ÁFRICA DO SUL: “Crianças morrem desnecessariamente”

CIDADE DO CABO, 17/08/2010 – Quando Thandi Khumalo* levou a filha de sete meses ao Hospital Infantil da Cruz Vermelha, na Cidade do Cabo, a ajuda chegou demasiado tarde. A bebé tinha apanhado diarreia aguda e Kwashiorkor, condição causada por uma grave deficiência proteica e calórica, vindo a falecer poucos dias depois de ter sido internada. Khumalo, que é seropositiva, tinha decidido não amamentar a filha, porque não tinha sido informada que a amamentação exclusiva reduz o risco de transmitir o vírus ao bebé. Khumalo está desempregada e não conseguira comprar leite para bebés para dar à filha.

Decidiu alimentar a filha principalmente com chá, que não proporcionou nutrição suficiente à bebé.

Infelizmente, o caso de Khumalo não é uma excepção. As crianças de tenra idade na África do Sul estão a carregar o fardo do fracasso do país em atingir parcialmente os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), em parte devido ao estado do sistema de saúde pública na África do Sul.

Na África do Sul, o VIH e as infecções infantis (tais como a diarreia e as infecções respiratórias) são as principais causas de morte das crianças com menos de cinco anos, de acordo com o Instrumento de Medição da Criança Sul Africana de 2009/2010, uma análise anual sobre a situação das crianças no país, publicada no dia 27 de Julho pelo Instituto das Crianças (IC) na Universidade da Cidade do Cabo (UCT).

O relatório mostra que a África do Sul tem sido incapaz de reduzir a mortalidade infantil desde 1990. Isto quer dizer que o país não vai conseguir atingir o Objectivo de Desenvolvimento do Milénio 4, que visa reduzir a mortalidade infantil em dois terços até 2012.

O relatório explica que, em relação aos outros Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, como a redução da fome das crianças, do VIH e da tuberculose, a África do Sul não está a fazer qualquer progresso, embora tenha havido algumas melhorias lentas em termos de acesso a saneamento básico, educação e igualdade do género.

“Em última análise, o facto é que actualmente as crianças estão a morrer sem necessidade na África do Sul,” avisou o Professor Haroon Saloojee, director da divisão de pediatria comunitária na Universidade de Witwatersrand em Joanesburgo, e um dos autores do relatório Instrumento de Medição da Criança.

Uma saúde infantil deficiente causa um círculo vicioso de pobreza e morte, que terá um efeito duradouro em futuras gerações de sul africanos. Por exemplo, a subnutrição provoca um desenvolvimento cognitivo deficiente, o que significa que provavelmente as crianças afectadas terão menos oportunidades de trabalho quando se tornarem adultas e, consequentemente, uma menor possibilidade de serem bem sucedidas economicamente e um risco mais elevado de cairem na pobreza.

“Se não lidarmos com a saúde infantil hoje, estamos a encurralar as crianças num ciclo de saúde deficiente e pobreza. É muito importante quebrar este ciclo cedo,” avisou a editora do Instituto das Crianças, Lori Lake.

Ela explicou que os indicadores do relatório do Instrumento de Medição da Criança causavam “extrema preocupação”, visto que mostravam que as crianças estavam a arcar com o pesado fardo do fracasso da África do Sul em atingir os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.

Apesar de tudo isto, a saúde infantil não é considerada uma prioridade na África do Sul.

“Apelamos a uma acção concertada dos diversos departamentos de estado, liderados pelo departamento de saúde, a fim de melhorar a saúde infantil no país com urgência,” disse Lake, que atribui a falta de progresso à “crise prolongada e contínua” do sistema de saúde pública na África do Sul.

Os especialistas de saúde acreditam que a África do Sul só alcançará um verdadeiro progresso no campo da saúde infantil se houver vontade política para tal.

O Ministro da Saúde, Dr Aaron Motsoaledi, admitiu que “é necessário haver um empenho renovado em cuidar das crianças” se a África do Sul quiser reduzir a mortalidade infantil, e apelou também às “comunidades e prestadores de cuidados de saúde, investigadores e decisores políticos que coloquem as crianças em primeiro lugar.”

Os especialistas de saúde dizem que não é apenas uma questão de afectação de mais recursos para a saúde infantil. É também crucial gerir melhor os orçamentos de saúde disponíveis.

* Não é o seu verdadeiro nome.

Kristin Palitza

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