Jerusalém, Israel, 08/10/2010 – A reclamação do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no sentido de os palestinos reconhecerem Israel, e inclusive aceitarem, como “Estado judeu”, fez ressurgir o debate sobre a identidade, em meio aos renovados esforços para construir uma paz duradoura no Oriente Médio. Tanto a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, como o enviado do presidente Barack Obama para essa região, senador George Mitchell, expressaram cauteloso otimismo sobre o reinício das negociações entre israelenses e palestinos. Já desde que declarou seu apoio, com reticências, à solução de dois Estados, Netanyahu condicionou qualquer acordo a que os palestinos não só reconheçam Israel (com na realidade já fizeram nos acordos de Oslo, de 1993) como também o aceitem como “Estado judeu”. Alguns veem esta reclamação como uma maneira de o primeiro-ministro evitar adaptar-se às demandas palestinas quanto aos refugiados terem “direito de regressar” ao que agora é o Estado de Israel.
Alguns dizem que seria preciso levar Netanyahu a sério. E isto porque, segundo a maioria dos judeus israelenses, se for permitido que centenas de milhares de palestinos voltem às suas casas originais, então Israel não continuará contando com uma esmagadora maioria de cidadãos judeus (80% dos israelenses), o que poria em risco a própria identidade de seu Estado.
Para Netanyahu, a identidade judia de Israel é tão crucial como a questão dos refugiados o é para os palestinos. Na essência, o líder israelense está transformando o tema do “Estado judeu” em outro ponto central na mesa de negociações, junto com os assuntos fundamentais das fronteiras e colônias, Jerusalém, a segurança e os refugiados. Por outro lado, estas propostas voltam a gerar profunda preocupação entre os árabes israelenses, que constituem 20% dos 7,6 milhões de habitantes de Israel.
Em tentativas anteriores de paz, os árabes israelenses foram vistos como uma ponte para a reconciliação com os palestinos. Agora, alguns os veem como uma futura carga. Assim, o novo enfoque de Netanyahu em relação à paz não só é crítico para o destino dos refugiados palestinos como também para o lugar que ocupa a minoria árabe dentro do “Estado judeu”.
Quem afirma isto claramente é o chanceler israelense, Avigdor Lieberman. Seu partido ultranacionalista Israel Beiteinu (integrante-chave do governo de Netanyahu) fez sua campanha sob o lema “sem lealdade não há cidadania”. Este conceito foi crucial em sua agenda política, reclamando que todos os israelenses (inclusive os árabes) jurassem lealdade ao Estado. Agora, Lieberman volta a insistir para que as negociações de paz abordem diretamente a questão da “lealdade” dos cidadãos árabes-israelenses.
“Com os palestinos se negando a reconhecer Israel como Estado judeu, as negociações devem reavaliar toda a questão dos direitos de cidadania da população árabe”, disse Lieberman. Os árabes israelenses que forem desleais deveriam levar a cidadania palestina, sugeriu. A reclamação de Netanyahu para que se reconheça seu país como unicamente judeu também disparou um acalorado debate entre os intelectuais israelenses, tanto judeus como árabes, sobre o que deveria encarnar o conceito de “israelense”.
O cientista político Shlomo Avineri, da Universidade Hebreia de Jerusalém, retratou um futuro quase apocalíptico para Israel. Em um artigo semelhante a uma parábola insistiu que Israel deve continuar preservando seu caráter e seus símbolos tradicionais judeus e resistir às demandas de alguns intelectuais árabes-israelenses para emendar a qualidade de judeu do Estado, criando em seu lugar uma única identidade nacional “israelense” que não seja judia nem árabe.
Avineri previu que, se os judeus israelenses concordarem, inevitavelmente Israel se converterá em uma segunda “Palestina”. De concreto, o cientista alerta que os árabes-israelenses estão abusando de seus direitos democráticos como cidadãos plenos ao tentarem negar à maioria o direito de autodeterminação como judeus. Para Avineri, se os israelenses judeus consentirem nisso, essencialmente estarão concordando em abandonar o principal motivo pelo qual foi criado o Estado: a autodeterminação do povo judeu em sua “pátria nacional”.
Dois conferencistas da Universidade de Haifa opõem-se de maneira veemente à tese de Avineri. Asad Ghanem e Ilan Saban afirmam que os argumentos de Avineri representam “um padrão de pensamento entre os israelenses que está levando Israel a colocar-se por si mesmo à beira de um abismo”.
“Para Avineri, a principal ameaça que Israel enfrenta não é em absoluto o crescimento das forças antidemocráticas em seu interior, nem o que Israel tem feito durante 43 anos de ocupação e colonização. Tampouco é a severa discriminação nem as políticas de exclusão do Estado contra seus cidadãos árabes. Não. A principal ameaça que ele vê é que os judeus israelenses se comprometam com direitos igualitários plenos para os cidadãos árabes”, escreveram com sarcasmo.
A dúvida de como confrontar as reclamações em conflito em matéria de filiação étnica, identidade nacional, igualdade, aceitação mútua e democracia acompanha Israel desde sua criação, em 1948. O que fica cada vez mais claro que é, mesmo tendo êxito, a paz entre israelenses e palestinos pode não resolver de fato esta dúvida. Pode, simplesmente, complicar ainda mais os ancestrais problemas da identidade. Envolverde/IPS

