Dakar, Senegal, 05/10/2010 – O feijão de olho negro é a nova estrela dos esforços para melhorar a situação econômica das mulheres e de suas famílias na África ocidental, afirmam pesquisadores. Cientistas reunidos na semana passada em Dakar, para a Quinta Conferência Mundial sobre o Feijão de Olho Negro concordaram que o produto tem potencial para impulsionar o desenvolvimento econômico e aliviar a pobreza na região. Os participantes do encontro também destacaram o potencial desse feijão para melhorar a condição de camponeses, industriais e vendedores. A pesquisadora Miriam Otto, estudante de doutorado do Departamento de Economia Agrícola da Universidade Purdue, dos Estados Unidos, apresentou um estudo sobre a venda de rua de produtos à base de feijão de olho negro em Níger e Gana. Sua pesquisa se concentrou na akara, uma torta frita feita com feijão de olho negro, também conhecida como kossai. Este alimento é quase sempre vendido por mulheres nas ruas.
Miriam coletou informação em Gana e Níger em 2009 por meio de entrevistas pessoais com 336 vendedoras. Os resultados do estudo indicaram que a produção da akara é muito importante para o desenvolvimento econômico por várias razões. Por exemplo, a pesquisa concluiu que as vendedoras ganhavam entre quatro a 16 vezes acima do salário mínimo em Níger e Gana, respectivamente, graças a esse produto.
As vendedoras, a maioria sem instrução formal, se serviam dessa renda para melhorar a saúde, a educação e para outras necessidades básicas de suas famílias. Além disso, geram uma demanda anual superior a 1,2 milhão de quilos de feijão de olho negro apenas em Niamey, a capital de Níger, e assim criam um dinâmico mercado para os produtores locais. “As vendedoras de rua utilizam grande quantidade de feijão de olho negro, e, apesar disso, têm sido um setor bastante ignorado pelos pesquisadores”, disse Miriam à IPS.
Além disso, destacou a necessidade de melhorar o acesso dessas mulheres a créditos, a espaços nos mercados e a melhores tecnologias de processamento para poder atender a crescente demanda dos consumidores. “Quando as vendedoras de rua tiveram acesso ao crédito, houve um invejável recorde de êxitos em suas empresas”, disse o estudo. Além disso, atualmente há pouquíssimos países africanos nos quais grupos da sociedade civil trabalhem para dar empréstimo às vendedoras. O estudo, portanto, recomendou a intervenção do governo.
Aissatou Diagne Deme possui um moinho que produz 800 quilos de farinha de feijão de olho negro por mês. “Forneço aos padeiros e às pessoas que a usam para preparar comida para as crianças”, disse a empresária à IPS, durante uma visita ao moinho no coração de Dakar. “Tenho bons pedidos, e gostaria de impulsionar o mercado, porque há um crescente interesse por essa farinha”, afirmou. Aissatou começou seu negócio em casa, em 1994, com investimento de US$ 12 mil, e agora emprega 52 mulheres e exporta para a Europa.
Segundo o Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), mais de quatro milhões de toneladas de farinha de feijão de olho negro são consumidas em todo o mundo por ano, 70% delas na África. Esta leguminosa, ignorada por muitos anos devido à sua escassa produção e divulgação, volta como “cultivo maravilha” por seu alto conteúdo de proteínas, sua capacidade de adaptação diante da mudança climática e seu uso como forragem para o gado na África.
O Instituto de Tecnologia Alimentícia em Dakar, que trabalha em colaboração com o governo do Senegal, desenvolve um pão fortificado para reduzir a deficiência de proteínas entre as crianças em idade escolar. O pão é feito com farinha, feijão de olho negro e amendoim. Apesar do renovado interesse por este feijão, sua oferta ainda é pequena para uso comercial. Uma das razões é seu alto custo de produção e por ser sensível a insetos e enfermidades. “A quantidade produzida neste momento é insuficiente para seu consumo”, disse à IPS Christian Fatokun, do IITA.
Bussie Maziya-Dixon, outro especialista do IITA, concorda. “Quanto à farinha de feijão de olho negro, temos muito pouco, simplesmente por não termos suficiente produção para criar um excedente para outros usos. Quando há, não basta para a fabricação de produtos tradicionais aos quais as pessoas estão acostumadas”, afirmou.
Por sua vez, o pesquisador Larry Murdock, disse à IPS que havia uma possibilidade de cultivar variedades melhoradas do feijão, que dessem melhores qualidades para seu processamento em farinha. “Talvez, algumas variedades sejam melhores para os moinhos, e isto também seria uma oportunidade para os produtores”, afirmou. Envolverde/IPS

