Banana contra a mortalidade materno-infantil

Kampala, Uganda, 08/10/2010 – A saúde materna e infantil poderia melhorar na África com uma banana enriquecida geneticamente, segundo conclusões iniciais de um estudo realizado por cientistas ugandenses e australianos. A desnutrição crônica e a deficiência de nutrientes como vitamina A e ferro são responsáveis pelos problemas de saúde que as crianças e mulheres de Uganda costumam sofrer, o que prejudica os esforços para reduzir a mortalidade nesses setores da população.

“Pegamos os genes de outras plantas que aumentam as vitaminas e colocamos na banana”, explicou o professor Wilberforce Tushemereirwe, responsável pelo Programa Nacional de Pesquisa sobre a Banana, da estatal Organização Nacional de Pesquisa Agrícola (Naro).

A ferritina, proteína que armazena o ferro, é inserida em células de banana para melhorar o acúmulo do elemento na polpa da fruta. Além disso, são inseridos genes de plantas ricas em vitamina A, como o milho amarelo e a espécie de banana não comestível, Asupina. A banana modificada geneticamente é cultivada em um terreno do Instituto de Pesquisa Agrícola Kawanda, ao norte da capital ugandense.

“Estamos prestes a provar que funciona o conceito de adicionar genes na banana para que expresse e produza vitamina A e acumule ferro É o que queremos demonstrar”, afirmou. “Se conseguirmos, a nova variedade concentrará quatro vezes mais vitamina A do que a atual”, insistiu Wilberforce. É a primeira vez que é cultivado um transgênico na África, mas serão necessários mais oito anos até a banana enriquecida poder ser plantada para fins comerciais, acrescentou.

A pesquisa, que já tem cinco anos, está a cargo da Naro e da australiana Universidade de Tecnologia de Queensland. “Nosso maior êxito é que os genes que colocamos na banana funcionam muito bem na Austrália. Agora, são avaliados em uma banana australiana, na qual quadruplicaram a quantidade de vitamina A. tentamos ver se podemos conseguir isso aqui. No momento é um êxito indireto”, destacou.

Em Uganda, 73% dos menores de cinco anos e 49% das mulheres em idade fértil sofrem de anemia. A deficiência de vitamina A afeta 20% dos dois setores da população, segundo a Pesquisa de Saúde Demográfica de 2006. A desnutrição afeta mais de dois milhões de menores de cinco anos neste país. Mais de 520 mil crianças morrerão por desnutrição entre 2006 e 2015 se for mantido o atual status quo, segundo as estimativas.

Cerca de 24% dos casos de mortalidade materna se associam à deficiência de ferro. As projeções indicam que morrerão 15 mil mulheres em idade reprodutiva entre 2006 e 2015 vítimas de anemia, segundo a Análise sobre a Situação Alimentar em Uganda, divulgada pela agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento internacional (Usaid) e a Food and Nutrition Technical Assistance.

“A vantagem da biodiversificação de cultivos é que está ao alcance das comunidades e que estas podem ser ensinadas a plantá-los. É muito mais barato porque as pessoas acreditam que os produtos enriquecidos vendidos no supermercado são mais caros”, disse à IPS a chefe de nutrição do Ministério da Saúde, Elizabeth Madraa.

“É uma ideia brilhante”, disse Sarah Muitta Magoola, nutricionista do Hospital Internacional de Kampala. “A falta de vitamina A é uma das principais carências nutritivas em Uganda, especialmente entre as mulheres em idade fértil e recém-nascidos”, acrescentou. “Não são necessárias bananas modificadas geneticamente por esse fato, mas para que possam servir para atender os problemas dos consumidores locais”, disse Wilberforce em alusão à controvérsia sobre a segurança dos transgênicos.

É importante sensibilizar a população sobre a banana transgênica bem como sobre a importância da vitamina A, disse Sarah. “Para comercializar o novo cultivo, os produtores devem saber por que plantar essa banana. As pessoas com carências nutricionais são as mais pobres”, acrescentou. Também é preciso difundir os perigos da falta de vitamina A e quais alimentos contêm esse nutriente. Wilberforce disse que sua organização tem um plano de comunicação para divulgar informação sobre a banana enriquecida entre os diferentes atores. Envolverde/IPS

Evelyn Matsamura Kiapi

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