“O feminismo não morde”

Havana, Cuba, 19/08/2010 – Com pouco mais de um século de existência, o feminismo perdura na América Latina e no mundo, mas sua vida, como ideologia reivindicadora das mulheres, simula um efeito de ondas encrespadas, com pontos elevados e vertiginosas quedas.

“O feminismo não morde”

Tem momentos em que se perde a memória histórica do feminismo, disse Marcela Lagarde. - Dalia Acosta/IPS

Essa é a definição da antropóloga e feminista mexicana Marcela Lagarde, “crítica persistente da modernidade”, que no começo do Século 21 vive um momento incomum pela diversidade de gerações de seus militantes, e sua extensão, pelos estudos de gênero, a outros espaços sociais, acadêmicos e de produção científica.

“O feminismo não morde”, ressalta Marcela, professora da Universidade Nacional Autônoma do México e uma das promotoras da Lei Geral de Acesso das Mulheres à Vida Livre de Violência, vigente desde 2 de fevereiro de 2007, e da introdução do delito de feminicídio no Código Penal. Marcela, presidente da Rede de Pesquisadoras pela Vida e a Liberdade das Mulheres, conversou com a IPS durante uma visita a Cuba.

IPS: Quais as causas da permanência dos preconceitos com o feminismo, inclusive entre os próprios movimentos de mulheres ou em países como Cuba, que promovem políticas a favor da população feminina?

MARCELA LAGARDE: Não houve uma continuidade na transmissão do papel do feminismo na cultura moderna. Parece que houve etapas nas quais se perde a memória histórica e depois é preciso recuperá-la. Como o feminismo é uma crítica à sociedade patriarcal, foi visto como perigoso pelos que concordam ou assumem como inevitável a sociedade, a cultura e o poder patriarcais. O feminismo faz a crítica do patriarcado como uma construção metapolítica que atravessa sociedades e épocas, e propõe alternativas concretas. O poder patriarcal é um poder monopolizado pelos homens. Existem também outros valores e alternativas que podem ser vistos como perigosos, que mordem, porque estão destinados a eliminar a dominação de gênero. Os que não concordam fazem o que sempre se faz na luta política: idealizam o inimigo, neste caso, mulheres e feministas. A elas dão atributos e características perigosas e muita falsidade. Porém, antes, tem uma cultura bastante misógina, sexista, machista. A essa misoginia social soma-se a misoginia política, que é o antifeminismo.

IPS: Como define o antifeminismo? Quanto se estendeu?

ML: É a deslegitimização do que o feminismo proporcionou à humanidade. Agora é transmitida em mulheres e homens, porque nas sociedades patriarcais as mulheres são educadas e socializadas para funcionar patriarcalmente. Algumas são feministas, e isso implica um conhecimento distinto para criticar nossa própria cultura, identidade e condição de gênero, que tem um enorme estigma patriarcal. Toda essa ignorância generalizada contribui para o antifeminismo. Partindo do poder dominante, constantemente há uma política antifeminista estendida e extensiva. Repetimos preconceitos com os quais nunca corroboramos, mas os temos como parte de nossas ideologias e cultura em que vivemos. O humor está carregado de misoginia e de misoginia política, com as comparações permanentes, que as pessoas repetem, e é parte da cultura de massas. Tampouco temos a força cultural para nos contrapormos a cada passo com um discurso próprio.

IPS: O representa para as mulheres contemporâneas a invisibilidade do feminismo?

ML: Determinados grupos de mulheres vão nascendo ou se desenvolvendo com avanços já obtidos pelo feminismo desde o Século 18, mas não os ponderam nem valorizam porque já os têm: educação, acesso ao mundo do trabalho, emprego, ingresso ou participação política. Tivemos que aprender, sobre o feminismo, pesquisando por nossa conta para saber o que ocorreu, porque não o ensinavam na escola nem nas universidades. Não se transmite de uma geração a outra, como os conhecimentos de engenharia ou ciência da física. Este esquema muito androcêntrico provoca uma ignorância enorme por parte de mulheres e homens sobre o feminismo e sua contribuição para a modernidade. Agora, já estamos conseguindo que este saber seja incorporado nas universidades, mas ainda não está na educação primária, nem na secundária. Em muitos países, só em pós-graduação são oferecidos materiais, seminários, cátedras de gênero e feminismo.

IPS: E na prática? Poderíamos falar do feminismo como uma mudança de vida e aliança entre mulheres?

ML: Ajuda a vencer a misoginia contra as outras mulheres, favorece a aproximação e o intercâmbio de ideias, sobre o que cada uma avançou em sua própria vida. As feministas aprendem muito sobre outras mulheres por nosso método de trabalho. Além do acadêmico, temos muitos espaços de encontros íntimos entre mulheres, onde aprendemos umas sobre as outras e nos apoiamos. Todo esse apoio formidável nos dá poder porque desenvolve uma fortaleza interior e depois social muito importante: uma fortaleza de afirmação de gênero que te autoriza e valoriza como mulher em um mundo que nos ataca o tempo todo. Envolverde/IPS

Dalia Acosta

Dalia Acosta ha sido corresponsal de IPS en Cuba por muchos años. Se graduó en 1987 de la licenciatura en periodismo internacional en el Instituto Estatal de Relaciones Internacionales de Moscú. Trabajó un año en el diario cubano Granma y otros seis en Juventud Rebelde, donde incursionó en el periodismo de investigación sobre mujer, minorías, sida y derechos sexuales. En 1990 recibió el Premio de Periodismo Tina Modotti, y en 1992 el Premio Nacional de Periodismo por un reportaje sobre la comunidad rockera de su país. Empezó a colaborar con IPS en 1990 como parte de un proyecto de comunicación con el Fondo de Población de las Naciones Unidas (UNFPA). Desde 1995 se desempeña como corresponsal en La Habana, y entre 1991 y 2010 trabajó también para el Servicio de Noticias de la Mujer de Latinoamérica y el Caribe (SEMLac).

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