A próspera China se revela aos vizinhos

Pequim, China, 28/10/2010 – A ansiedade pela atitude prepotente da China diante das disputas territoriais com seus vizinhos domina os dias que antecedem a quinta Cúpula da Ásia Oriental, que reunirá, no dia 30 deste mês, governantes de 16 nações em Hanói. Enquanto as tensões entre Pequim e Tóquio dão poucos sinais de cederem, muitos temem que, como a China superou o Japão como segunda maior potência mundial, se intensifiquem suas ambições de unificação mediante a reclamação de territórios perdidos.

Alguns, inclusive, dizem que o restabelecimento de uma ordem internacional onde a China ganhe supremacia na região – e além dela – está na agenda de Pequim. Um artigo publicado em outubro na edição online da revista norte-american Foreign Policy afirmava que Pequim abandonou sua filosofia de “auge pacífico”. Sugeriu que a China está retornando a uma perspectiva sinocêntrica do mundo, colocando-se no ponto mais alto da hierarquia política e vendo outros Estados soberanos como entidades inferiores.

A intranquilidade pelo ressurgimento dessa mentalidade na elite governante do país ficou exposta inclusive em meios de comunicação nacionalistas como o jornal Global Times, da China. “O êxito chinês é o resultado da reforma e da abertura, mas não acarretou uma mentalidade mais aberta. Pelo contrário, causou o regresso de uma ideologia centrada em sim mesma”, disse um artigo de opinião publicado no dia 11.

“As culturas que rodeiam a China historicamente se preocuparam em ficar sepultadas por outras civilizações poderosas. Agora, sentem-se incomodadas diante (…) da excessiva ênfase da China em sua própria civilização”, afirmava o artigo. Em setembro, o mesmo jornal declarou que as reclamações da China perante a prefeitura de Okinawa sobre as disputadas Ilhas Senkaku (Diaoyu, em chinês) são parte de uma reclamação mais ampla, que sustenta que o Japão as arrebatou da dinastia Qing (no poder entre 1644 e 1912).

Em setembro, quando eclodiram as disputas sobre essas ilhas entre China e Japão, Pequim cancelou reuniões diplomáticas com Tóquio. Também cessou a exportação de alguns materiais dos quais o Japão depende, e reclamou uma desculpa depois que Tóquio cedeu às suas demandas e libertou os detidos tripulantes de uma embarcação chinesa dedicada à pesca de arrastão.

Pequim também reagiu com fúria às declarações do chanceler japonês, que descreveram sua represália como “histérica”. A ira chinesa ficou palpável quando, no começo deste ano, os Estados Unidos enfrentaram suas reclamações sobre os territórios do Mar da China Meridional argumentando que se tratava de uma área marítima comum.

Em uma reunião sobre segurança da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), realizada em julho, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, enfatizou a importância de seu país aderir à liberdade de navegação no Mar da China Meridional, por considerá-lo um “interesse nacional”.

Nessas vias marítimas internacionais há pequenas ilhas, como as Spratly e as Paracel, que são reclamadas, total ou parcialmente, por não menos de seis países. O chanceler japonês, Yang Jiechi, respondeu que Pequim considera o Mar da China Meridional “um interesse nacional central” e que a “China é um país grande, e outros países são pequenos, e isso é simplesmente um fato”.

A maior parte das recentes disputas territoriais da China tem por objeto o mar, o que ilustra a nova campanha do país para aumentar seu espaço para o desenvolvimento bem como obter novos recursos energéticos e minerais.

Em agosto, Pequim anunciou que enviara um submarino tripulado para as profundidades do Mar da China Meridional para instalar a bandeira chinesa em seu leito e assim iniciar a busca por valiosos depósitos de minerais. Acredita-se que as ilhas Senkaku/Diaoyu também estão localizadas sobre depósitos submarinos de gás natural. Não parece mera coincidência.

A ênfase chinesa nos direitos sobre o mar não é nova e data da época do arquiteto da reforma econômica, Deng Xiaoping (1904-1997). Ao contrário de Mao Zedong (1893-1976), que travou guerras pela terra com países vizinhos, Deng destacou a importância da soberania chinesa e dos direitos marítimos.

Enquanto a economia chinesa cresce em ritmo acelerado, pressionando os recursos e os fornecimentos energéticos do país, a exploração marinha e o desenvolvimento cobram nova urgência. Nos últimos anos, a China tomou medidas para fortalecer sua defesa marítima e contar com uma moderna guarda costeira, paralela à dos Estados Unidos e do Japão.

Do ponto de vista de Pequim, a escalada de recentes disputas territoriais deve-se totalmente ao fato de os Estados Unidos voltarem a se envolver, com um alto perfil, na região. Em setembro, o presidente Barack Obama organizou uma cúpula com os dez membros da Asean e se comprometeu no sentido de seu país ter um “papel de liderança na Ásia”. Alguns já alertam que o ressurgimento dos Estados Unidos na região despojará a Asean de sua própria voz. Espera-se que a quinta Cúpula da Ásia Oriental convide os líderes da Rússia e dos Estados Unidos a participarem dela a partir de 2011.

Para Pequim, essas boas-vindas às “grandes potências” busca se contrapor ao auge da China. “Washington tenta semear desconfiança entre a China e a Asean”, disse Ma Ying, do Instituto de Xangai para os Estudos Internacionais, alertando que a região pode ficar novamente envolvida na batalha entre as duas superpotências pela influência na área. Envolverde/IPS

Antoaneta Becker

Antoaneta Becker is IPS’s senior China writer. After twelve years of field reporting in China, in 2010 Antoaneta relocated to the U.K. where she covers China’s interactions with the outside world, the new paradigms of E.U.-China-Africa relations, China’s attempts to forge a new development model and the country’s impact on global markets for commodities. Antoaneta studied at Beijing University—China’s most prestigious academy—obtaining a bachelor’s and a master’s degree in Chinese contemporary literature and film. She has reported on China for IPS, USA Today, The Economist Intelligence Unit, Outlook magazine and others. Fluent in Mandarin, Antoaneta has travelled extensively in greater China researching topics from environmental degradation to the overhaul of the country's state industries, the reform of the welfare system and the country’s increasingly large regional footprint.

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