ERONGARÍCUARO, México, 07/09/2010 – (Tierramérica).- Uma rede mundial de pequenas fazendas promove a agricultura orgânica e sustentável e os hábitos responsáveis de consumo, atraindo um novo tipo de turismo.
“A experiência superou minhas expectativas, porque nunca estive antes em uma fazenda ecológica. Aprendi a fazer pão, cozinhar e montar caixas para as abelhas”, contou ao Terramérica este rapaz de 25 anos, estudante de planejamento territorial na Universidade Autônoma Metropolitana. “Las Canoas Altas”, propriedade de 2,5 hectares do belga Vincent Geerts, faz parte do capítulo mexicano de Oportunidades Globais em Fazendas Orgânicas (WWOOF), uma iniciativa em forma de rede que nasceu na Grã-Bretanha em 1971 com outro nome, Working Weekends Organic Farms (Fins de Semana de Trabalho em Fazendas Orgânicas).
A criadora foi Sue Coppard, uma secretária que amava sua vida em Londres, mas sentia falta de sua infância no campo. Ocorreu-lhe que se se apresentasse para trabalhar de graça um fim de semana em uma fazenda a deixariam ficar. Em sua primeira tentativa já tinha 15 companheiros de aventura. “A rede é um bom mecanismo. O fator primordial é a convivência, além do aprendizado agrícola”, assegurou Vincent, um apaixonado pela agricultura orgânica que chegou ao México em 1979 e aderiu à WWOOF em 2005.
Em sua propriedade, comprada há dez anos e localizada neste município de 12 mil habitantes, Vincent cultiva hortaliças, plantas medicinais e grãos, cria éguas, galinhas e patos, e produz mel. A rede WWOOF está presente em 99 países. Entre eles Brasil, Belize, Guatemala, Costa Rica, Equador, Chile e Argentina, além do México, onde surgiu em 2004 por iniciativa do psicólogo e administrador de empresas Arturo Farias. Hoje, cerca de 50 fazendas estão inscritas no programa. E anualmente aderem aproximadamente 500 pessoas.
Arturo partiu de sua experiência na indústria do ecoturismo para impulsionar este voluntariado ecológico, e desenvolveu por cinco anos um projeto de agricultura sustentável na cidade de Valle de Bravo, no Estado do México. “As pessoas não podem evitar o contato com a natureza. Têm de conviver com ela”, disse ao Terramérica. O “wwoofing” mistura turismo rural e trabalho voluntário. No México, o candidato a “wwoofer” paga uma cota anual de US$ 20 para se inscrever, entra em contato com alguma das fazendas registradas, e após a aceitação, esta fornece alimentação, alojamento e instruções para o trabalho em jornadas de segunda a sábado.
Todo o sistema é uma forma de aproximar as pessoas de um modelo de desenvolvimento sustentável nas áreas rurais. Vincent e Arturo seguiram caminhos semelhantes, pois ambos atraíam voluntários antes de integrarem a WWOOF. Este tipo de experiência no México desperta interesse em viajantes europeus, do Canadá, dos Estados Unidos e, ultimamente, entre os próprios mexicanos, como Alan. Em julho, Vincent recebeu visitantes deste país, da Argentina e das Filipinas. O único requisito que pede é que falem espanhol básico, para facilitar a comunicação. “Quando os voluntários vão embora levam algo valioso”, afirmou.
Seu projeto começou com a retirada de matos e pedras de um terreno baldio situado a poucos quilômetros de “La Aldeia del Bosque”, outra fazenda da WWOOF. Estes estabelecimentos podem ser autênticos laboratórios ambientais. Em “Las Canoas Altas”, Vincent aproveita a água da chuva e pretende instalar um aquecedor solar para água a fim de reduzir o consumo de gás. “Há um beneficio real, que é o intercâmbio de ideias. Para muitas fazendas o que falta é gente pró-ativa com conhecimentos”, ressaltou Arturo.
As idades dos voluntários variam de 18 a 35 anos, e em muitos casos não têm conhecimento sobre agricultura sustentável. É comum visitarem fazendas de vários países. “Repetiria a experiência e recomendo que se inscrevam no programa”, afirmou Alan, após passar o mês de agosto em “Las Canoas Altas”. Vincent possui um diário com testemunhos dos voluntários que passaram por Erongarícuaro.
As fazendas mexicanas mais ativas ficam no centro do país, nos arredores da capital, embora surjam iniciativas em Michoacán ou Oaxaca, no sul. Apesar de seu relativo êxito, o programa precisa melhorar o acompanhamento da estadia dos voluntários e a comunicação e o intercâmbio entre as fazendas associadas. A WWOOF tem vários milhares de estabelecimentos associados e cerca de cem mil voluntários. Contudo, a particular conjuntura mexicana de violência vinculada ao narcotráfico já começou a preocupar os estrangeiros que desejam passar pela experiência de viver e trabalhar em uma fazenda ecológica no país.
* O autor é correspondente da IPS.


