Kampala, Uganda, 05/10/2010 – Diante da perda da fertilidade do solo e a consequente baixa produção, agricultores ugandenses recorrem à urina humana para reverter a situação. A urina é uma ótima fonte de nitrogênio, fósforo e potássio, os elementos vitais para melhorar a resistência das plantas às doenças, segundo especialistas. Seu uso como fertilizante ajudará a reabilitar solos afetados pela erosão. Além disso, sai muito mais barato do que utilizar fertilizante químico e é especialmente útil para os pequenos agricultores que não costumam ter dinheiro para comprar insumos. Um saco de fertilizante de 50 quilos custa US$ 70 em Uganda, enquanto a urina nada custa. A ideia de usar urina como fertilizante líquido foi promovida pelo Ecological Sanitation (EcoSan), fabricante de banheiro sem água, com ajuda do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Os banheiros separam a urina das fezes em diferentes compartimentos para depois aproveitá-los como fertilizante líquido e adubo. Porém, a Cruz Vermelha só pode patrocinar uma quantidade limitada, pois custam entre US$ 320 e US$. 1.500. A maioria dos ugandenses– que ganham, em média, US$ 300 ao ano, segundo o Fundo Monetário Internacional –, não podem pagar um.
Os agricultores de mais de 30 distritos do país puseram toda a família a urinar em baldes. A agricultora Rose Nabirye, do distrito de Mayuge, era cética porque não parecia higiênico. Mas, depois de testar o novo fertilizante, ficou muito contente com os resultados. “Agora tenho recipientes atrás da latrina para coletar urina pela manhã e à tarde. Guardo em um depósito fechado por uma semana e misturo no adubo”, explicou. O novo insumo permitiu aumento da produção de milho e outros cultivos, disse Rose.
O agricultor Steven Nabuyaka, do distrito de Buduba, costumava gastar US$ 20 para comprar vários quilos de fertilizante por temporada para cultivar cebola, até que soube que a urina humana poderia ser usada para esse fim. Depois que a Cruz Vermelha e a organização católica beneficente Caritas começaram a informar sobre os benefícios da urina, a notícia se espalhou rapidamente pelas comunidades agrícolas.
“Testei e funciona”, disse, encantado, Steven. “Não comprei mais nenhum fertilizante na temporada passada e a produção foi boa. Testei com bananas e os resultados são promissores”, acrescentou. Ele também descobriu que a urina ajuda a matar as pragas, especialmente da banana.
Como para Steven, para a maioria dos agricultores a urina é uma alternativa viável para nutrir a terra. Uganda está entre os países que usam menos fertilizantes da África, com 0,37 quilos por hectare, abaixo dos seis quilos utilizados na Tanzânia, os 16 de Malaui, ou dos 31,6 do Quênia e os 51 de África do Sul, segundo estudo feito em 2006 pelo Departamento de Agricultura. A causa desse baixo uso de fertilizantes é seu preço excessivo, sua má distribuição em áreas rurais e a percepção dos agricultores de que o solo não precisa de reabastecimento, indica a pesquisa.
O esgotamento e a erosão são há décadas o principal problema em Uganda, o que levou à degradação de terras aráveis e à consequente insegurança alimentar. O solo perde nutrientes a uma velocidade alarmante enquanto os agricultores se esforçam para produzir alimentos para uma população em crescimento. A produtividade agrícola ficou paralisada por falta de nutrientes no solo, confirmou o professor Matete Bekunda, especialista da Faculdade de Agricultura, da Universidade de Makerere, em Kampala.
Um dos grandes problemas é que os agricultores já não deixam a terra em descanso para que se recupere. “O crescimento da população os obriga a cultivar temporada após temporada. Assim, prejudicam os nutrientes e impedem o reabastecimento do solo. Nessas condições, a produção é baixa”, explicou. A população de Uganda cresce à taxa anual de 3,3%, acima da média mundial de 1,1%, segundo informe de 2009 do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat). Cerca de 80% dos habitantes deste país dependem da agricultura e dos recursos lacustres. Envolverde/IPS

