LILONGWE, 30/09/2010 – Em Ntcheu, um distrito rural no centro do Malawi, os aldeões empenharam-se pessoalmente na luta contra a elevada taxa de mortalidade materna no país. Quase que conseguiram eliminar as mortes maternas na zona depois de apelarem às mulheres grávidas que dessem à luz nos hospitais, sob supervisão médica. O Chefe Kwataine, cuja autoridade tradicional abarca 89 aldeias em Ntcheu, lançou uma campanha de saúde materna que, numa fase inicial, abordou as populares crenças culturais associadas à gravidez como, por exemplo, o facto de o primeiro filho de uma mulher dever nascer em casa ou de os homens da família decidirem quando é que as mulheres precisam de cuidados médicos. Kwataine também proibiu todos as parteiras tradicionais nas suas aldeias, obrigando as mulheres a darem à luz nos hospitais.
Estas medidas são acompanhadas de uma campanha generalizada de educação de saúde materna. Em cada uma das 89 aldeias, entre dois e cinco conselheiros especializados em saúde materna registam todos os nascimentos e informam as mães sobre as melhores práticas de saúde materna. Mensagens alegres pintadas nas paredes das casas dos aldeões constituem uma forma conspícua de chamar a atenção para importantes mensagens de saúde.
“Também monitorizamos as visitas aos hospitais. Cada vez que vão fazer um exame pré-natal, trazem os seus passaportes médicos para que possamos registar o que foi feito no hospital,” explica Pilirano Nkhoma, um dos conselheiros de saúde materna.
Os resultados têm sido palpáveis. Entre 2000 e 2005, antes do chefe ter começado a iniciativa de saúde materna, a zona registou 52 mortes maternas. Mas nem uma única mulher nas 89 aldeias sob a autoridade do Chefe Kwataine morreu durante o parto nos últimos três anos.
Esta situação não tem precedentes no Malawi, onde morrem 510 mulheres por 100.000 nados-vivos, de acordo com o Fundo das Nações Para a População (UNFPA). Apesar deste número ter decrescido das 807 mortes por 100.000 nados-vivos em 2006, o Malawi não vai atingir o 5° Objectivo do Desenvolvimento do Milénio (ODM) de melhorar a saúde materna.
Para concretizar o 5° Objectivo de Desenvolvimento do Milénio, o país teria de reduzir este número para 155 mortes maternas por 100.000 nados-vivos até 2015, o que o governo do país admite será impossível de alcançar.
No entanto, a iniciativa de saúde materna de Kwataine enfrenta uma série de obstáculos, uma vez que as medidas só podem ser bem sucedidas a longo termo se forem acompanhadas por recursos humanos e financeiros suficientes no sector da saúde pública. O hospital mais perto da zona sob a autoridade tradicional de Kwataine, por exemplo, agora recebe quase duas vezes mais mulheres grávidas que a sala de partos tem capacidade de aceitar e sente dificuldade em prestar assistência a todas as mulheres que dela precisam.
“Sob todos os pontos de vista, a campanha na zona de Kwataine é uma abordagem brilhante. Mas estamos quase a vergar aqui agora porque não temos os recursos necessários,” disse à IPS um funcionário de saúde que preferiu ficar anónimo.
Falta de capacidade
Os especialistas receiam que as conquistas obtidas na redução da mortalidade materna possam ser invertidas devido à falta de pessoal médico especializado e de capacidade hospitalar.
O departamento nacional de saúde não tem conseguido resolver o problema. Em 2005, prometeu recrutar mais parteiras e melhorar as instalações de saúde, com o objectivo de promover a saúde materna mas, cinco anos mais tarde, o pessoal médico especializado ainda é muito reduzido e as instalações de saúde estão insuficientemente apetrechadas.
A Rede Para a Igualdade na Saúde do Malawi (MHEN), uma aliança independente de organizações e particulares sediada em Lilongwe que promove a igualdade e a qualidade da saúde, critica especificamentge o governo na área da distribuição orçamental. Um relatório seu que analisa o orçamento nacional de saúde indica que, nos últimos quatro anos, o departamento de saúde atribuíu entre 50 a 60 por cento do seu orçamento anual a actividades levadas a cabo nos escritórios centrais do ministério da saúde em vez de usar estes fundos para modernizar as instalações de saúde em todo o país.
“Trata-se de dinheiro gasto em despesas de representação e veículos de tracção às quatro rodas que andam a alta velocidade pelas ruas da capital, enquanto que 80 por cento dos cidadãos no Malawi vivem em zonas rurais onde os problemas de saúde estão sempre presentes de forma intensa,” queixa-se a directora executiva da MHEN, Martha Kwataine.
Mostrar iniciativa
Estando ciente das discutíveis prioridades no que diz respeito aos gastos do departamento nacional de saúde, o chefe Kwataine e a sua comunidade decidiram não esperar que o governo proporcionasse todos os serviços.
O chefe acredita que a população do Malawi, apesar de ser maioritariamente pobre, tem o poder de encontrar as suas próprias soluções para os problemas da saúde materna. Acompanhando a iniciativa impulsionada pela comunidade em prol de uma maternidade segura, conseguiu mobilizar a comunidade a doar o dinheiro para construir a sua própria clínica, que irá oferecer serviços básicos e urgentes de obstetrícia.
“Acreditamos que a clínica irá reduzir a pressão sobre o hospital principal, permitindo que um maior número de mulheres tenha acesso a melhores serviços no hospital e garantindo também uma atenção mais célere aqui,” explicou o chefe.
Kwataine também espera que o governo se aperceba do êxito que obteve nas suas aldeias e que disponibilize os fundos necessários para que outras comunidades reproduzam a mesma abordagem. “Se as comunidades em todo o país se empenharem em implementar programas desta natureza, e se o governo apoiar essas iniciativas, o Malawi terá uma história mais positiva para contar em 2015.”

