O Japão pinta a Ásia de verde

Tóquio, Japão, 11/10/2010 – Pode não ser fácil imaginar o industrializado e tecnológico Japão como um incentivador de políticas verdes. Porém, várias nações da Ásia desenvolvem projetos ambientais graças à sua ajuda. Desde o começo da década de 1990, o Japão se envolveu em várias iniciativas verdes em toda a Ásia, fundamentalmente por meio de sua ajuda oficial ao desenvolvimento (ODA), empréstimos e transferência de tecnologia. Uma das mais recentes aborda os impactos da mudança climática na agricultura, e levou alguns dos principais especialistas japoneses no setor a trabalhar no norte da Tailândia. Segundo Masato Oda, o projeto que supervisionou nesse país no ano passado permite que os agricultores tailandeses aproveitem melhor a água para suas plantações. Já que não exige muito dinheiro nem alta tecnologia, pode ser replicado no restante da Tailândia ou em outros países.

Masato afirmou que a metodologia é aplicável em nações asiáticas como Camboja, onde as constantes secas obrigam os camponeses a realizarem grandes esforços de irrigação. “O bom de todo o projeto é que os agricultores não precisam ser cientistas para ter êxito”, destacou. “Tudo o que devem saber é trabalhar mais duro nas plantações e outras poucas condições importantes, como seleção de sementes de alta qualidade, todas coisas que não estão longe de seu alcance”, disse.

O solo no norte da Tailândia é arenoso. As chuvas ali variam entre 800 e mil milímetros durante seis meses, mas no resto do ano geralmente há condições de seca. A situação agravou-se com o aquecimento global. Entretanto, muitos agricultores mantêm suas áreas de cana-de-açúcar com métodos de irrigação intensa, duas vezes ao dia. Segundo Masato, 12 famílias aplicaram um novo sistema de retenção de água da chuva financiado pelo Japão, que as ajudou a conservar pelo menos mil mililitros.

“Agora os produtores irrigam apenas uma vez por semana, e ainda obtêm boa colheita”, disse Masato, acrescentando que também começaram a cultivar tomates, e que o projeto concentra-se em maior aproveitamento da terra plantando mais e cobrindo toda superfície. Isto, explicou, reduz a evaporação da água. Além disso, os agricultores não precisam gastar tanto diesel para as máquinas que bombeiam água. Masato destacou que isto ajuda a mitigar a mudança climática, já que são liberados menos gases-estufa.

Com a ajuda ambiental de Tóquio, vários êxitos nos últimos 20 anos foram alcançados. Em 2006, por exemplo, ofereceu um crédito de US$ 6,82 milhões à China para combater as tempestades de areia e o dióxido de sulfureto propagado em cultivos pela chuva ácida. No mesmo ano, o Japão estendeu sua ajuda ambiental às Filipinas, para desenvolvimento da indústria local de reciclagem, bem como para conscientizar sobre a proteção dos rios.

Projetos ambientais relacionados representaram cerca de 4% da ODA japonesa nos anos 1990. Em 2008, cresceram mais de 20%. Tóquio explicou que esta era uma forma de reduzir a ênfase da ajuda “tradicional” ao Sul em infraestrutura, e destacou que se baseava em sua própria experiência de combate à contaminação quando se desenvolveu economicamente. Nos anos 1960 e 1970, o Japão construiu refinarias petroquímicas para atender sua crescente demanda energética no contexto de suas ambições industriais.

Quando se converteu em uma potência econômica, pagou seu êxito com a saúde da população: a grave contaminação do ar causou problemas respiratórios a milhares de japoneses. Em 2004, o Fundo Japonês para o Meio Ambiente Mundial começou a ajudar organizações não governamentais que trabalhavam em nível de base. Seu porta-voz, Takuya Kimura, disse que, em 2008, US$ 2 milhões financiaram 27 projetos ambientais, a maioria relacionada com preservação da água em nível comunitário. Destes projetos, 22 foram aplicados na Ásia, especificamente na Birmânia, Índia e no Delta do Mekong.

Entretanto, especialistas afirmam que a ajuda verde japonesa poderia ser maior não fosse a falta de políticas claras e pelas recentes reduções da ODA. Como consequência, segundo um informe da Escola de Economia de Estocolmo, a ajuda ambiental japonesa se politizou e se baseia simplesmente nos pedidos dos beneficiários, sem estratégias definidas. A melhor ajuda ambiental do Japão é a que leva em conta a ecologia e o desenvolvimento humano, segundo o diretor da Academia Ambiental de Waseda, Takeshi Hara. “O que vemos agora é um forte enfoque em políticas de ajuda orientadas pelo mercado, baseadas na transferência de tecnologia verde. Isto não é o que o Japão deveria fazer”, disse Takeshi. Envolverde/IPS

* Este artigo da IPS é parte de uma série apoiada pela Rede de Conhecimentos sobre Clima e Desenvolvimento (http://www.cdkn.org/).

Suvendrini Kakuchi

Suvendrini Kakuchi is a Sri Lankan journalist based in Japan and covering Japan-Asia relations for more than two decades. Her focus is building understanding and respect between diverse populations in Asia based on equality and collaboration.

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