Durban, África do Sul, 28/10/2010 – Capacitar as mulheres para operações de paz “não é algo que se possa fazer duas semanas antes” de enviá-las às zonas de conflito, disse Florence Butegwa, representante do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) junto à União Africana e à Comissão Econômica da ONU para a África.

A soldado Linda Mensah patrulha la cidade de Buchanan com o batalhão ganês da missão de paz da ONU na Libéria - Domínio Público
A Nigéria lidera o caminho na África quanto à presença feminina em forças de paz, e espera incrementar os números em linha com os esforços mundiais lançados há um ano para aumentar em 20% a proporção de mulheres nas operações da Polícia das Nações Unidas (UNPOL) até 2014.
Atualmente, 1.218 mulheres fazem parte da UNPOL (8,7% do total da força) em todo o mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Outros países africanos estão fazendo o mesmo. Ruanda enviará 130 mulheres para as forças conjuntas da União Africana e da ONU na região sudanesa de Darfur no final deste ano.
Contudo, lidar com a violência de gênero e reconhecer as relações de poder em matéria de gênero em uma área de conflito é responsabilidade de absolutamente todos, homens e mulheres, disse Florence à IPS.
IPS: Quais esforços específicos estão sendo feitos para garantir o recrutamento de mais oficiais mulheres nas forças de paz?
Florence Butegwa: Isso está sendo conversado na União Africana e com os países-membros, porque o recrutamento é responsabilidade de cada Estado. Em países como Ruanda estamos nos associando com o Ministério da Defesa e as forças policiais para garantir que o país aumente seu próprio recrutamento e se concentre nas mulheres das Forças Armadas. A ideia é garantir não apenas um aumento no número de mulheres nas Forças Armadas de Ruanda, como também que quando contribuírem para as operações da ONU e da União Africana que seja com mulheres bem capacitadas, para que façam uma diferença.
IPS: Como os Estados-membros estão respondendo?
FB: A resposta varia de país para país. Na Libéria, o esforço se concentrou em educar as Forças Armadas sobre direitos humanos. Muitas mulheres poderiam não se qualificar para ingressar nas Forças Armadas, em parte pelo nível de instrução que possuem. O governo conseguiu, com apoio das missões de paz e agências da ONU, elaborar um currículo especial para acelerar a qualificação de mulheres e homens jovens.
IPS: A Comissão da União Africana elabora um manual de capacitação de gênero para as operações de paz. Com será usado, e por quem?
FB: O Unifem apoia esta iniciativa, e o manual estará disponível para as instituições da União Africana e, o mais importante, para os países que contribuem com tropas. A ideia é que as questões de gênero sejam integradas no currículo do treinamento das Forças Armadas. Não é algo que para ser feito duas semanas antes de enviar as pessoas para as áreas de conflito. Para ser algo efetivo, deve ser parte da cultura de treinamento.
IPS: Que efeito as mulheres das forças de paz causam em áreas de conflito?
FB: Depende. Por exemplo, trabalhei na Libéria, onde foi observado que as mulheres sobreviventes, particularmente da violência de gênero, se sentem mais confortáveis na hora de se abrir com uma uniformizada. Porém, lidar com a violência de gênero, bem como reconhecer quais são as relações de poder vinculadas ao gênero em uma zona de conflito, é responsabilidade absoluta de todos, homens e mulheres. IPS/Envolverde

