Nova vacina contra a tuberculose em pauta

Kigali, Ruanda, 11/10/2010 – Na busca por uma nova vacina contra a tuberculose, “esperamos que a proteção seja duradoura, mas, até realizarmos os testes, registrarmos o produto e este ser usado por uma quantidade considerável de pessoas, não saberemos”, disse à IPS o pesquisador Anthony Hawkridge. Apesar da existência de uma vacina, em 2008 morreram 1,2 milhão de pessoas vítimas de tuberculose no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. A maioria vivia na África e no sudeste asiático. Administrada em bebês do mundo em desenvolvimento e em alguns países industrializados, a vacina do bacilo Calmette-Guérin (BCG), criada há quase 90 anos, protege contra a tuberculose pediátrica. No entanto, oferece uma proteção variável contra outros tipos da doença, e, em alguns casos, nenhuma. Para mudar isto, a organização de pesquisa sem fins lucrativos Aeras Global TB Vaccine Foundation tenta encontrar uma substituta para a BCG.

A nova vacina, chamada Aeras-422, é uma versão moderna da BCG que, se espera, dará uma proteção de longo prazo contra todas as formas de tuberculose. Atualmente, passa pelos primeiros testes médicos nos Estados Unidos. Além disso, a Aeras apoia, em colaboração com o laboratório holandês Crucell, a pesquisa de quatro possíveis vacinas contra a enfermidade, projetadas como um reforço para administrar em crianças e adolescentes que já receberam uma dose.

Em entrevista à IPS, o pesquisador Anthony Hawkridge, da Aeras Foundation, disse que os testes clínicos da vacina de reforço chegaram à fase IIB (que busca estudar sua eficácia) e logo começarão em bebês do Quênia. Também serão feitos testes na África do Sul, Uganda e Índia.

IPS: Porque foi escolhido fazer os testes IIB na África e na Índia?

ANTHONY HAWKRIDGE: Os últimos testes clínicos, durante os quais é analisado se a vacina protege contra a tuberculose, só podem ser feitos em áreas do mundo onde exista muita tuberculose, onde é provável que os voluntários estejam expostos à tuberculose, em suas casas, escolas, no trabalho, nas aldeias, etc.

IPS: A vacina BCG, atualmente disponível, tem várias desvantagens pois não impede totalmente que as crianças desenvolvam a doença, nem protege os adultos infectados. Além disso, a proteção não é para toda a vida. Como a nova vacina mudará isto?

AH: Esperamos que pelo menos uma das candidatas a nova vacina demonstre ser mais eficaz na prevenção da tuberculose, não apenas em bebês como também em todas as faixas etárias e em populações variadas, como as pessoas infectadas com HIV (vírus da deficiência imunológica humana), causador da aids. Esperamos que a proteção seja duradoura, mas enquanto não forem feitos os testes, registrado o produto e este for usado em quantidade considerável de pessoas, não saberemos. Temos dados de estudos feitos em animais e de testes clínicos de uma fase anterior, mas não é possível extrapolar isso e dizer que as novas vacinas definitivamente funcionarão. Só podemos esperar que isso aconteça.

IPS: Quais são os resultados esperados dos testes da fase IIB?

AH: É difícil quantificar os resultados. Desenvolver vacinas contra a tuberculose é extremamente difícil. Embora uma candidata a vacina pareça bastante segura, bem tolerada e capaz de provocar uma resposta imunológica nos primeiros estudos, simplesmente pode fracassar na última etapa e não apresentar uma proteção significativa. Ou pode provocar uma inesperada preocupação em matéria de segurança que não foi vista nos primeiros testes, como ocorreu com uma das primeiras vacinas contra o rotavírus. Contudo, estamos muito otimistas quanto a haver muitas candidatas aparentemente boas. E temos muitas esperanças de que pelo menos uma tenha êxito.

IPS: Quais padrões o senhor fixa para proteger os bebês que participam dos testes?

AH: Os patrocinadores e pesquisadores realizam testes com base no que se conhece como Boas Práticas Clínicas. Trata-se de uma série de padrões internacionais para as pesquisas clínicas, e parte do que fazem é garantir que os participantes dos testes estejam protegidos. Algo que especificam é que todo protocolo de testes seja avaliado por um comitê de ética de pesquisa competente e independente, cujo trabalho é garantir que os direitos e a segurança dos participantes nos testes sejam devidamente considerados. No entanto, definitivamente, é responsabilidade do pesquisador principal do teste garantir que o trabalho aconteça de acordo com os máximos padrões internacionais aceitos.

IPS: Se os testes forem positivos, quando poderá estar disponível a nova vacina?

AH: Durante anos, falamos de 2015 ou 2016. Penso que falar em 2020 é mais realista.

IPS: Que impacto espera que tenha na África a nova vacina?

AH: Dependerá de sua eficácia, mas sem uma vacina melhor contra a tuberculose será difícil reverter a epidemia na África. Envolverde/IPS

Aimable Twahirwa

Aimable Twahirwa is a senior reporter and science journalist based in Kigali, Rwanda with 10 years of experience. Aimable holds a bachelor's degree in computer science studies with a diploma is science journalism.

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