Costumes freiam campanha para proteger tubarões

Pequim, China, 08/09/2010 – Celebridades da China, como o astro do basquete Yao Ming e o ator Jackie Chan, participam há anos de campanhas contra o consumo de sopa de barbatana de tubarão.

O comércio de barbatana de tubarão é uma indústria lucrativa em grande parte da Ásia. - WildAid

O comércio de barbatana de tubarão é uma indústria lucrativa em grande parte da Ásia. - WildAid

Entretanto, mudar esse costume alimentar de séculos, continua sendo um desafio. Para muitos chineses, consumir este prato, que data da dinastia Ming (1368-1644), em geral oferecido em casamentos e banquetes, é um sinal de riqueza e prestígio. Alguns também acreditam que a barbatana de tubarão tem valor medicinal, apesar da falta de evidências científicas a respeito. Conforme cresceu a economia chinesa, também aumentou a demanda por essa sopa.

A população de tubarões no mundo diminuiu cerca de 90% nas últimas três décadas. A cada ano, são pescados cerca de cem milhões desses animais, dos quais 73 milhões para retirar as barbatanas. A carne do tubarão tem pouco valor. Os pescadores, geralmente, cortam as barbatanas e devolvem o animal ao mar para que morra sangrando ou asfixiado, pois precisam nadar para poder respirar pelas guelras.

Entre 50% e 80% de todas as barbatanas de tubarão, ou seja, cerca de dez mil toneladas, passam pelos portos de Hong Kong, e a maior parte vai para a China continental, e, em menor grau, para Malásia, Taiwan, Indonésia e Tailândia. As barbatanas são obtidas em diferentes partes do mundo, como a costa das Américas Central e do Sul, Europa, Estados Unidos, Indonésia e Taiwan.

Nos últimos anos, cresceram as campanhas de alto perfil na China contra o consumo de sopa de barbatana de tubarão. Ativistas alertam que supõe um desperdício e pode ser prejudicial para os humanos, já que alguns pesquisadores encontraram altos níveis de arsênico, metilmercúrio e outras substâncias nocivas nas barbatanas. Em 2004, a organização WildAid, que luta contra o tráfico de fauna e flora, abriu um escritório em Pequim que tenta, por meio de anúncios e relações públicas, promover a proteção dos tubarões.

A principal campanha conta com a colaboração do jogador de basquete Yao Ming, nascido em Xangai e que agora joga nos Estados Unidos. As mensagens são transmitidas pela estatal Televisão Central da China, e também foram colocados outdoors nas principais cidades do país. “Quando a compra acabar, também acabará a matança”, diz Yao em uma das mensagens.

A campanha da WildAid teve grande sucesso. Segundo uma pesquisa encomendada pela organização às vésperas dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, 55% dos entrevistados viram a campanha. Desses, 94% disseram que foram impactados, 83% pararam ou diminuíram o consumo da sopa e 89% afirmaram que sua venda deveria ser proibida.

“Estes números mostram que estamos conseguindo causar impacto. Mas ainda há um longo caminho pela frente”, disse à IPS o presidente da WildAid, Steve Trent. “Não posso dizer que estamos salvando os tubarões, mas afirmo que a China está cada vez mais consciente e entende os problemas, e estamos dispostos a agir”, acrescentou. Como sinal de mudança, o site chinês Alibaba, de compra e venda via Internet, recentemente proibiu a oferta de barbatanas de tubarão em seu portal.

Em maio, uma dezena de restaurantes e hoteis de Hong Kong prometeram eliminar a sopa de barbatana de tubarão de seus cardápios. Um dos poucos casos positivos foi o de um restaurante na cidade de Guangzhou, que gastou US$ 3 mil na compra de um tubarão lixa de 200 quilos e depois colocou anúncio em um jornal local para atrair clientes.

A organização ambientalista Green Eyes enviou alguns de seus membros para se passarem por interessados e descobriu que mais de 70 pessoas já haviam feito reservas para provar o tubarão. O grupo iniciou protestos diante do restaurante pedindo para salvar o animal, o que chamou a atenção da mídia e, finalmente, os proprietários decidiram entregar o animal vivo às autoridades, que encontraram um lar para ele no Parque Oceânico da província.

Apesar da crescente consciência pública, mudar os costumes continua sendo extremamente difícil. Segundo estudo da WildAid e da Associação Chinesa para a Conservação da Vida Silvestre, mais de um terço dos entrevistados em 16 cidades chinesas consumiram a polêmica sopa, enquanto 75% disseram não saber que esse prato é preparado com barbatana de tubarão.

O comércio da barbatana também é uma indústria lucrativa. Quando Yao Ming disse, em 2006, “Prometo deixar de comer sopa de barbatana de tubarão e não o farei sob nenhuma circunstância”, companhias de Hong Kong, China, Japão e Cingapura assinaram uma carta conjunta de protesto, afirmando que a campanha afetava seus negócios. Envolverde/IPS

Mitch Moxley

Mitch Moxley is a freelance journalist based in Beijing writing for the Atlantic, The Wall Street Journal, The Globe and Mail and others. He writes widely about culture, travel and current affairs from across Asia and is currently writing a book about his China adventures.

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