Pireo, próximo de Atenas, Pequim pretende criar um centro de logística na vizinha localidade de Attica, para distribuir mercadorias chinesas nos Bálcãs e no resto do continente. IPS/Envolverde

