Nova York, Estados Unidos, 14/07/2010 – Divididos em vários grupos e munidos de cadernos, 80 jovens percorrem os bairros de Nova York para pesquisar os produtos que inundam mercados e lojas. Estudantes como Vivienne Cain, que participa do projeto Nutrição e Vida Saudável da Harlem Children Society (HCS – Sociedade de Crianças do Harlem), analisam custo, aspecto e tamanho de frutas e verduras, bem como sua disponibilidade. O objetivo é estabelecer uma relação destas informações com a demografia e o status socioeconômico dos moradores da área, bem como com enfermidades relacionadas à má alimentação.
Os adolescentes descobriram que o bairro com produtos de pior qualidade é Washington Heights, em Manhattan, onde vive uma grande comunidade de imigrantes latino-americanos, geralmente com pouca educação formal. Unindo sua paixão pela Sociologia e a Antropologia, Vivienne espera que os estudantes possam aplicar o que coletaram no exame de áreas específicas, onde a obesidade atinge um grande número de pessoas. Dados atuais indicam que um em cada três cidadãos norte-americanos é obeso. “Tomara que possamos criar consciência sobre a obesidade onde faltam valores nutricionais”, disse Vivienne à IPS.
Por outro lado, na Tanzânia um projeto semelhante ao do HCS faz com que as estudantes de Dar esl Salaam aprendam a cultivar fungos comestíveis em suas aldeias, considerando que estes podem ajudar a estimular a economia local. Outros estudantes participam de assuntos sociais que afetam diretamente suas comunidades, como HIV/aids, alcoolismo e agricultura.
Estas crianças, que procedem de lares de contextos críticos e escolas secundárias pobres, agora estão em vantagem, ao se envolverem em projetos de pesquisa dirigidos por cientistas, engenheiros e matemáticos de renome em todo o mundo. A maioria dos beneficiários dos programas, que incluem bolsas de estudo nos Estados Unidos, é de negros (40%) e de origem latino-americana (26%), mas também há iniciativas das quais participam indígenas norte-americanos (16%).
A HCS é um programa sem fins lucrativos que busca estimular o talento dos aspirantes a cientistas, dando aos estudantes a oportunidade única de ganhar experiência prática. Este campo de capacitação para futuros Einsteins e Marie Curies deve seu humilde início a Sat Bhattacharya, um geneticista molecular e pesquisador de câncer que teve uma visão simples, mas inovadora, e começou apadrinhando três estudantes.
O projeto-piloto foi desenvolvido em Nova York e se multiplicou até incluir mais de 750 estudantes. Agora o programa funciona em 12 países e inclui os cinco continentes. De seus estudantes, 350 são de países como México, Honduras, Etiópia, Índia e Malásia. “Inicialmente, pensei em chegar à população do bairro, em particular à de menos recursos”, informou o pesquisador à IPS. “Mas o conceito cresceu e agora é uma enorme organização”, acrescentou.
Shaveene, um de seus primeiros alunos, atualmente estuda Enfermagem na Universidade de Columbia. E continua sonhando grande: pretende criar um contexto universitário que atue como sistema de apoio para os estudantes do HCS que entram nessa fase educacional. “Há um alto abandono dos estudos, especialmente entre os latino-americanos, negros e indígenas, que chega a 60% nos primeiros três anos”, disse Shaveene à IPS. Sat Bhattacharya imagina um espaço onde os estudantes possam continuar tendo acesso a práticas de pesquisa, e espera estender o alcance do programa a outros membros da comunidade e aos seus pais.
A mensagem se espalhou pelos corredores escolares de Manhattana, Bronx, Queens e Brooklyn, onde os professores ou nomearam ou recomendaram estudantes que demonstravam inclinações científicas. Elena Feldman, do terceiro ano secundário, traz em seu gene a curiosidade pela ciência. Soube do programa por seu irmão mais velho. Esta iniciativa a ajudou a ficar mais perto de atender sua ambição: estudar Engenharia Mecânica no Massachusetts Instittue of Technology (MIT).
Ficar lado a lado com famosos cientistas foi uma grande experiência para Elena. Ela e seu companheiro apresentaram seu projeto e ganharam um prêmio na Sigma Xi, uma sociedade dedicada à pesquisa que se reúne anualmente para discutir novos avanços em matéria de ciência e tecnologia. O biólogo molecular Sidney Altman, prêmio Nobel de Química 1989 que estudou o ácido ribonucleico (ARN), falou na semana passada com os estudantes em uma cerimônia de celebração do programa. “Nunca abandonem o hábito de fazer perguntas. Não há perguntas tolas”, ressaltou.
O HCS busca aplicar uma perspectiva comunitária. Rani Roy, coordenador do projeto sobre Nutrição, explicou à IPS que “a conscientização e a educação nutricional deveriam afetar primeiro suas famílias imediatas, e depois as comunidades que participam das feiras de ciências”.
Em cada mês de setembro, as ruas do Harlem se enchem dos projetos da feira e do festival de ciências, onde as famílias e os membros da comunidade podem se comprometer com as obras dos estudantes. “Chegam inclusive professores universitários, que podem se interessar por seu trabalho”, detalhou Elena. Para que o programa seja sustentável, Sat Bhattacharya enfatizou que “os alunos deveriam poder devolvê-lo à sua comunidade. E o mais gratificante é ver que já estão fazendo isso”. IPS/Envolverde

