Dinheiro insuficiente vai contra o combate à aids

Nações Unidas, 08/10/2010 – O compromisso de doar US$ 11,7 bilhões para refinanciar o Fundo Mundial de Luta Contra a Aids, a Tuberculose e a Malária nos próximos três anos é insuficiente e ameaça reverter os avanços obtidos no combate a essas doenças. Esse compromisso foi assumido no dia 5, quando se esperava chegar aos US$ 20 bilhões nas campanhas contra essas três enfermidades infecciosas mais mortais do mundo. Essa diferença de US$ 8,3 bilhões “causará a morte de milhões de pessoas por doenças que de outro modo poderiam ser tratadas. Já não serão viáveis os ambiciosos programas por país, que poderiam ser a diferença entre a vida e a morte”, disse Jennifer Cohn, assessora de políticas sobre HIV/aids da organização Médicos Sem Fronteiras. O Fundo Mundial, financiado por entidades públicas e privadas, dá dinheiro a diferentes países para que apoiem programas de tratamento e prevenção das três enfermidades.

Estima-se que estes programas salvaram cerca de 5,7 milhões de vidas, resultados que o diretor do Fundo Mundial, Michel Kazatchkine, disse não serem esperados nem mesmo há três anos. Mas devido ao subfinanciamento, Kazatchkine se preocupa com a possibilidade de os êxitos serem revertidos. Se a quantia comprometida agora é a última palavra dos doadores, não bastará nem para atender as demandas mais ínfimas para o próximo triênio e nem para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, ressaltou.

Para ampliar os programas do Fundo foram propostos três cenários de financiamento para o período 2011-2013. Cada quantia corresponde a diferentes calendários para o êxito dos objetivos de saúde. Se não se alcançar a soma mínima, os países não poderão expandir seus programas tão rapidamente como esperavam, por isso continuará morrendo gente, disse Kazatchkine. Inclusive agora, “há pessoas que morrem de doenças preveníveis e que podem ser tratadas. Esta é a realidade do mundo: tem gente sem acesso a cuidados médicos que morre por estas doenças, e isto é um escândalo”, disse.

Mesmo que a escassez de fundos não elimine programas, o esforço para ampliar o trabalho do Fundo é considerado necessário para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, definidos em 2000 pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, tendo 2015 como data limite. O sexto deles é combater o HIV/aids, a malária e outras doenças, entre elas a tuberculose.

Os especialistas estimam que até 2015 pode-se conseguir redução de um terço nas mortes por tuberculose, menos naquelas causadas por cepas resistentes aos remédios. E também uma cobertura universal de mosquiteiros – para proteger contra os mosquitos que transmitem a malária – inclusive para 2012. O mais destacável é a perspectiva de pôr fim às mortes por malária nos próximos cinco anos. Se isto for alcançado, essa erradicação será um dos maiores triunfos contemporâneos em matéria de saúde.

Como o Fundo Mundial é a maior fonte multilateral de financiamento dos esforços contra as três enfermidades, funcionários da saúde e organizações não governamentais se preocupam com a eventualidade de a escassez de recursos para os próximos três anos colocar em risco as possibilidades de sucesso. Segundo Kazatchkine, se não houver mais dinheiro será preciso tomar decisões difíceis, que poderão afetar a saúde e o meio de sustento de milhões de pessoas.

Por exemplo, Carol Nawina Nyirenda disse que um país pode ter de optar entre buscar recursos para financiar um programa contra a tuberculose ou um contra o HIV/aids. No entanto, as duas enfermidades estão estreitamente vinculadas: a tuberculose é a principal causa de mortes entre os que vivem com HIV/aids. Nyirenda, coordenadora nacional da Iniciativa Comunitária para a Tuberculose, o HIV/aids e a Malária em Zâmbia, disse à IPS que a brecha de financiamento terá efeitos reais para as populações locais.

Para cada duas pessoas que recebem tratamento contra HIV/aids, outras cinco são infectadas. Tal como estão as coisas, o Fundo Mundial poderá continuar fornecendo recursos para tratar as primeiras duas pessoas. “Mas, o que acontecerá com as cinco novas infectadas?”, perguntou Nyirenda. Sem os recursos necessários, “o Fundo Mundial não poderá manejá-las”, respondeu, acrescentando que isso terá consequências de longo alcance. Boa parte dos êxitos obtidos no combate ao HIV/aids pode ser atribuída à redução do estigma social que cerca a doença, o que preparou o caminho para que as pessoas façam os exames e busquem tratamento. Mas se não receberem o tratamento, o estigma voltará, disse à IPS.

Às vezes, as pessoas passam entre um e dois anos em listas de espera para poderem fazer o tratamento, explicou Nyirenda. Se esta situação ficar mais dominante, ou se estas pessoas não receberem todo o tratamento, outros de sua comunidade se sentirão desanimados, perguntando qual o sentido de fazer os exames, acrescentou. E, não se tratando, morrerão precocemente, disse. “A brecha é preocupante. Gostemos, ou não, vai morrer gente”, ressaltou à IPS. Envolverde/IPS

Aprille Muscara

Aprille Muscara is based in Washington, D.C. and is IPS’s online content and community manager. Prior to this position, she was the deputy bureau chief in Washington, D.C., covering global issues and United States foreign policy. She joined IPS in 2010 as a United Nations correspondent in New York covering the U.N. Security Council, international development and human rights. She is also co-coordinator of IPS’s North America intern programme. Aprille’s work has been published by IPS, Al Jazeera English, Truthout, Reuters AlertNet, Asia Times, Lobelog.com and The Electronic Intifida, among other outlets and translated into multiple languages worldwide.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *